Vereador de Rio Branco foi incluído no cadastro após fiscalização realizada em 2012 em duas fazendas de sua propriedade, em Boca do Acre (AM).
O vereador de Rio Branco e candidato a deputado estadual pelo Republicanos, José Lopes Júnior, o Zé Lopes, foi incluído na Lista Suja do trabalho escravo após uma fiscalização realizada em 2012 em duas fazendas ligadas a ele, a Mustafa e a FAM, em Boca do Acre, no Amazonas. A operação resultou no resgate de 26 trabalhadores submetidos, segundo os relatórios de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a condições análogas à escravidão.
A apuração foi publicada pela Repórter Brasil, em reportagem assinada pelo jornalista Daniel Camargos, que cruzou dados de candidaturas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o histórico da Lista Suja do trabalho escravo. O cadastro é divulgado pelo governo federal e reúne empregadores responsabilizados administrativamente pelo MTE após o encerramento das possibilidades de defesa e recurso na esfera administrativa. A inclusão, conforme explica a reportagem, não corresponde a uma condenação criminal.
De acordo com os documentos de fiscalização citados pela Repórter Brasil, entre os trabalhadores resgatados havia um menino que trabalhava com uma foice e manuseava agrotóxicos sem equipamentos de proteção.
Segundo os auditores fiscais, o adolescente ficava exposto ao produto químico, ao sol e ao risco de ferimentos provocados pela ferramenta. Os fiscais também identificaram trabalhadores alojados em estruturas sem instalações sanitárias.
Durante a operação, oito trabalhadores foram encontrados na carroceria de uma picape na BR-317. Eles retornavam da Fazenda FAM e, conforme o relatório, haviam recebido ordem para deixar a propriedade após a chegada da fiscalização.
Os documentos também relatam a retirada de trabalhadores de diferentes propriedades do grupo. Parte deles teria sido transportada em caçambas e caminhonetes, enquanto outros deixaram os locais por conta própria. Segundo os auditores, houve tentativa de impedir que as condições de trabalho fossem verificadas.
Os registros da época apontam que a fiscalização ocorreu em julho de 2012. Levantamento da Comissão Pastoral da Terra também registra a ocorrência nas Fazendas Mustafa e FAM, em Boca do Acre, com 26 trabalhadores libertados e José Lopes Júnior identificado como proprietário.
Candidato contesta responsabilização
Procurado pela Repórter Brasil, Zé Lopes confirmou que a fiscalização do Ministério do Trabalho ocorreu, mas afirmou ter sido absolvido em processo judicial relacionado ao caso.
Segundo o candidato, depois da fiscalização, o modelo de trabalho nas propriedades foi aperfeiçoado. Ele afirmou que passou a contar com equipe de segurança do trabalho, vistorias periódicas e capacitações voltadas à prevenção de acidentes com agrotóxicos, saúde e segurança no trabalho rural e primeiros socorros. Também declarou que os pagamentos aos funcionários são realizados em dia.
O presidente do Republicanos no Acre, deputado estadual Roberto Duarte, afirmou à reportagem que a inclusão na Lista Suja é uma medida administrativa e a diferenciou de uma condenação criminal com trânsito em julgado.
Patrimônio e autuações ambientais
Segundo dados do TSE citados pela Repórter Brasil, Zé Lopes declarou patrimônio de R$ 32,6 milhões para disputar uma vaga na Assembleia Legislativa do Acre. Entre os bens declarados estão R$ 7 milhões em gado e a Fazenda Santana, de 5 mil hectares, avaliada em R$ 6,3 milhões.
A reportagem também levantou 12 multas aplicadas pelo Ibama entre 2018 e 2024, que somam R$ 8,18 milhões em valores nominais. A maior delas, de R$ 2,7 milhões, foi aplicada em agosto de 2022 por destruição de 541,4 hectares de floresta nativa em terras públicas na Fazenda Santana, em Lábrea (AM).
Sobre as autuações ambientais, Zé Lopes afirmou à Repórter Brasil que os processos administrativos e judiciais ainda estão em discussão. O candidato atribuiu parte dos problemas a ocupações de terras no sul do Amazonas e declarou que suas defesas buscam identificar os responsáveis pelos desmatamentos. Também afirmou que as áreas passam por processos de regularização ambiental e fundiária.
A reportagem original da Repórter Brasil, assinada por Daniel Camargos, foi publicada em 21 de setembro de 2026 e integra uma apuração sobre candidatos que já foram incluídos na Lista Suja do trabalho escravo.







