Com apenas 39 ônibus em circulação, universidade suspende atividades presenciais até que frota mínima seja restabelecida. Estudantes conquistam semestre atípico após uma semana de mobilizações.
A crise no transporte coletivo de Rio Branco voltou a afetar a Universidade Federal do Acre (Ufac) que suspendeu as aulas de graduação presenciais nesta quarta-feira (15) após concluir que as dificuldades de deslocamento impedem milhares de estudantes de chegar ao campus. A suspensão permanecerá em vigor até que o sistema volte a operar com, no mínimo, 66 ônibus em circulação.
A decisão foi tomada durante reunião entre a Reitoria, docentes e representantes do movimento estudantil, que há dias denuncia os impactos da redução da frota sobre a permanência dos alunos na universidade. Atualmente, apenas 39 ônibus circulam na capital, número que representa pouco mais de 40% da frota considerada necessária para atender a demanda do transporte coletivo.
Além de interromper as atividades presenciais, a universidade declarou o primeiro semestre letivo de 2026 como atípico, reconhecendo oficialmente que a crise no transporte comprometeu o calendário acadêmico e o direito dos estudantes ao acesso à educação.
A resolução determina que sejam adotadas medidas para assegurar a reposição das atividades e evitar prejuízos acadêmicos aos estudantes que deixaram de frequentar as aulas em razão da dificuldade de acesso ao campus.
Também estabelece que a entrega de atividades didáticas poderá ser considerada para efeito de frequência e garante aos estudantes o direito ao trancamento total ou parcial da matrícula sem prejuízo acadêmico futuro.
A Ufac ressalta, contudo, que a excepcionalidade do semestre não autoriza a substituição das aulas presenciais por ensino remoto nem altera a modalidade dos cursos oferecidos pela instituição.
Enquanto as aulas permanecem suspensas, o Restaurante Universitário (RU) continuará funcionando normalmente até 11 de agosto. A partir do dia 12, o serviço passará à responsabilidade da nova gestão da universidade.

Mobilização estudantil
A suspensão das atividades é resultado de uma sequência de mobilizações promovidas por estudantes, que passaram a denunciar a impossibilidade de frequentar as aulas diante da falta de ônibus.
Na última terça-feira (14), estudantes bloquearam a entrada da Ufac com faixas e cartazes cobrando a adoção de um semestre acadêmico atípico e medidas urgentes para restabelecer o transporte público.
No dia anterior, a mobilização ganhou as ruas do Centro de Rio Branco. Durante um protesto em frente à Prefeitura, estudantes tentaram ocupar o prédio do Executivo para cobrar respostas da administração municipal, mas foram impedidos por policiais militares e seguranças da prefeitura. A contenção terminou em confronto, com estudantes sendo empurrados e agredidos durante a ação.
Após a repercussão do episódio, a Prefeitura de Rio Branco realizou uma reunião com representantes do movimento estudantil, da Reitoria da Ufac, da Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (RBTrans) e do Tribunal de Contas do Estado (TCE-AC) para discutir medidas emergenciais.
Na ocasião, a RBTrans informou que iniciou tratativas para ampliar a frota das linhas que atendem a Ufac e o Instituto Federal do Acre (Ifac), especialmente nos horários de maior demanda.
Também na segunda-feira, a Ufac divulgou nota de repúdio aos episódios de violência registrados durante a manifestação. A universidade classificou a mobilização como uma reivindicação legítima por condições dignas de acesso e permanência no ensino superior e afirmou que qualquer ato de violência contra estudantes durante o exercício do direito à manifestação é inadmissível.
Transporte opera com menos da metade da frota
O agravamento da crise teve início no fim de junho, quando a Justiça determinou a apreensão de 38 ônibus da empresa Ricco Transportes e Turismo. Desde então, o sistema passou a operar com apenas 39 veículos, o equivalente a cerca de 41% da frota de 94 ônibus considerada necessária para atender a população da capital.
A redução provocou longas filas nas paradas, superlotação dos coletivos, aumento no tempo de espera e dificuldades de deslocamento para trabalhadores, estudantes e demais usuários do sistema.
Para reduzir os impactos, a Prefeitura de Rio Branco autorizou temporariamente a operação de táxi-lotação e anunciou o reforço da frota com mais 20 ônibus até o próximo sábado (18). Segundo a RBTrans, dez desses veículos devem ser incorporados pela Ricco ainda nesta semana.
Paralelamente, o município conduz a transição operacional para a JTP Transportes, empresa contratada emergencialmente para assumir o sistema de transporte coletivo. O contrato prevê um período de transição de até 90 dias, durante o qual a Ricco continuará operando parte das linhas enquanto a nova empresa implanta a estrutura necessária para iniciar definitivamente as operações.







