A Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça condenou, nesta quarta-feira, 6 de maio de 2026, o ex-governador do Acre Gladson Cameli na Ação Penal nº 1.076, processo ligado à Operação Ptolomeu. A decisão foi proclamada ao fim da sessão pelo presidente do colegiado, que anunciou oito votos acompanhando integralmente a relatora, ministra Nancy Andrighi, e outros três votos também pela condenação, mas com divergência apenas na dosimetria da pena.
Com o resultado, prevaleceu o voto da relatora, que havia fixado pena de 25 anos e 9 meses de reclusão, em regime inicial fechado, além de multa, indenização ao Estado do Acre no valor de R$ 11,7 milhões e perda do cargo. O julgamento havia começado em dezembro de 2025 e foi retomado nesta quarta-feira, após pedido de vista.
A condenação ocorre em uma das ações mais graves derivadas da Operação Ptolomeu, investigação que apurou suspeitas de organização criminosa, corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e fraude em licitação dentro da estrutura do governo do Acre.
No voto que acabou prevalecendo na Corte Especial, Nancy Andrighi apontou que as provas reunidas no processo demonstravam a existência de uma organização criminosa formada por núcleos familiares, políticos e empresariais. Segundo a relatora, o grupo teria atuado de forma estável para viabilizar desvios de recursos públicos em benefício próprio e de terceiros.
A ministra também destacou que a atuação atribuída a Gladson Cameli não teria sido periférica. Pelo relatório, o então governador teria exercido papel central no esquema, com interferência em contratos públicos e na escolha de empresas sem critérios técnicos para receber pagamentos do Estado.
Um dos pontos centrais do processo envolve a contratação da empresa Murano Construções Ltda. para obras de engenharia viária e edificações. Segundo a acusação analisada pelo STJ, houve fraude na licitação e na execução contratual, com pagamentos que chegaram a R$ 18 milhões. A Controladoria-Geral da União apontou prejuízo superior a R$ 16 milhões aos cofres públicos.
No voto, Nancy Andrighi também relacionou o caso a empresas ligadas ao irmão de Gladson, Gledson de Lima Cameli. A relatora afirmou que o ex-governador e o irmão teriam arquitetado uma forma indireta e dissimulada de beneficiar sociedades empresárias vinculadas ao núcleo familiar, incluindo a Construtora Rio Negro Ltda.
A relatora sustentou ainda que Gladson, na condição de chefe do Executivo estadual, teria determinado a ampliação de contratos superfaturados firmados com a Murano. Para Nancy, a conduta representou desvio de finalidade pública e violação dos deveres do cargo.
Outro ponto considerado no voto foi a acusação de lavagem de dinheiro. Segundo a relatora, valores de origem ilícita teriam sido ocultados e usados no pagamento de parcelas de um apartamento de alto padrão em São Paulo e de um veículo de luxo ligado a Gladson Cameli.
Antes da conclusão do julgamento, a defesa tentou questionar pontos do processo, inclusive com base na retirada de relatórios de inteligência financeira do Coaf dos autos. Em abril, a própria Corte Especial havia determinado o desentranhamento de três RIFs, em cumprimento a decisão do Supremo Tribunal Federal. Nancy Andrighi, no entanto, sustentou que esses documentos não haviam sido utilizados nem na denúncia do Ministério Público Federal nem no voto de mérito já apresentado.
O presidente da Corte Especial anunciou o placar: oito votos pela condenação nos termos da relatora e três votos também pela condenação, com divergência apenas sobre o cálculo da pena.
Com a decisão, o STJ encerra o julgamento de mérito da Ação Penal nº 1.076. O próximo passo será a formalização do acórdão, etapa que abrirá caminho para eventuais recursos da defesa.
A condenação representa o momento mais grave da trajetória judicial de Gladson Cameli até agora. Politicamente, a decisão atinge um ex-governador que deixou o cargo recentemente para disputar o Senado e recoloca a Operação Ptolomeu no centro do debate público do Acre.
Foto: Juan Vicent Diaz







