À margem da margem

Por Val Martins

Vinte anos depois, a integração da BR-364 continua a caminho … Quanto tempo leva para um território se sentir esquecido? No Vale do Juruá, o tempo de uma estação chuvosa já é suficiente.

Se bem me recordo, a primeira vez que percorri a BR-364 foi por volta de 2014. Para ser franca, eu tinha idade suficiente para entender o desconforto, mas não o peso histórico dessa estrada.

O que eu lembro mesmo é que muito antes disso já se falava das condições da BR. Mas o que ficou na minha memória não foi exatamente o asfalto, ou a ausência dele. O que me marcou foram os ônibus: bancos duros, ar-condicionado quase inexistente, o balanço excessivo que fazia o corpo ir pra frente e pra trás. Talvez tudo isso tenha encoberto, na minha lembrança, o estado real da estrada.

Nesses últimos tempos, tenho ouvido com frequência a música “BR-364”, do saudoso cantor juruaense Alberto Lôro. Aliás, tem muito da influência dessa música para esta escrita. Ela mistura denúncia e pertencimento. Fica aqui, inclusive, minha recomendação: escutem.

Outra influência recente veio das páginas da revista Retratos do Juruá 2 – BR-364: o sonho de integração do Juruá, que garimpei na casa de Leandro Altheman Lopes, amigo jornalista que fincou raízes por estas bandas de cá. A revista tem 46 páginas, e claro, dedica a maior parte para falar sobre a BR. O texto é de Nelson Liano Jr., outro amigo jornalista que também escolheu o Juruá como casa e se lançou pela estrada para escutar as vozes de quem vivia às suas margens.

A revista passou semanas transitando entre minha estante e minha mesa de estudos. Sentia que ela pedia pra ser, literalmente, revista.

No subtítulo “Uma veia aberta no coração da Amazônia”, Nelson escreve: “Percorrer a BR-364 de Cruzeiro do Sul até Rio Branco ainda é uma aventura”. À primeira leitura, parece um comentário qualquer. Digo PARECE – não fosse o detalhe de que o texto foi publicado em 2006. Mais adiante, ele ressalta: “As dificuldades no trajeto são superadas pelo forte espírito de sobrevivência dos juruenses”.

A palavra aventura no texto de Nelson me parece carregada de ironia. Quase vinte anos depois, essa ironia pesa ainda mais!

O trecho de aproximadamente 637 km entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul enfrenta hoje um colapso estrutural. Não é exagero! São múltiplos pontos de erosão, falhas graves de drenagem, aterros comprometidos pela tabatinga – a argila traiçoeira que, no inverno amazônico, incha, encharca e cede.

Viagens que deveriam durar de 10 a 12 horas ultrapassam 20. O percurso tornou-se um teste de sobrevivência. Caminhoneiros acumulam prejuízos com suspensão quebrada e carga comprometida. Taxistas relatam que o lucro desaparece na lama. As intervenções são quase sempre paliativas. Tapa-buracos sobre uma estrutura que já não sustenta.

É desgaste físico, psicológico e financeiro.

Quando a BR-364 falha, é rompida a ligação do Vale do Juruá com o restante do estado. Para quem não pode pagar passagem de avião (que é a maior parte da população), não há rota alternativa. Não há plano B terrestre. Quando a estrada cede, o Juruá se isola!

Isolamento, aqui, não é figura de linguagem.

É caminhão parado com alimento perecível. É combustível encarecido. É gás que sobe de preço. É paciente que precisa de tratamento na capital e enfrenta vinte horas de solavancos. É estudante que perde prova. É comerciante que calcula prejuízo e produtor que vê seu esforço travado na lama…

Num estalar de dedos o isolamento logístico rapidamente se transforma em isolamento econômico. O custo do frete aumenta. O mercado regional desacelera. A economia do Juruá, já distante dos grandes centros decisórios, sente primeiro, e sente mais!

A vida do juruaense fica organizada em torno da pergunta: será que esse ano a estrada sai?

Recentemente, o Governo Federal anunciou alguns milhões para recuperação da rodovia. Passarinhos agitados contam que agora vai. Que o DNIT está de olho…

O Acre já ocupa posição periférica no mapa nacional. O Juruá, dentro do Acre, experimenta uma segunda periferia. Quando a BR-364 entra em colapso, essa periferia se aprofunda.

Volto à imagem de 2006: uma veia aberta no coração da Amazônia. Veias abertas sangram… Mas também deveriam pulsar vida. Quanto vale, de fato, o Acre no mapa das decisões nacionais? Até quando a integração do Juruá será sempre anunciada como futuro?

Enquanto a reconstrução definitiva não chega, o Juruá segue esperando… à margem da margem.

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