Antes que você mergulhe neste texto, preciso confessar uma coisa: conheço pouco – ou quase nada – de futebol. Não sei escalar a seleção, não acompanho campeonatos e não consigo discutir táticas de jogo. Torço pelo Brasil. Torço pelo sentimento.
E já que tem sido inevitável pensar sobre Copa, sobre a seleção brasileira e tudo o que a ela vem agregado, eu quero conversar um pouco sobre a temática e como isso me impacta, ou melhor, nos impacta.
A Copa é um daqueles fenômenos que vai além do esporte. A cada quatro anos ela mexe com nossa emoção, nossa identidade e nosso sentimento de pertencimento.
Especialmente neste ano, tenho ouvido uma frase com frequência: “A Copa já não é mais a mesma”.
Mas o fato é que o brasileiro ainda acompanha a seleção, ainda comenta os jogos, ainda sofre e comemora. Embora pareça que já não vibra da mesma forma, a magia da torcida parece não brilhar tanto como antes.
Lembro-me da primeira vez em que acompanhei uma Copa com entusiasmo. Foi em 2014. Eu tinha 16 anos e vestia uma blusa amarela com um abacaxi estampado na frente. Até aquele dia eu não sabia que algumas pessoas consideravam o abacaxi um símbolo de azar.
Descobri isso justamente quando o Brasil sofreu a histórica derrota de 7 a 1 para a Alemanha. E essa é uma ferida esportiva difícil de a gente esquecer, né?
Recentemente, quando a Alemanha venceu o Curaçao também por 7 a 1, muita gente comentou nas redes sociais que sentiu uma espécie de gatilho ruim.
Mas me parece que a mudança na relação dos brasileiros com a Copa não tenha começado naquele jogo com a Alemanha. De fato, essa derrota se tornou um marco simbólico para a seleção, mas a pergunta que fica é: o que mudou na forma como os brasileiros vivem a Copa atualmente?
Em Copas passadas, recordo que as ruas eram pintadas semanas antes da estreia da seleção. As bandeirinhas e fitas verdes, azuis e amarelas cruzavam ruas inteiras. Os vizinhos se reuniam para organizar a decoração. Crianças e adultos participavam da pintura do asfalto.
Era uma experiência e uma expectativa coletiva que tomavam conta das cidades. A prefeitura motivava ainda mais a população com o projeto da “rua mais bonita”, premiando com cervejas, refrigerantes, e até boi para o churrasco.
Havia uma sensação de pertencimento, como se, por alguns dias, o país encontrasse algo capaz de unir pessoas, mesmo as mais diferentes. Os laços comunitários eram fortalecidos.
Hoje, ainda encontramos algumas ruas decoradas, mas elas já não parecem ocupar o mesmo espaço na paisagem.
Será que o brasileiro deixou de gostar da Copa? Ou será que o Brasil mudou?
Alguns dizem que o Brasil não sabe mais jogar, que a seleção brasileira já não tem mais “o molho” de antigamente.
No entanto, penso que as respostas estejam menos relacionadas ao próprio futebol e mais às transformações da própria sociedade.
Antigamente, a torcida acontecia na rua. Hoje, muita gente assiste sozinha, pelo celular, comentando em redes sociais. Antes, os comentários surgiam nas calçadas, nas esquinas, nos botecos e botequins, nos quintais de casa… Agora, eles aparecem mais em grupos de whatsapp, perfis de instagram e vídeos curtos que desaparecem em segundos.
Observo que o entusiasmo pela seleção não desapareceu, mas os espaços de torcida mudaram bastante os endereços.
Nesse contexto, surgem outras questões que também merecem certa atenção.
Durante décadas, a camisa da seleção, a bandeira nacional e as cores verde e amarela funcionaram como símbolos compartilhados. Gostando ou não de futebol, todo bom brasileiro se reconhecia neles.
Nos últimos anos, esses símbolos passaram a ser disputados politicamente. Muitas pessoas deixaram de enxergá-los como elementos comuns e passaram a associá-los a determinados grupos ou posicionamentos. O que antes unia o país, em muitos momentos passou a dividir.
Talvez isso também explique parte do distanciamento que algumas pessoas sentem em relação à seleção.
Outra questão é que, por muito tempo, o mundo enxergou o Brasil como o país do futebol.
Mas será que os próprios brasileiros ainda se reconhecem nessa imagem?
Hoje, o Brasil também é música, cultura digital, diversidade cultural, luta ambiental, ciência, arte, movimentos sociais. Talvez a identidade nacional tenha se tornado mais plural e menos dependente do futebol.
Antigamente, a Copa parecia mais próxima das pessoas. Hoje ela é um grande negócio global, cercado de marcas, contratos milionários e interesses comerciais.
Será que parte desse encanto se perdeu quando o espetáculo ficou mais corporativo e menos humanitário?
Dias atrás, vi uma publicação sobre o uniforme usado pela delegação brasileira durante sua chegada aos Estados Unidos. O traje era cinza, discreto, apagado. Nos comentários, uma enxurrada de críticas. Alguns diziam que parecia um pijama. Outros ironizaram: “Roupa de hospital em homenagem ao menino Ney. Força, guerreiro”.
À primeira vista, a discussão me parecia uma questão de moda, mas era algo mais profundo. As críticas falavam da ausência das cores, da falta de identidade, do apagamento visual daquilo que faz o Brasil ser reconhecido à distância. Falavam sobre uma espécie de crise estética.
Achei curioso, porque a discussão não era sobre tecido, mas sobre identidade e pertencimento – assunto que considero muito caro.
Talvez estejamos mesmo vivendo uma espécie de crise estética, mas também uma crise de identificação.
Ao meu ver, o que está mesmo em jogo não é apenas a seleção brasileira, mas a dificuldade de encontrar símbolos capazes de representar um país tão diverso.
Ao mesmo tempo, me pergunto se não existe também um pouco de nostalgia em tudo isso.
Será que a Copa era realmente melhor antes? Ou será que sentimos saudade de quem éramos?
Quando lembramos das ruas enfeitadas, talvez estejamos lembrando também dos amigos da infância, dos parentes que já partiram, das famílias reunidas em frente à televisão ou ao pé do rádio, da voz marcante de Galvão Bueno dizendo “Haja coração!”…
Pode ser que a saudade não seja apenas da Copa, mas de um Brasil que existia dentro das nossas memórias.
De alguma forma, o que eu acredito é que, quando muda a nossa relação com a Copa, muda também a nossa relação com o próprio Brasil.
A Copa nunca será apenas futebol.
Minha torcida continua pelo Brasil – e não só do futebol.






