Antes que outra mulher morra

Por Antônia Tavares

Escrevo por mim e por todas nós. Escrevo também a quem ainda consegue dormir. Nosso estado é violento. Quem olha demoradamente para os números vê correr sangue das pedras.

Os números oficiais chegaram [Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública, edições correspondentes aos anos analisados]. Têm origem nos registros das delegacias e, por isso, não dizem tudo. Não contam as mulheres que não denunciaram nem alcançam as meninas que ainda não compreenderam o que lhes aconteceu. O que conhecemos é apenas um reflexo pálido, quase invisível, da realidade. Ainda assim, mesmo incompletos, os esses números sangram.

Em 2025, o Acre apresentou a maior taxa de feminicídios do Brasil: foram 14 mulheres assassinadas, o equivalente a 3,2 mortes para cada 100 mil mulheres — 128,6% acima da média nacional.

Não somos o estado com o maior número absoluto de feminicídios. Somos o estado onde ser mulher representou, proporcionalmente, o maior risco de morrer por razões de gênero.

No mesmo ano, o Acre registrou 687 vítimas de estupro de vulnerável — 77,7 casos para cada 100 mil habitantes, taxa 154,8% superior à média nacional e a segunda maior do Brasil. Mas um número revela muito mais quando acompanhamos seu movimento ao longo do tempo.

Em 2020, o Acre ocupava a 13ª posição nacional em estupro de vulnerável, com taxa de 21,9. Em 2021, ocorreu o salto: o índice chegou a 50,6, um crescimento de 131% em apenas um ano. Em 2022, o estado passou à segunda posição. Desde então, permaneceu entre os três estados com os índices mais elevados do país, voltando ao segundo lugar em 2024 e nele permanecendo em 2025, mesmo com a redução de 9,8% registrada no último ano.

Sim, houve uma queda. Mas uma queda só se transforma em mudança quando continua. Permanecer na segunda posição nacional não é um resultado aceitável.

O que aconteceu entre 2020 e 2022 para que o Acre saltasse da 13ª para a segunda posição no ranking nacional? Parte dessa mudança pode decorrer da melhoria dos registros. Mas isso não explica tudo. Quando estupro de vulnerável, violência doméstica, tentativas de feminicídio e feminicídios permanecem simultaneamente elevados, o conjunto dos dados aponta para uma estrutura de violência — não apenas para uma mudança na forma de contabilizá-los. Por trás dessa estrutura, há histórias que escapam às estatísticas.

Recentemente, uma mulher me confessou um trauma:

— Meu padrasto abusava de mim desde bebê.

Não preciso dizer mais. A frase, sozinha, já contém um abismo.

Mas compreender a violência também exige que saibamos onde e como ela se manifesta. Quando inscritos no mapa, os dados desenham uma geografia inquietante. O Sudeste concentra grande número de vítimas em termos absolutos, em parte porque reúne a maior população do país. O Nordeste apresenta elevada violência letal, cujas vítimas são majoritariamente homens. A Região Norte, por sua vez, registra taxas desproporcionais de violência sexual contra meninas e mulheres — e de feminicídios. Não são fenômenos idênticos, tampouco mundos separados. O mapa revela onde a violência se concentra; a série histórica, a direção em que ela caminha.

Os números não adivinham o futuro. Ajudam-nos a reconhecer futuros possíveis. Examinemos a série histórica dos feminicídios no Acre: em 2018, foram 14 mulheres assassinadas; em 2019, 11; em 2020, 12; em 2021, 13; em 2022, nove; em 2023, dez; em 2024, oito; e, em 2025, voltamos a 14.

Partimos de 14 feminicídios e, sete anos depois, retornamos aos mesmos 14. A série fecha um círculo: a violência oscilou, recuou, mas voltou ao ponto de partida.

Por um instante, 2026 pareceu oferecer alívio: no primeiro semestre, nenhum feminicídio foi registrado no Acre, embora houvesse tentativas. Então chegou julho. Até a conclusão deste manifesto, a imprensa acreana havia noticiado dois casos como feminicídios e outras duas mortes de mulheres ainda sob investigação.

Esses quatro casos, quando confrontados com a série histórica, configuram uma situação de risco. Se nenhuma medida efetiva alterar essa trajetória, dois cenários de referência — o retorno ao patamar de 2019 e a repetição dos picos de 2018 e 2025 — indicam que o Acre poderá encerrar 2026 com 11 a 14 feminicídios. Se a classificação dos dois casos noticiados como feminicídios for oficialmente confirmada, isso significa que outras sete a nove mulheres poderão morrer.

Não examinamos tendências para adivinhar quem morrerá, mas para agir enquanto o futuro ainda pode ser alterado. A comparação com outros indicadores, porém, expõe uma contradição ainda maior.

O Acre encerrou 2025 com a maior taxa de encarceramento do país: 976,9 pessoas presas para cada 100 mil habitantes — mais que o dobro da média nacional. Esse patamar não é recente. O estado já ocupava o primeiro lugar em 2020, oscilou entre a segunda e a quarta posições nos anos seguintes e retornou ao topo em 2025.

O gasto por habitante com segurança pública seguiu trajetória semelhante. Em 2021, o Acre ocupava a sétima posição. Em 2022, chegou à segunda e ali permaneceu até 2024. Em 2025, assumiu o primeiro lugar, com R$ 1.486,50 por habitante.

Como pode o estado que proporcionalmente mais gasta e mais prende apresentar indicadores tão graves de violência contra meninas e mulheres?

Essa comparação não significa que investir seja inútil ou que responsabilizar agressores seja desnecessário. Revela algo mais incômodo: o volume de recursos e a intensidade do encarceramento não foram suficientes para impedir que a violência chegasse até aqui. A questão não está apenas em quanto se investe, mas em como, onde e quando o Estado atua. O Estado sabe prender e esquecer o que enterra.

A responsabilização penal é indispensável, mas costuma chegar quando o crime já aconteceu. Se continuarmos respondendo apenas depois, faltarão celas e recursos para administrar as consequências, enquanto continuarão faltando proteção e prevenção. Nossa luta não tem por finalidade encher as cadeias. O que queremos são mulheres vivas e livres da violência.

Os números nos colocam diante de uma escolha: utilizá-los para contar vítimas, justificar omissões e explicar por que chegamos tarde; ou lê-los como sinais antecipatórios, reorganizar os investimentos, fortalecer as redes de proteção e agir antes que o risco se transforme em crime.

Este manifesto é dirigido ao Acre inteiro: às famílias, para que não protejam agressores com o silêncio; à sociedade, para que não transforme a violência em costume; e às autoridades às quais foi confiado o poder — e atribuído o dever — de mudar o curso dos acontecimentos.

Os números não são uma sentença. São um aviso. As mulheres projetadas nas curvas do futuro estão vivas agora. Ainda há tempo. É preciso prevenir antes que outra mulher morra.

* Antônia Tavares é mulher cis, escritora acreana e ecofeminista. Autora de Loucas e Bruxas, Bruxas e Loucas e Caderno Rosa: 360 noites entre sonhos e insônias, escreve manifestos feministas poéticos e entrelaça pensamento crítico, imaginação e linguagem para investigar o feminino, os sonhos e as relações entre corpo e poder. Criadora do método As 21 Leis da Escrita Feminina, compreende a escrita como forma de se conhecer, conhecer o mundo, tornar-se autora de si e conquistar liberdade.

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