Trauma coletivo no estado que mais teve defasagem de educação nos últimos anos

Trauma – substantivo masculino, de origem grega trâuma, pode significar ferida, perturbações causadas por uma lesão ou ainda a Experiência emocional desagradável que tende a causar distúrbios psíquicos, deixando uma marca duradoura na mente do indivíduo. Isso é trauma. Isso é o que a sociedade acreana toda passou e está passando desde o dia 5 de maio de 2026 pela hora da tarde. Um trauma coletivo pelo acontecimento desse tiroteio em um dos colégios mais tradicionais da capital Rio Branco.

Esse acontecimento me levantou muitas coisas, muitos questionamentos, inclusive questionamentos da ordem de funcionamento social, mesmo, sabe? Em que momento a nossa sociedade retrocedeu tanto de maneira a normalizar o uso de armas e ter elas em casa? Em que momento se tornou vantajoso isso? Porque ninguém adquire uma arma do nada. Em que momento um adolescente de 13 anos aprende a manusear uma arma? Entendendo que o manuseio de armas requer um certo conhecimento que parecia que esse jovem tinha – não todo o conhecimento, mas um certo – e em que momento a gente vai parar de olhar apenas para a ponta do iceberg – ou seja, um adolescente que entra na escola com uma arma e faz duas mulheres negras de vítimas de seu tiroteio – e entende que isso é ainda mais profundo, que isso é um raio-x de como se encontra a sociedade acreana e brasileira hoje em dia?

Existem várias nuances a serem olhadas aqui e consigo citar algumas rapidamente: porque a glorificação de Alzenir e Raquel que foram brutalmente assassinadas e não a raiva absurda por isso ter acontecido a duas mulheres que não fizeram nada e estavam em seu ambiente de trabalho? Porque achar que as armas vão deixar as pessoas mais seguras quando a gente teve a comprovação de que isso não vai acontecer? Porque pedir maioridade penal em um âmbito sanguinolento e vingativo quando sabemos que no final das contas essa maioridade penal encontraria cor, renda e cep – entendendo que os mais presos seriam adolescentes pretos. Eu vi até mesmo pessoas justificando o pífio discurso de Romeu Zema, falando que “tem que trabalhar mesmo, porque se não, tá ai, matando as pessoas”

Essa é uma discussão que pode durar horas, dias e que – antes de tudo – precisa suplantar a esfera da sociedade civil e ir sim para a esfera pública, as pessoas precisam levar isso para as autoridades, os professores precisam de maior segurança no seu afazer diário, compreendendo que sua profissão de uns anos para cá – principalmente de uns 10 anos para cá – se tornou sim uma profissão perigosa, quando cada vez mais a autorização da belicosidade e violência vem sido usada como alternativa para se enfiar e emplacar o controle.

Bom e ai eu chego exatamente onde eu gostaria de chegar. O uso da belicosidade e da violência como ferramenta de controle. Belicosidade é o estado de quem é belicoso, belicoso é algo ou alguém inclinado a guerras, brigas e conflitos. Esse é um conceito muito importante que vamos usar aqui neste fio.

Uma das coisas que mais me incomoda e entristece que são advindas dessa guinada à extrema direita que o Brasil tomou nos últimos 15 anos não é nem nome A ou nome B, mas sim o que o discurso dessa gente autoriza mentalmente a parte da sociedade que os acompanha – e até mesmo os que não o acompanham, mas tem contato com suas falas – de pensar, falar e fazer e da normalidade com que isso é pregado.

Quando um adolescente de 13 anos pega a arma do padrasto, dois pentes de armas e vai para o seu colégio na intenção de matar todo mundo e mata duas inspetoras, ele já tinha contato com um discurso que autorizava as suas ações há um bom tempo. Um discurso que poderia falar para ele que a vida daquelas duas mulheres pretas eram inferiores a vida dele, um discurso que poderia dizer que as pessoas deveriam pagar por ter feito com que ele se sentisse acuado e irritado dentro do colégio, um discurso que autoriza porque vai falar que isso é o que um “homem de verdade” faria, afinal, ele não tem o que perder. Esse era o momento dele. E por conta disso ele se apresenta ao policial e não é capturado.

E aqui você pode estar indignada com o que eu estou falando e estar pensando “sim Jade, mas é exatamente por isso que eu quero a maioridade penal. Esse menino tinha que estar preso” e eu entendo e concordo totalmente que ele precisa de uma medida cautelar e de um acompanhamento, mas você concorda comigo que prender e oferecer para ele o que o sistema prisional tem a oferecer só irá munir mais o discurso dele, que o autorizou a matar Alzenir e Raquel e o autorizaria a matar quem mais ele conseguisse?

Quando eu falo aqui que o discurso da maioridade penal não faz sentido é porque ela vai reforçar tudo o que esse adolescente acredita e pode imbui-lo de ainda mais ódio e fazer com que ele – em sua cabeça – tenha ainda mais motivos para fazer ataques ainda piores. Prender, encarcerar e humilhar um adolescente homem que tem tamanha certeza de suas ações, fazendo-o passar por degradações dentro do sistema prisional só irá fazer com que aconteça algo ainda pior no futuro, na primeira oportunidade que ele tiver.

“Ah, mas Jade, então você tá dizendo que tem que deixar ele livre e o sacrifício heróico das duas professoras não serviu de nada?”

Não. Até porque eu tenho muitas críticas a esse termo.

Como eu falei, é necessário sim que ele cumpra uma medida cautelar condizente com a gravidade do que ele fez. Mas essa medida precisa – acima de tudo – entender de onde vem esse discurso que faz com que um atentado a uma escola seja a alternativa. Quem está por trás desse discurso? Quem fomenta com que esse jovem tenha acesso a uma arma ainda tão novo e aqui sim a entrega do padrasto foi fundamental porque, mesmo que ele não tivesse entregado a arma, ela estava dentro do ambiente familiar.

E porque eu levantei aqui a questão de ter crítica aos termos heroínas dada à Alzenir e Raquel?

Eu quero aqui começar falando que em momento algum eu não gosto de estarem falando e as chamando dessa maneira. Mas eu gostaria que vocês pensassem comigo, me acompanhem aqui. Porque isso está sendo tratado como um “ato heróico” e não como com o que realmente foi – um assassinato que aconteceu de maneira fria para duas mulheres que estavam dentro do seu ambiente de trabalho? Falar que elas são heroínas diminui todo o impacto do que aconteceu e não deixa a conversa de verdade que precisa ser levantada, ou seja, a de que é necessário ter mais leis que protejam os professores dentro de sala de aula, que eles precisam ser melhores remunerados. Que o nosso estado tem uma lacuna nítida no que se diz sobre educação.

É preciso abrir os olhos para a triste realidade que esse fato escancarou: ser professora no acre, hoje em dia, é antes de tudo perigoso para a própria vida destes que trabalham todos os dias em prol do futuro da nação.

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