Talvez você viva o racismo ambiental e nunca tenha ouvido esse nome.
Para escrever esse texto, fiquei dias pensando no que escrever. No fundo, o que me atravessava mesmo era a questão do racismo ambiental. Passei dias com esse termo ecoando pela cabeça, insistindo em aparecer na minha escrita…Mas eu travava justamente aí: como escrever “racismo ambiental” sem produzir um texto duro, distante, cheio de palavras que não alcançam a experiência concreta das pessoas, ou melhor, de quem vive?
Rabisquei algumas frases. Apaguei quase todas. O texto não me prendia. E quem escreve sabe quando o texto ainda não “bate”, sabe?
Eu tentava começar explicando o termo, mas alguma coisa parecia artificial. Porque o que me movia não era o conceito em si. Era a imagem do bairro da minha mãe.
Uma vez, enquanto entrávamos no bairro dela, ele me disse:
– “Quando a gente vem chegando aqui é como se tivesse entrando em um buraco né, Valcirlene?”
Aquilo ficou em mim.
Minha mãe e meus três irmãos mais novos moram em um conjunto habitacional na periferia de Cruzeiro do Sul. Antes de chegar na casa dela, a gente passa por pelo menos duas lixeiras comunitárias quase sempre abarrotadas. O lixo espalhado pela rua, atraindo cachorros e urubus que já fazem parte da paisagem cotidiana do bairro.
E ainda tem alguns esgotos enormes a céu aberto.
As águas escuras e fedidas atravessam a rua. Em alguns pontos, descem para os quintais das casas que ficam abaixo do nível da rua. Quando chove, tudo piora! A rua se mistura ao esgoto e a sensação é de que a rua e o esgoto viram uma coisa só.
Isso tudo antes mesmo de chegar na rua da minha mãe.
Porque a rua dela também é outros quinhentos.
A calçada da frente da casa dela está cedendo aos poucos. A água que escorre das casas vizinhas acima está demolindo a calçada lentamente. Em dias mais chuvosos, o esgoto se mistura com o lodo. Há lugares em que quase não dá para passar sem olhar com cautela onde pisar.
Ano passado – ou talvez no começo deste ano, já nem lembro mais – inauguraram um posto de saúde no bairro. E foi curioso perceber como, por alguns dias, o lugar pareceu existir para a cidade. Limparam a rua, recolheram lixo, arrumaram parte do caminho. Mas somente até o posto.
Todo esse cuidado terminou exatamente onde terminava a inauguração.
Hoje, ao lado do posto recém-inaugurado, uma das lixeiras comunitárias continua transbordando lixo.
E foi até aí que consegui escrever.
Travei. Deixei o texto em suspenso…
Talvez porque eu ainda estivesse tentando encontrar uma forma de traduzir em palavras aquilo que já era vivido cotidianamente por tanta gente. Talvez porque eu estivesse tentando explicar teoricamente algo que já fazia parte da paisagem de um lugar.
Então, dias depois desses primeiros rabiscos, recebi uma mensagem me convidando para uma entrevista sobre comunicação popular e mudanças climáticas no Vale do Juruá. Entre as perguntas, uma me atravessou:
“Qual é o maior desafio para traduzir termos mais técnicos sobre clima para a realidade e o dia a dia do povo da nossa região?”
E foi tentando responder essa pergunta que finalmente entendi por que eu não conseguia terminar esse texto.
Porque talvez o desafio seja justamente esse: dizer em palavras que, para muitas pessoas, os conceitos já são vividos muito antes de serem nomeados.
Muita gente nunca ouviu falar em “racismo ambiental”. Mas conhece perfeitamente a experiência de viver perto do esgoto, do lixo acumulado, da água contaminada e do abandono permanente. Sabe o que é morar em bairros onde a infraestrutura só chega pela metade. Onde o cuidado público aparece por alguns dias e depois desaparece novamente.
É essa a cara do racismo ambiental!
Às vezes, a linguagem técnica cria a falsa impressão de que estamos falando de algo distante, complexo demais. Mas o racismo ambiental Mas o racismo ambiental também mora nessas pequenas violências normalizadas: na rua que ninguém arruma, no esgoto que corre diante das casas, no lixo acumulado, nos bairros que a cidade finge esquecer.
Apesar dos pesares, tem gente que insiste em ter alguma dignidade em meio ao caos. Há plantas crescendo em latas improvisadas. Crianças brincando desviando da lama e do esgoto. Casas ainda sendo construídas e melhoradas.
Minha mãe também faz a parte dela, tentando deixar menos feia a situação da rua. Limpa, tira entulho, aproveita o concreto cedido para arrumar a calçada. A vizinha da frente encheu a fachada da casa de plantas e flores, que acabaram devolvendo alguma cor para a rua.
Acho bonito como minha mãe acredita em mim. Às vezes ela olha para a rua destruída e diz que talvez, se eu tirar uma foto dali e mandar para algum jornal, eu consiga mudar a situação…
Toda vez que ela fala isso, sinto o peso dela ainda acreditar que alguém possa olhar para aquele lugar.
Minha mãe saiu do seringal há oitos anos, buscando uma vida melhor. Veio com três dos nove filhos, algumas malas, umas panelas e a esperança de que a cidade pudesse oferecer uma vida mais digna. Mas penso que a cidade apenas reorganizou a precariedade em novas formas. Mudou o endereço. Mas certas populações continuam sendo empurradas para os cantos onde o poder público chega com alguma promessa, e depois com esquecimento.
Ela sempre diz:
– “Mas a eleição tá chegando… eu quero ver alguém vir pedir voto aqui”.






