Obra milionária, queda repentina e muitas perguntas sem resposta: O que se sabe sobre o colapso de ponte no Acre?

Inaugurada há pouco mais de dois anos como símbolo da gestão Gladson Camelí, ponte Frei Paolino desabou um dia após ser interditada e deixou quatro feridos em Sena Madureira

A queda da ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira, se tornou um dos principais assuntos do Acre e ganhou repercussão nacional neste sábado (6). A estrutura, inaugurada em dezembro de 2023 como um símbolo da gestão do ex-governador Gladson Camelí (PP), desabou no início da noite de sexta-feira (5), apenas um dia após ser interditada por risco de erosão nas margens do Rio Iaco.

🔎Gladson Camelí deixou o cargo em abril de 2026 para disputar uma vaga no Senado Federal e foi sucedido por Mailza Assis. Pouco mais de quatro meses após a renúncia, o ex-governador foi condenado pela Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) a 25 anos e 9 meses de prisão pelos crimes de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações.

Crianças observam escombros da ponte na manhã seguinte ao desabamento. Foto: Gleison Júnior/Orna Audiovisual

Construída ao custo de R$ 36 milhões em recursos públicos estaduais, a ponte tinha 232 metros de extensão e era considerada um marco da infraestrutura acreana. Na inauguração, o governo destacou a obra como a solução definitiva para a ligação entre o Primeiro e o Segundo Distrito de Sena Madureira, uma reivindicação histórica da população local.

O desabamento ocorreu pouco antes das 18h, conforme mostram imagens de câmeras de segurança obtidas pelo Proa. Os vídeos registram o momento em que a estrutura cede e cai sobre o Rio Iaco em poucos segundos.

VÍDEO

Até a manhã deste sábado, quatro pessoas haviam sido resgatadas com vida. Uma delas permanece internada em estado gravíssimo.

Como a ponte caiu

A sequência dos acontecimentos começou no último dia 28 de maio, quando o Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária do Acre (Deracre) recebeu informações sobre o surgimento de uma fenda na cabeceira da ponte.

Após uma vistoria técnica realizada pelo Corpo de Bombeiros Militar, foi constatado o avanço do fenômeno conhecido como “terras caídas” nas margens do Rio Iaco. O processo erosivo levou à recomendação de interdição imediata da estrutura.

Na quinta-feira (4), o governo do Acre anunciou o fechamento preventivo da ponte e informou que a construtora Cidade Ltda., responsável pela obra, havia sido notificada para avaliar a situação e propor medidas corretivas.

Menos de 24 horas depois, a estrutura desabou.

Ponte desabou menos de 24 horas depois de ser interditada. Foto: Gleison Júnior/Orna Audiovisual

Estado de saúde das vítimas

Boletim divulgado pela Secretaria de Estado de Saúde (Sesacre) na manhã deste sábado aponta que uma das vítimas permanece em estado gravíssimo.

O juiz aposentado do Tribunal de Justiça do Acre (TJAC), Edinaldo Muniz, de 54 anos, está internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Pronto-Socorro de Rio Branco.

Segundo a Sesacre, ele passou por cirurgia para correção de uma fratura pélvica, sofreu traumatismo cranioencefálico grave e permanece sob ventilação mecânica. Pouco antes do acidente, Muniz realizava uma transmissão ao vivo nas redes sociais.

Ednei Muniz dos Santos, de 51 anos, apresenta quadro estável e aguarda cirurgia para tratamento de uma fratura no antebraço.

Antônio Morais Lima Filho, de 36 anos, também está estável e deverá ser submetido a procedimento cirúrgico para correção de uma fratura no fêmur.

Já Weverton Murieta, de 34 anos, recebeu alta médica neste sábado após atendimento e realização de exames.

Juiz aposentado Edinaldo Muniz fazia uma transmissão ao vivo no local momentos antes do desabamento. Foto: Reprodução

Obra foi entregue como símbolo da gestão Gladson

Quando foi inaugurada, em 19 de dezembro de 2023, a ponte Frei Paolino Baldassari foi apresentada pelo governo como uma das maiores realizações da gestão Gladson Camelí em Sena Madureira.

(Governo entrega ponte que tira Segundo Distrito de Sena Madureira do isolamento)

Durante a solenidade de entrega, o governador afirmou que a obra representava o cumprimento de um compromisso histórico com a população do Segundo Distrito.

Ex-governador Gladson Camelí durante inauguração da ponte em Sena Mdureira. Foto: Juan Vicent/Proa

“Isso aqui é compromisso em mudar a vida das pessoas. O trabalho conjunto entre Estado, prefeitura e a Assembleia Legislativa foi o que tornou a realização desse sonho da população possível. Agradeço também a nossa vice-governadora Mailza Assis, que tem desempenhado um trabalho importante no Estado”, afirmou Gladson Cameli durante evento da inauguração.

A construção levou cerca de 22 meses para ser concluída e recebeu investimento de R$ 36 milhões, dos quais R$ 20 milhões foram destinados pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran/AC).

Na época, o governo destacou que mais de 2,5 mil pessoas seriam beneficiadas diretamente pela nova ligação entre os dois distritos da cidade.

Ponte desabou pouco mais de dois anos após entrega. Foto: Juan Vicent/Proa

A obra foi executada pelo Estado, por meio do Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária do Acre (Deracre) com a Construtora Cidade Ltda.

O contrato nº 011/2022 foi celebrado durante a gestão do então presidente do Deracre, o engenheiro civil Petronio Antunes, que comandava a autarquia responsável pela contratação, fiscalização e acompanhamento das obras de infraestrutura do Estado à época.

Governo responsabiliza construtora

Em nota divulgada neste sábado, o governo do Acre e a Procuradoria-Geral do Estado (PGE) afirmaram que a responsabilidade técnica pelo projeto e pela execução da obra é da Construtora Cidade Ltda.

Segundo o Estado, a contratação ocorreu na modalidade integrada, modelo em que a empresa assume a elaboração dos projetos básico e executivo, além da execução da construção.

O governo também destacou que o recebimento definitivo da obra ocorreu em janeiro de 2024 e que a empresa continua dentro do prazo legal de cinco anos de garantia previsto no Código Civil.

A PGE informou que prepara medidas judiciais para obrigar a construtora a reconstruir ou apresentar uma solução alternativa para a travessia, além de garantir assistência às vítimas. O Estado também estuda solicitar o bloqueio cautelar de bens da empresa no valor do contrato.

Governo do Acre e a Procuradoria-Geral do Estado afirmaram que a responsabilidade técnica pelo projeto e pela execução da obra é da Construtora Cidade. Foto: Gleison Júnior/Orna Audiovisual

Ponte tinha equipe de gestão e fiscalização designada pelo Deracre

Embora o governo do Acre tenha atribuído à Construtora Cidade Ltda. a responsabilidade técnica pelo projeto e pela execução da ponte Frei Paolino Baldassari, documentos oficiais mostram que o Deracre mantinha servidores designados para acompanhar a execução do contrato.

A Portaria nº 183, de 25 de março de 2024, assinada pela atual presidente do Deracre, Sula Ximenes, designou os responsáveis pela gestão e fiscalização do Contrato Deracre nº 011/2022, firmado com a Cidade para a construção da ponte sobre o Rio Iaco e seus acessos.

A própria portaria destaca que cabe aos fiscais verificar a correta execução do objeto contratado, tanto nos aspectos quantitativos quanto qualitativos, além do cumprimento das normas técnicas aplicáveis. O documento também estabelece que gestores e fiscais podem responder por eventuais danos causados ao poder público caso deixem de cumprir suas atribuições.

Portaria Deracre designando os responsáveis pela gestão e fiscalização do Contrato, publicada no Diário Oficial do Acre. Foto: Reprodução

Quem é a Construtora Cidade

A Construtora Cidade Ltda., apontada pelo governo do Acre como responsável pelo projeto e pela execução da ponte Frei Paolino Baldassari, tem sede em Porto Alegre (RS) e atua há mais de cinco décadas no setor de infraestrutura. Fundada em 1969, a empresa é especializada na construção de obras de arte especiais, categoria que inclui pontes, viadutos, passarelas e túneis.

De acordo com informações institucionais e cadastrais, a empresa possui capital social de R$ 30 milhões e tem como principal atividade econômica a construção e recuperação de pontes e outras grandes estruturas de engenharia.

Em seu site institucional, a construtora afirma possuir experiência em projetos de infraestrutura em diferentes regiões do país, incluindo obras em concreto armado, concreto protendido e estruturas estaiadas. A empresa também destaca atuação em serviços de inspeção, recuperação, reforço e manutenção de estruturas.

No Acre, a obra de maior visibilidade da empresa é justamente a ponte Frei Paolino Baldassari, inaugurada em dezembro de 2023 em Sena Madureira. Após o desabamento da estrutura, o governo estadual informou que a contratação ocorreu na modalidade integrada, modelo em que a empresa assume a elaboração dos projetos básico e executivo, além da execução da obra.

Até o momento, a Construtora não se pronunciou publicamente sobre as causas do colapso.

Construtora ainda não se pronunciou publicamente sobre as causas do colapso. Foto: Gleison Júnior/Orna Audiovisual

Ministério Público e Tribunal de Contas iniciam apurações

O desabamento da ponte também mobilizou os órgãos de controle e fiscalização do Estado. Na noite de sexta-feira (5), o Ministério Público do Acre (MPAC) informou que a Promotoria de Justiça Cível e Criminal de Sena Madureira instaurou procedimento para apurar as causas do colapso da estrutura e eventuais responsabilidades pelo ocorrido.

Segundo o órgão, entre as medidas já determinadas estão a realização de perícia técnica, vistorias especializadas e a requisição de documentos e informações aos órgãos públicos e empresas envolvidos na obra. A investigação contará ainda com atuação conjunta das áreas criminal e de defesa do patrimônio público.

O MPAC informou que uma equipe do Núcleo de Apoio Técnico (NAT) foi deslocada para Sena Madureira para realizar inspeções e auxiliar na coleta de informações que possam contribuir para o esclarecimento dos fatos.

Em nota assinada pelo procurador-geral de Justiça, Oswaldo D’Albuquerque Lima Neto, a instituição afirmou que acompanhará o caso com foco na transparência, na proteção do patrimônio público e na responsabilização de eventuais envolvidos.

Ministério Público e Tribunal de Contas iniciam apurações. Foto: Gleison Júnior/Orna Audiovisual

Também neste sábado (6), o Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC) anunciou a abertura de uma apuração própria sobre o caso.

Em nota, a presidente da Corte, Dulce Benício, classificou o episódio como de “extrema gravidade” e determinou o envio imediato de auditores a Sena Madureira para acompanhar a situação e reunir informações técnicas.

Segundo o tribunal, a análise deverá abranger todas as etapas do empreendimento, desde a elaboração do projeto e a contratação da obra até a execução dos serviços, os procedimentos de fiscalização, o recebimento da estrutura e o monitoramento realizado após sua entrega à população.

O TCE afirmou que “nenhuma hipótese será descartada” durante as investigações e destacou que a “sociedade acreana tem o direito de conhecer as causas” que levaram ao desabamento de uma obra pública considerada estratégica para o município e financiada com recursos públicos.

Nota governo do Acre

O governo do Estado, por meio do Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária do Acre (Deracre) e da Procuradoria Geral do Estado (PGE), vem a público prestar esclarecimentos sobre as questões jurídicas que envolvem o desabamento da Ponte Frei Paolino Baldassari, ocorrido na noite desta sexta-feira, 5, em Sena Madureira e as responsabilidades judiciais que recaem sobre a construtora Cidade, executora da obra.

A obra foi contratada sob a modalidade integrada, por meio do Contrato Deracre nº 011/2022. Nessa modalidade, a empresa Construtora Cidade assumiu integralmente a responsabilidade pelo projeto básico, projeto executivo e execução da obra, sendo a única responsável pelas decisões técnicas que determinaram a concepção e a construção do equipamento.

É importante ressaltar que o projeto técnico, assim como todas as análises que envolvem a construção ficou por conta da empresa, sem participação do Deracre ou do governo do Estado na concepção e execução do projeto.

O recebimento definitivo da obra ocorreu em 19 de janeiro de 2024. Nos termos do art. 618 do Código Civil, o empreiteiro responde por cinco anos pela solidez e segurança da obra, o que mantém a empresa dentro do prazo legal de garantia e sujeita às responsabilidades dele decorrentes, inclusive reparação de todo e qualquer dano dela decorrente.

Informações preliminares apontam que a variação no nível das águas do Rio Iaco, que ocorrem anualmente com cheias de alta densidade e seca severa, por conta de efeitos climáticos já detectados no Acre em toda a região Amazônica, podem ter sido fator determinante para o colapso da estrutura. É o que se convencionou chamar de efeito de terras caídas e que ocorre principalmente em rios jovens em formação e de águas turvas, caso do Rio Iaco.

Ressalte-se que a empresa tem vasta experiência em construção de pontes na região amazônica sendo, portanto, esperado que seus projetos contemplem soluções para o fenômeno das terras caídas para garantia da segurança da obra.

A Procuradoria-Geral do Estado adotará, com urgência, as medidas judiciais cabíveis, incluindo o ajuizamento de tutela antecipada para compelir a empresa a reparar, reconstruir ou adotar solução substitutiva para a travessia, às suas expensas, além de garantir assistência aos feridos.

Estuda-se, ainda, o requerimento de bloqueio cautelar de bens no valor integral do contrato, com possibilidade de substituição por seguro-fiança, preservando a capacidade operacional da empresa para a execução imediata das medidas necessárias.

O Estado acompanha de perto os desdobramentos do ocorrido, presta solidariedade às famílias afetadas e assegura que todas as providências administrativas e judiciais serão tomadas para responsabilizar os culpados e restabelecer a mobilidade da população do Segundo Distrito de Sena Madureira com rapidez e responsabilidade jurídica das partes envolvidas.

Deracre
Procuradoria-Geral do Estado
Governo do Estado do Acre

Nota MPAC

O Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) informa que a Promotoria de Justiça Cível e Criminal de Sena Madureira instaurou procedimento para apurar as causas do desabamento da Ponte Frei Paolino e eventuais responsabilidades decorrentes do ocorrido.

Entre as medidas determinadas estão a realização de perícia técnica, vistorias especializadas, requisição de documentos e informações aos órgãos e empresas envolvidos, além da atuação integrada das áreas criminal e de defesa do patrimônio público.

O Núcleo de Apoio Técnico (NAT) do MPAC já deslocou equipe especializada para o município para realizar inspeções e auxiliar na coleta de elementos técnicos que contribuirão para o esclarecimento dos fatos.

O MPAC reafirma seu compromisso com a transparência, a defesa do patrimônio público e a responsabilização de eventuais envolvidos.

Rio Branco, Acre, 5 de junho de 2026.

Oswaldo D’Albuquerque Lima Neto
Procurador-Geral de Justiça

Nota TCE-AC

O Tribunal de Contas do Estado do Acre, por sua presidente, conselheira Dulce Benício, lamenta profundamente a trágica queda da ponte sobre o Rio Iaco, ocorrida nesta sexta-feira, 5 de junho, em Sena Madureira. Trata-se de um episódio de extrema gravidade, que afeta diretamente a segurança da população e compromete uma importante estrutura de mobilidade e integração regional do Estado.

Neste momento, membros e servidores do TCE-AC manifestam solidariedade às pessoas atingidas pelo acidente, aos seus familiares e a toda a população sena-madureirense, que acompanha com apreensão os desdobramentos desse tragédia.

Diante da dimensão dos fatos, a presidente Dulce Benício, determinou o deslocamento imediato de auditores a Sena Madureira para acompanhar a situação e reunir informações técnicas que subsidiem a atuação institucional do Tribunal, que conduzirá a apuração com o máximo rigor técnico que a gravidade do caso exige, examinando minuciosamente todas as etapas do empreendimento, desde a concepção do projeto, contratação e execução da obra até os procedimentos de fiscalização, recebimento e monitoramento da estrutura após sua entrega.

Nenhuma hipótese será descartada e nenhuma eventual responsabilidade deixará de ser apurada. A sociedade acreana tem o direito de conhecer as causas que levaram a um episódio dessa magnitude, especialmente em se tratando de uma obra pública de elevado valor estratégico e financiada com recursos da população.

O Tribunal de Contas cumprirá integralmente seu dever constitucional de buscar a verdade dos fatos e identificar responsabilidades.

Rio Branco-Acre, 06 de junho de 2026.

*Tribunal de Contas do Estado do Acre*

Publicidade
banner docs epop bari 01