‘Minha origem é meu alicerce. Venho de uma família de seringueiros, e isso sempre me guiou’, afirma Maqueson Silva, referência na marchetaria.
Por Tácita Muniz
“Acho que a grande sacada foi não perder a originalidade, não perder minhas origens e minhas raízes. Poder falar com simplicidade sobre quem eu sou, filho de seringueiro e de ribeirinho, é o que mais me orgulha.”
É assim que o marcheteiro Maqueson Pereira da Silva tenta resumir o próprio sucesso. Nascido no Seringal Flora, em Porto Walter, no coração da floresta acreana, ele levou sua arte dos rincões da Amazônia para os grandes centros do mundo.
Com mãos habilidosas e dedicação a uma técnica que, segundo ele, corre risco de desaparecer diante dos avanços tecnológicos, Silva une uma prática milenar à preservação ambiental. Com quadros expostos em diversos países, tornou-se referência na marchetaria contemporânea, elevando o nome do Acre em uma das expressões mais sofisticadas das artes visuais.
Ele conta que viveu a infância e a juventude em total sintonia com a floresta e com as pessoas que habitavam aquele território. Essa convivência diversa e intensa marcou profundamente sua formação e permaneceu como fonte de inspiração, mesmo antes de ele perceber isso conscientemente.

Dois mundos
Até os 18 anos, sua vida era inteiramente ligada ao ambiente amazônico. Ao sair da floresta e iniciar os estudos, descobriu um novo universo.
“Existem dois mundos na minha trajetória: o da floresta virgem, de onde eu vim, e o dos grandes centros urbanos, onde está o conhecimento que, até então, era completamente desconhecido para mim”, relata.
Ele lembra que deixou a floresta sem nunca ter visto um automóvel, mas já estudava em um colégio de padres alemães, localizado em um vilarejo que começava a se desenvolver. Essa transição entre dois mundos tão distintos moldou sua visão de vida e sua arte.
“Fui estudar em Santa Catarina e em São Paulo, ainda dentro daquela articulação dos padres. Foi-me oferecida a oportunidade de continuar os estudos, já que eu tinha boas notas. Os padres me convidaram para entrar no seminário e, naturalmente, seguir com os estudos. Isso aconteceu em Santa Catarina, um lugar sobre o qual eu não tinha a menor ideia. É por isso que falo desses dois mundos de cores e formas completamente diferentes. Lembro que a única energia elétrica que eu conhecia era a do peixe elétrico. Um legítimo caboclo, mesmo.”

Do seringal à Itália
O encontro entre esses dois mundos provocou nele um verdadeiro choque de perspectivas, ampliando sua visão sobre a arte. Logo ele, um menino que aprendeu a ler com o avô cego, passou a ter acesso a conhecimentos e experiências que jamais imaginou.
Ao chegar aos grandes centros, ainda sob a orientação do ensino religioso, sua trajetória o levou até a Itália, justamente ao mesmo espaço onde Leonardo da Vinci havia estudado.
“Parece impossível. Um filho de seringueiro nesse local. A grande maioria das pessoas não sabe o que isso significa. Só que, quando a gente quer, a gente corre atrás, busca e acaba encontrando as oportunidades.”
Ao chegar em Santa Catarina, nos horários livres de estudo, os alunos podiam se dedicar a aprender alguma arte. Ele chegou a se aventurar na pintura, mas sem grande sucesso. Foi então que passou a trabalhar com a marcenaria, recortando e encaixando madeiras — como sugere a própria palavra marchetar: encaixar, incrustar, embutir — em vez de pintar com pincel.
Nesse momento, um padre observou seu trabalho e lhe disse que aquilo era marchetaria. Acrescentou ainda que, caso algum dia tivesse a oportunidade de conhecer a Itália, essa experiência seria profundamente significativa para seu aprendizado.
Marchetaria é a arte de ornamentar superfícies planas, como móveis, painéis, pisos e tetos, por meio da aplicação de materiais diversos, entre eles madeira, metais, madrepérola, pedras, plásticos, marfim e até chifres de animais, tendo a madeira como principal suporte.

Dependendo da técnica utilizada, é possível criar não apenas revestimentos decorativos, mas também objetos tridimensionais, esculturas, peças utilitárias e até joias.
Formado em Filosofia e Teologia e prestes a fazer os primeiros votos para se tornar padre, decidiu deixar o seminário para explorar outras possibilidades, após uma vida dedicada aos estudos.
“Eu acreditava que a marchetaria poderia me abrir caminhos e sonhava com a possibilidade de, um dia, montar uma escola para ensinar essa arte. Quando saí do seminário, fui para a Alemanha fazer uma especialização em marcenaria”, relembra.

Maqueson amazônico
Esse foi um verdadeiro divisor de águas na vida do artista, que passou anos se dedicando e aprimorando sua arte, hoje presente em diferentes lugares do país e em pontos estratégicos do Acre. Sua trajetória o levou, inclusive, a lecionar em um curso de arquitetura na cidade de Florença, na Itália, onde compartilhou reflexões sobre a floresta que trazia dentro de si.
“Fui me adaptando, fui me soltando, e percebi o quanto lutavam para que eu me tornasse o Maqueson amazônico, e não apenas um Maqueson com revestimento europeu, preservando, acima de tudo, minha identidade da Amazônia.”
Hoje, em sua empresa que fica em Cruzeiro do Sul, ele emprega mais de 40 pessoas, que foram capacitadas por ele e estão envolvidas em grandes projetos arquitetônicos em diversos lugares do Brasil e do mundo.
O chamado da floresta
Uma coisa que chama atenção nessa técnica é o agrupamento de madeiras sem o uso da tintura, mas com as cores naturais.
Maqueson da Silva lembra que sua curiosidade pela madeira começou ainda na observação da natureza. “Num primeiro momento, eu percebia que as madeiras que ficavam no leito dos rios acabavam se depositando no solo. O solo mais escuro deixava a madeira com tons mais escurecidos, enquanto em outros lugares o solo amarelado ou alaranjado também modificava a cor”, contou.
Ele explica que, sem saber, estava diante de um processo chamado fossilização por substituição molecular.
“As madeiras sofrem a influência das moléculas presentes no solo. As moléculas em maior quantidade acabam substituindo aquelas da própria árvore, e é daí que surgem as diversas cores”, detalhou o artista.
Para ele, tudo aconteceu de forma muito natural, quase como uma conspiração favorável que o conduziu ao lugar que ocupa hoje. Não apenas se tornou uma referência em sua arte, como também abriu caminhos para que outras pessoas pudessem integrar sustentabilidade e economia como motores de desenvolvimento.
“Tudo isso parece ter sido resultado de uma espécie de conspiração, uma mão superior que foi me conduzindo. Acredito que só cheguei onde cheguei porque tinha propostas tanto da Suíça quanto da Alemanha, Itália e Bélgica. Eram oportunidades excelentes, mas retornar às minhas origens, às minhas raízes, foi o grande momento da minha vida”, afirma.

Ele revela ainda que voltar ao seu habitat natural lhe permitiu enxergar tudo com um olhar completamente diferente daquele que tinha quando menino, quando ainda desconhecia o mundo.
“O meu reencontro com a floresta virgem de onde um dia saí me fez ver tudo com outros olhos. Aquilo que antes eu percebia de uma forma, diria, primitiva, sem nenhuma gota de sabedoria, hoje compreendo como algo inerente a mim. Era uma vivência que eu precisava ter, e era daquele jeito”, detalha.
Para ele, essa reconexão foi a chave para produzir peças que carregam mais do que simbolismo, mas também trazem a vivência de alguém que tem, nas veias, o sangue de quem vive em harmonia com a natureza, respeitando-a e abrindo espaço para um modelo de economia que cresce em todo o mundo.
‘Minha origem é meu alicerce’
Silva conta que sua maior conquista foi nunca ter perdido a originalidade, as raízes e a simplicidade que carrega desde a infância, vivida entre seringais e comunidades ribeirinhas. “Minha origem é meu alicerce. Venho de uma família de seringueiros, e isso sempre me guiou”, afirma.
Ele lembra que o desejo de aprender e transformar a própria realidade foi determinante. “A gente precisa querer. Eu busquei conhecimento porque queria ser diferente, sair da caverna, como no mito. E, ao mesmo tempo, queria voltar e resgatar meus pais e minha família, que viviam no meio da mata.”
O esforço coletivo deu resultado, pois dos cinco irmãos, quatro cresceram na floresta e todos conseguiram cursar uma faculdade. “Hoje parece fácil, mas ninguém imagina o caminho. Eu já usei avental feito de jornal porque não tinha dinheiro para comprar um de tecido. Cada dificuldade foi um aprendizado.”
A trajetória o levou muito além do que imaginava, pois saiu do Acre para uma temporada de trabalho em Londres, sendo a quarta vez que produz peças para lá.
“Levei comigo quatro pessoas que nunca tinham visto um avião. Atravessamos o Atlântico, enfrentamos frio de sete graus negativos. Depois vieram Paris, Lisboa, Edimburgo. Agora tenho trabalhos indo para Genebra, Doha, Cairo, além de encomendas para a América do Norte e Europa.”
Apesar do reconhecimento, Maqueson evita alimentar vaidades. Ele já recebeu prêmios do Sebrae, mas diz não acompanhar matérias ou reportagens sobre si. “Faço isso para não me deixar levar pelo orgulho. O importante é olhar para trás e valorizar de onde eu vim.”

Criar oportunidades
Uma de suas metas é oferecer oportunidades a quem, como ele, cresceu ouvindo que não teria chances. “A gente encontra caminhos quando quer. Aprendi isso com meu avô, que era cego. Sempre digo que oportunidade existe, mas é preciso buscá-la.”
Hoje, suas peças chegam a grandes centros brasileiros e ao exterior.
“Temos clientes no Rio, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Goiânia. É um público diverso, mas a maior demanda vem da América do Norte, Europa e Ásia.”
Consciência ambiental
O artesão destaca que sua produção é baseada no aproveitamento de madeira caída. “Nunca derrubei uma árvore para trabalhar. Uso raízes, troncos caídos, madeiras que já estão na natureza. Cada pedaço tem uma textura única. A marchetaria exige conhecimento para escolher o material certo.”
Ele explica que, em alguns casos, precisa enviar madeira para tratamento fora do país. “Mesmo sendo madeira brasileira, às vezes é necessário mandar para a Alemanha para ser cozida por semanas, até ficar mais flexível.”

A marchetaria, diz ele, é mais que técnica, é filosofia de vida. “Quando decidi trabalhar com marchetaria, já tinha em mente a preservação. Cada pedaço de madeira é único, e isso reforça a necessidade de cuidar para que as futuras gerações também tenham acesso a esse patrimônio.”
Ele lembra que a marchetaria é uma arte milenar, com registros de mais de quatro mil anos antes de Cristo e que ornamentou urnas funerárias de faraós, reis e soberanos. A técnica passou pela Itália, atingiu seu auge na França e sempre esteve ligada a lugares de poder.
Silva cita até uma referência bíblica que encontrou durante seus estudos. “No Cântico dos Cânticos, há um trecho que diz: ‘Construirei para ti uma cadeia de prata marchetada em ouro’. Isso mostra como essa arte é antiga e significativa.”
Para ele, mais do que produzir peças, seu trabalho é uma forma de contar histórias — as dele e as de outros. “A marchetaria me permitiu transformar minha trajetória e dar voz a muitas outras. É isso que me move.”

Da oficina para o mundo
A história de Biliarte Borges Bissoli se entrelaça com a de Maqueson Pereira desde 2010, quando entrou pela primeira vez na oficina de marchetaria. Depois de uma pausa para servir ao Exército, retornou em 2018, e nunca mais saiu. Foi ali, entre lâminas de madeira, desenhos minuciosos e paciência artesanal, que encontrou um caminho que transformaria sua vida.
“Aprendi diversas coisas com o Maqueson. A arte da marchetaria, claro, mas também o compromisso, o comprometimento e a busca constante pelo melhor”, conta. O aprendizado, segundo ele, foi muito além da técnica, sendo foi um divisor de águas.
“São pouquíssimas pessoas no mundo que fazem marchetaria. Poder aprender isso e transformar em profissão mudou completamente minha trajetória.”
Hoje, o trabalho representa mais do que sustento. É identidade, crescimento e futuro. “Esse trabalho significa meu desenvolvimento como profissional e como ser humano. É daqui que consigo realizar meus objetivos e os da minha família.”
Com os olhos voltados para o que ainda pode construir, Biliarte deseja que o ofício continue abrindo portas, para ele e para todos que dividem a oficina. “Desejo que todos nós consigamos alcançar nossos objetivos e que a marchetaria cresça cada dia mais.”







