“Alma do Bom Sucesso”, a santa da floresta

A história de Raimunda Moreno da Silva, parteira e seringueira que morreu em 1909 e teve sua memória transformada em devoção no coração da floresta acreana.

Um conto de José Díaz

No antigo Seringal Paraguaçu, fundado pelos irmãos Freire entre 1904 e 1905, havia uma colocação chamada Bom Sucesso, situada nas terras do Seringal Icuriã, que pertencia ao antigo Seringal Guanabara. Em plena Amazônia acreana, a cerca de 40 quilômetros de Paraguaçu, Bom Sucesso era cercada por outras colocações e por estradas de seringa que cortavam a mata.

Era ali que vivia o casal de seringueiros nordestinos João Moreno e Raimunda Moreno da Silva.

A história de Raimunda atravessou gerações pela memória dos seringueiros. Embora não existam registros escritos capazes de comprovar todos os acontecimentos, há relatos de pessoas que a conheceram, registros da Igreja e diferentes versões preservadas pela tradição oral. Todos convergem para a lembrança de uma mulher bondosa, parteira e conhecedora das plantas da floresta, cuja morte trágica, em junho de 1909, deu origem à devoção à chamada “Alma do Bom Sucesso”.

Pela estrada de seringa devotos buscam a “Alma do Bom Sucesso”, para agradecer graças alcançadas e renovar pedidos de proteção. Foto: Arquivo/José Diaz

Antes de ser lembrada como santa, Raimunda era uma mulher da floresta. Cuidava da casa, ajudava o marido no corte da seringa, atendia doentes, acompanhava mulheres grávidas e nunca recusava ajuda a quem atravessasse seu caminho. Sua vida, como a de tantos seringueiros nordestinos que chegaram ao Acre, era feita de trabalho, isolamento e resistência.

Foi também assim que ela viveu seus últimos momentos.

Em junho de 1909, as matas da Amazônia acreana começavam a experimentar o verão. As chuvas diminuíam, as noites ficavam mais amenas e os primeiros sinais da tradicional friagem anunciavam a mudança do tempo. Os açaizeiros floresciam, atraindo milhares de abelhas, enquanto, no quintal do barraco de Raimunda, dois grandes açaizeiros e um bacuri faziam sombra sobre seu pequeno canteiro de cheiro-verde.

Raimunda estava no nono mês de gravidez.

Raimunda morreu em junho de 1909, durante o parto, ao pé de uma seringueira. Foto: Arquivo/José Diaz

Mesmo assim, naquele dia, decidiu acompanhar João na colheita do látex na estrada cortada pelo marido. A chamada “estrada de porta”, próxima à casa, era a preferida de Raimunda: tinha apenas 75 seringueiras, muitas delas com até quatro bandeiras, e rendia uma boa colheita.

João saíra ainda de madrugada. Por volta das 11 horas, encerrou o corte e voltou para casa. Depois do almoço, composto por farofa de jabá, arroz e feijão, deitou-se na rede para descansar enquanto esperava o látex parar de escorrer das tigelas.

Raimunda, por sua vez, preparou o balde, o saco emborrachado e a liga de borracha. Depois foi à cozinha passar um café.

Ao ver o marido acordar, aproximou-se da rede:

— Acabei de fazer um cafezinho, tá bem quentinho no bule em cima do fogão. Te trago um gole?

João recusou.

— Quero não!… Quando voltar da colheita eu tomo.

Pouco depois, os dois desceram a escada do barraco, cada um com sua estopa nas costas e o balde na mão. No caminho, encontraram Cícero José, um velho conhecido que caçava nas proximidades.

Raimunda parou.

fiéis depositam flores, velas e pedidos aos pés do túmulo da “Santa Raimunda”. Foto: Arquivo/José Diaz

Como fazia com qualquer pessoa que chegasse à sua porta, lembrou-se primeiro da fome do outro.

— Tu me esperas um pouquinho, João? Nosso amigo Cícero deve estar com fome.

João seguiu adiante.

Raimunda pediu que Cícero aguardasse, subiu os degraus do barraco e voltou pouco depois com um prato de comida farto.

— Muito obrigada, dona Raimunda, a senhora é uma alma de Deus, que ele lhe dê em dobro.

Ela apenas respondeu que precisava seguir, pois tinha de fazer a colheita com o marido.

E assim, mais uma vez, Raimunda saiu pela estrada de seringa para cuidar dos outros e de seu próprio trabalho.

Os dois começaram a colher o leite das seringueiras. Árvore por árvore, tigela por tigela, Raimunda encheu um balde de aproximadamente oito litros. João recolheu o leite e o juntou ao seu. Ao final, tinham cerca de 28 litros para defumar.

João, apressado, tomou a frente no caminho de volta.

Raimunda ficou para trás.

Todos os anos, fiéis percorrem longas distâncias até o meio da floresta para visitar o túmulo de Raimunda Moreno. Foto: Arquivo/José Diaz

A estrada era difícil. Havia muitas ladeiras e pequenos igarapés atravessados por improvisadas “pinguelas”, feitas com troncos estreitos sobre a água. Com cuidado para não escorregar, Raimunda caminhava lentamente. Sabia que precisava chegar logo para ajudar na defumação, mas sabia também, como parteira, que o esforço poderia fazer o parto começar a qualquer momento.

João chegou primeiro ao barraco e começou a preparar o defumador. Abasteceu a fornalha com cavacos e aqueceu o leite. A fumaça começou a subir, branca e espessa, espalhando-se pela mata.

Só então percebeu que a mulher ainda não havia chegado.

Parou o trabalho e foi sentar-se na entrada do varadouro.

Enquanto João esperava, Raimunda continuava sozinha sua caminhada. Tinha como companhia o canto dos tucanos nas copas das castanheiras, o assovio de um pássaro seringueiro e, mais adiante, o canto dos papagaios.

Cansada, parava nas cabeças das ladeiras para recuperar o fôlego.

Aquela mulher conhecia aquelas estradas. Muitas vezes havia percorrido distâncias ainda maiores para ajudar uma vizinha doente ou acompanhar uma mulher grávida durante o parto. Não importavam as horas de caminhada nem as dificuldades do caminho.

Mas naquele dia era ela quem precisava de ajuda.

O túmulo da parteira passou a ser visitado por seringueiros que buscavam cura, proteção e auxílio. Foto: Arquivo/José Diaz

Já exausta, Raimunda viu uma clareira. Entre as copas das árvores, reconheceu uma seringueira próxima de sua casa. Ao chegar à árvore, ouviu o canto de um casal de papagaios e, escondido entre as folhas, o uirapuru.

A vontade de chegar em casa era grande. Pensava em ajudar João na defumação e preparar um chá de carmelitana ou de canela-do-mato. Mas o cansaço pesava nas pernas.

Ao redor da seringueira, havia um tapete de flores amarelas caídas de um açaizeiro.

Raimunda deitou-se sobre as folhas.

Por alguns instantes, deixou-se descansar sob a árvore que conhecia tão bem.

E foi ali, olhando para a seringueira da qual havia retirado o leite naquela manhã, que começou a pensar na própria vida daquelas árvores.

Os cortes se espalhavam pelo tronco. A casca se desprendia. Ainda assim, o leite branco continuava escorrendo.

Raimunda pensou em como as seringueiras, mesmo sangradas quase todos os dias, nunca paravam de doar o sangue branco de suas veias.

Uma riqueza que alimentava a ganância dos seringalistas às custas do trabalho sacrificado dos seringueiros, transformados em verdadeiros escravos a serviço do patrão.

Enquanto isso, João fumava um cigarro atrás do outro.

O defumador já havia consumido os primeiros cavacos e Raimunda não aparecia. Preocupado com o atraso do trabalho, decidiu ir ao encontro dela.

Pegou a faca, a espingarda e um pedaço de sernambi para fazer um facho, caso a noite o alcançasse na estrada.

Caminhou rapidamente pelo varadouro.

Não demorou a chegar à primeira seringueira.

Então ouviu frutas caindo atrás de si.

Eram papagaios.

João olhou para trás.

Foi quando viu Raimunda caída no chão.

Imaginou que estivesse apenas descansando.

— Raimunda?… Raimunda?… Acorda, muié! Vamos levar logo esse leite para defumar.

Ela não respondeu.

João puxou-a pelo braço.

Foi então que percebeu:

— Meu Deus…! Ela está morta…!

Entre as folhas, porém, alguma coisa se mexeu.

Era seu filho.

No lugar onde Raimunda viveu seus últimos momentos, a fé criou raízes. Foto: Arquivo/José Diaz

Raimunda havia entrado em trabalho de parto sozinha, no meio da floresta. Como a parteira que tantas vezes ajudara outras mulheres, realizou em si mesma os procedimentos que conhecia e conseguiu salvar a criança.

Ela, porém, não resistiu.

Morreu em consequência das complicações do parto e do esforço físico extremo daquela caminhada.

João retirou o saco de leite da estopa e acomodou o recém-nascido dentro dela. Tentou levantar o corpo da esposa, mas não conseguiu.

Antes de voltar ao barraco com o filho nos braços, percebeu algo que jamais esqueceria: havia um sorriso desenhado nos lábios de Raimunda.

Em casa, acomodou o menino na velha rede e disparou tiros no terreiro. Era a maneira que os seringueiros usavam para pedir socorro aos companheiros das colocações vizinhas.

Os homens começaram a chegar.

O primeiro foi Pernambuco, marido de Januária, cujo parto havia sido feito por Raimunda poucos dias antes. Ao saber do ocorrido, pegou a criança e correu para casa.

O bebê chorava, debilitado, precisando de leite.

Januária o recebeu no colo e dividiu com ele o leite que alimentava sua própria filha, Pedrina.

Naquela noite, Pernambuco retornou ao Bom Sucesso acompanhado de Ceará e Paraíba. Os quatro homens seguiram pela mata para buscar o corpo de Raimunda.

A escuridão já havia tomado a floresta. O caminho era iluminado apenas pelas porongas. Ao redor, o canto da mãe-da-lua, o clamor da matinta-perera e a algazarra dos sapos quebravam o silêncio da noite.

Quando chegaram ao local, encontraram Raimunda ainda sobre o leito de folhas.

Estenderam a rede no chão.

João e Pernambuco tentaram erguer o corpo.

Não conseguiram.

Ceará e Paraíba também tentaram.

Foi em vão.

Mesmo entre quatro homens acostumados ao trabalho pesado, o corpo de Raimunda parecia ter adquirido um peso inexplicável.

João segurou a mão fria da esposa.

Disse que ela queria permanecer ali.

— Temos que enterrar ela aqui mesmo. Estou sentindo que este é o desejo dela. Por isso é que ela pesa esse montão, para ninguém tirar ela daqui.

E assim foi feito.

Raimunda foi enterrada aos pés daquela seringueira, onde havia descansado pela última vez.

Ali, sob a sombra da Hevea brasiliensis, ficou o corpo da mulher que durante a vida havia percorrido as estradas da floresta para socorrer os outros.

Seu filho recebeu o nome de Raimundo. Durante três anos, foi criado por Januária e Pernambuco. Depois, João deixou Bom Sucesso, consumido pelo remorso pelos maus-tratos que dera à esposa, e levou o menino para a região do Caeté, em Sena Madureira. Mais tarde, Raimundo foi levado para o Ceará, onde passou a viver com os parentes da mãe.

Mas a história de Raimunda não terminou naquele túmulo.

No coração da floresta, o túmulo de Raimunda se tornou destino de fé. Foto: Arquivo/José Diaz

O primeiro milagre da Alma do Bom Sucesso

Conta-se que, algum tempo depois, um casal de seringueiros seguia pelas estradas de seringa em direção ao seringal Paraguaçu. Levavam nas costas o filho de três anos, tomado por uma febre que não cedia aos chás nem aos remédios da floresta.

No caminho, uma tempestade desabou sobre a mata.

O céu escureceu, os ventos sacudiram as árvores e o casal correu em busca de abrigo. Sob uma grande árvore, o desespero aumentou. Naquele tempo, acreditava-se que uma pessoa febril não poderia tomar chuva.

Um raio atingiu uma castanheira próxima.

Assustada, a mulher tropeçou e se apoiou em uma estrutura de madeira. O clarão seguinte revelou uma cruz.

Era uma sepultura.

Aos pés daquela cruz, o casal se ajoelhou e pediu proteção para o menino.

A tempestade caiu com força sobre a floresta. Mas, ao redor deles, não caiu uma única gota.

Quando o temporal passou, o dia clareou. A árvore que os havia protegido era uma seringueira. Aos seus pés, sob folhas secas e flores amarelas de um açaizeiro, estava o túmulo de Raimunda Moreno da Silva.

No dia seguinte, ao chegarem ao seringal Paraguaçu, o menino estava completamente curado.

A notícia atravessou os varadouros e correu entre as colocações.

O túmulo da parteira passou a ser visitado por seringueiros que buscavam cura, proteção e auxílio. A mulher que em vida havia percorrido a floresta para salvar outras mulheres passou a ser lembrada, depois da morte, como aquela que ainda protegia quem pedia socorro.

Nascia, assim, a história da Alma do Bom Sucesso.

Publicidade
banner docs epop bari 01