O que a gente pode ver no mês das mulheres no estado que mais mata mulheres no Brasil?

Eu estava pensando se escreveria esse texto. Realmente pensei e fiquei refletindo se valeria a pena escrever sobre esse efeito ao longo desse mês todo, estando ativa em atividades referentes ao dito “mês da mulher”, onde tantas coisas aconteceram em “comemoração” ao dia da mulher.

Comemorar o quê, exatamente?

Afinal, Nenhuma mulher deixou de ser assassinada, em geral por parceiros ou ex-parceiros, porque o calendário assim determinou. Ao contrário. Seguimos vendo mulheres mortas, inclusive aquelas que atuavam na linha de frente do enfrentamento à violência, como policiais e integrantes de patrulhas da Maria da Penha. Mortas por quem deveria representar cuidado, abrigo, segurança.

Há uma imagem que me persegue. O feminicida sendo acolhido, abraçado, recebendo tapinhas nas costas logo depois de matar uma mulher. Não se trata de um caso isolado, mas de um símbolo. Uma sociedade que, de forma recorrente, normaliza, minimiza e até protege homens que violentam e matam mulheres.

Os homens nos matam de maneiras cruéis e isso é colocado como um deslize, como uma “reação a um estresse”. Veja só, nem mortas temos o direito de ser inocentes em narrativas que fazem de tudo para abraçar e afagar “homens estressados”.

Foi nesse contexto que retomei uma reflexão iniciada semanas atrás. Na última vez que nos falamos mencionei dados do Anuário de Segurança Pública de 2025, lembra? De que o Acre registra 3,2 mulheres assassinadas a cada 100 mil habitantes, enquanto a média nacional é de 1,7. Não é uma diferença discreta. É um abismo.

Carreguei esse dado comigo ao longo do mês. Estive recentemente em um colégio para falar sobre violência de gênero, a pessoa que me chamou me pediu para conversar com adolescentes, explicar um pouco sobre o Levante Feminista e as ações que vinhamos fazendo e eu fui.

Em um determinado momento, o auditório estava cheio de adolescentes, mas depois chegaram alunos de uma licenciatura – uma licenciatura que envolve na sua maioria a presença de homens – e eu resolvi então fazer uma pergunta que costumo fazer, inspirada em uma provocação de Jayce Brasil, mas adaptada ao tema que me atravessa:

“Que mulher você admira que não é da sua família e com quem você não tem nenhum envolvimento afetivo ou sexual?”

Essa pergunta pode parecer maldosa e você pode me falar “nossa Jade, mas por que falar isso, é uma pergunta que não pode ter resposta”. Mas, ao mesmo tempo, você pode me dizer que se inspira no Cristiano Ronald, no Nelson Mandela, no João Gomes… homens com quem não têm qualquer vínculo pessoal.

Essa pergunta é feita com um simples intuito. A nossa sociedade é ensinada que aos homens se deve a admiração, a adoração. Às mulheres se entrega o trabalho silencioso e invisível, mas que faz as engrenagens do sistema capitalista caminhar.

Afinal, você seria quem se não tivesse alguém que cozinhasse, limpasse, arrumasse a casa, lavasse e passasse a roupa, cuidasse dos filhos e dos que não se cuidam sozinhos?

À mulher é relegado o trabalho invisível, mas que move a sociedade, e aceitar esse trabalho como natural e não esperar louros por isso. Afinal, esperar louros pelo o que se é “natural” é pedância demais, não é?

E foi engraçado, e também esperado por mim, ver os homens ficando desconfortáveis e saindo aos poucos. E esse desconforto diz muito.

E isso me leva ao ponto constante que sempre enfrentamos, e eu falo no plural enquanto pessoa que estou dentro de movimentos sociais pelas mulheres. Existe uma resistência constante quando homens são chamados a olhar para práticas que eles próprios reproduzem.

E não, isso não é confortável para ninguém. Nem para quem ouve, nem para quem fala.

Vocês acham que eu gostaria de repetir, o tempo todo, que mulheres são mortas diariamente por serem mulheres?

Isso cansa. Isso dói.

É viver com a consciência de que eu posso ser uma dessas mulheres. Que qualquer uma pode ser. Que pode ser alguém próxima.

E quando uma mulher é morta, não é só ela. Há um pedaço de todas nós que vai junto.

E isso me leva a três movimentos institucionais que chamaram atenção e merecem ser discutidos:

A adição da Violência Vicária à Lei Maria da Penha

O Pacto Nacional dos três Poderes pelo fim do feminicídio

A aprovação, unânime, do Senado para a criminalização da misoginia

Quero passar por cada um deles com vocês.

Violência Vicária

Para quem não sabe, é a violência praticada contra alguém externo, como filhos, mães, avós ou animais de estimação, pelo agressor homem, com o intuito de machucar a mulher que já está em uma relação de violência doméstica.

Entendendo os casos das crianças mortas recentemente, é inadmissível isso ainda não ter estado tipificado enquanto violência.

É tão doloroso ver casos assim e, como falei, ainda terem homens que dizem que é algo normal, que é algo que homens podem fazer quando estão “nervosos”.

Como uma psicóloga que sou, eu digo para vocês que isso é uma marca que não sai nunca da mente da pessoa. Como deixar de ficar hipervigilante quando você e quem você ama está na mira do agressor?

Pacto Nacional contra o Feminicídio

Antes, gostaria de deixar aqui os objetivos do Pacto:

● Efetivar o cumprimento célere das medidas protetivas de urgência

● Fortalecer as redes de enfrentamento à violência contra meninas e mulheres em todo o território nacional

● Promover informação sobre direitos das meninas e mulheres para toda a sociedade

● Promover responsabilização célere e efetiva de autores de violência

● Transformar a cultura institucional nos Três Poderes

● Capacitar agentes públicos com perspectiva de gênero

● Enfrentar o machismo estrutural

● Sensibilizar meninos e homens na defesa dos direitos das mulheres e pelo fim da violência

● Enfrentar violência digital contra meninas e mulheres

● Compartilhar dados e informações entre instituições

Foram abertos o Centro Integrado Mulher Segura, CIMS, e é para ser aberto em todas as federações. O Pacto tem um manual orientativo.

No papel, é um avanço.

Mas, olhando para o Acre, a pergunta é inevitável. Como isso vai funcionar aqui?

Porque a realidade é dura. Infelizmente somos um campo mais do que minado. É mais perigoso ser mulher no Acre do que ser mulher em São Paulo, por exemplo.

Criminalização da misoginia

Aqui, o debate ganhou contornos que dizem muito mais sobre quem fala do que sobre o projeto.

Há quem tenha dito (um zé fulano metido a deputado federal) que a medida “vai impedir homens de falarem com mulheres”. A pergunta que fica é simples. Que tipo de fala seria essa que só existe se for misógina?

Isso revela mais do que qualquer argumento jurídico.

Isso, para mim, é mais admitir algo do que falar de um projeto de lei. Isso diz muito mais de como ele fala e se relaciona com mulheres. Isso mostra o quanto ele fica incomodado com ser criminalizado o discurso dele, que só fica na internet mesmo.

Mas eu gostaria de pensar nos legisladores que temos em nosso estado que estavam nessa votação.

É válido dizer que o PL da misoginia teve aprovação unânime. Histórias contam que um dos representantes do Senado inicialmente gostaria de fazer uma “revisão” no projeto, porque a senadora mulher que propôs o PL não saberia como ter feito esse projeto de lei.

Ora, vejam só. Uma mulher não sabe o que é o melhor escrevendo a tipificação do crime de misoginia, mas um homem pode saber sim.

Dito isso, após essa questão, e de ter colocado o voto como abstenção, este senador votou que sim.

No fim, o voto foi favorável. Depois da hesitação.

Já os outros dois representantes do estado, justamente de um estado com índices alarmantes de feminicídio, abuso sexual e violência doméstica, optaram pela abstenção.

E é difícil não pensar no que virá depois. Quantos desses mesmos nomes vão se apresentar como defensores da pauta das mulheres em período eleitoral?

E é aqui que a reflexão aperta.

É desgastante precisar reafirmar o básico. O direito de viver.

Em época de eleição, a pauta das mulheres costuma ganhar espaço. Gera voto. Gera discurso.

Eu penso que, durante o período eleitoral, muito será falado sobre a pauta das mulheres e muitos irão querer surfar nessa pauta porque entendem que isso angaria voto.

E muitos homens acham um absurdo bater em mulher, mas de maneira nenhuma acham absurdo deixar de falar, ser amigo, receber em casa agressores, estupradores, abusadores, violentadores.

Como dizemos, todas as mulheres têm algum tipo de violência para contar, mas nenhum homem conhece algum violentador.

Para finalizar essa conversa, queria levantar essa dúvida com vocês:

Essas três pessoas que falamos aqui, será que ficariam até o final de uma palestra sobre a importância do enfrentamento da violência de gênero contra as mulheres?

E mais. Se estivessem ali, conseguiriam responder à pergunta que eu fiz naquele auditório?

Quem são as mulheres que vocês admiram, fora do círculo familiar ou afetivo?

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