Por José Diaz
O “Seis” é o lugar de parada obrigatória de todos os filhos, netos e bisnetos de João Vicente da Silva Filho e Maria da Silva Nogueira, além dos muitos amigos colonos e ex-seringueiros que conheceram o casal. Eles chegaram ao Acre em 1923 para cortar seringa no Seringal Baturité. O nome “Seis” refere-se ao quilômetro 6 da BR-317, mais conhecida como Estrada do Pacífico, que une os municípios de Brasiléia e Assis Brasil.

Aqui está localizada a Colônia São Francisco, fundada pelo seringueiro amazonense João Vicente da Silva Filho, mais conhecido como “Seu Juca”, logo após ele deixar de produzir borracha no seringal do “coronel” José Antônio de Almeida. Quando estive no Seis, em outubro de 2021, meu tio Luís Nogueira da Silva contou-me como se conheceram meus pais, Agustín Díaz e Maria do Carmo da Silva Nogueira, a “Carminha”. Ela era a filha mais velha do casal de seringueiros Juca e Maria; ele, também seringueiro do Baturité.

Colônia São Francisco é uma herança de família onde Luís cuida de um pequeno rebanho bovino, juntamente com seus irmãos Zilda e Antônio, o “Tonhão”. Luís era o sexto filho dos seringueiros Juca e Maria. Talvez por isso eu nunca consiga dissociar sua história do Seis, lugar onde a família criou raízes e para onde todos, cedo ou tarde, acabam voltando. Nascido no Seringal Baturité, em 1937, ele ajudou o pai desde criança no corte da seringa para sustentar a família.
No amanhecer da terça-feira de 12 de outubro de 2021, entre os galhos descascados de um esguio mulateiro, o sol apareceu meio acanhado e indisposto em meio à névoa do inverno amazônico. Mesmo assim, conseguiu fazer com que seus raios pincelassem o caule despido daquela árvore. O reflexo transformou o terreiro da Colônia São Francisco em um tapete colorido que ofuscava o olhar.

Naquele mesmo instante, enquanto Tonhão triturava o milho em seu moinho manual para fazer o xerém dos pintinhos, Zilda foi até o galinheiro, debaixo da copa do resiliente mulateiro, para soltar as galinhas. Famintas e apressadas, elas saíram em debandada, algumas voando, outras correndo pelo quintal. Pouco depois, por volta das seis horas da manhã, Luís chegou com um corote cheio do leite recém-ordenhado de suas vaquinhas. Enquanto isso, Zilda preparava a tapioca, as bananas e os ovos fritos. Que maravilha! O café da manhã estava servido.
Terminada a refeição, cada um seguia o rumo de sua lida. Luís afiava a foice e mergulhava na capoeira; Zilda arrumava a casa e cuidava das galinhas; Tonhão remexia o terreiro à procura de minhocas para, mais tarde, pescar algumas piabas que garantiriam o almoço. Era uma rotina simples, mas cheia de sentido, dessas que parecem eternas até que a vida nos ensina o contrário.

Foi justamente dessas manhãs, embaladas pelo cheiro do café, pelo canto das galinhas e pelas histórias contadas sem pressa, que nasceu um dos capítulos deste livro sobre meu pai. Cada detalhe foi reconstruído graças às longas conversas que tive com meu tio Luís Nogueira da Silva, nas noites de outubro de 2021, sentado à mesa da cozinha da tia Zilda. Naquele ano, ele havia acabado de completar 84 anos e ainda guardava na memória, com impressionante nitidez, a vida nos seringais.
Hoje, quando volto àquelas conversas, sinto saudade da sua fala mansa, do sorriso inocente e do olhar cabreiro de homem acostumado à floresta. Ainda havia muito a aprender com ele: os causos dos antigos seringais, as lembranças dos meus avós Juca e Maria na colocação Belo Horizonte, as festas do barracão do Seringal Baturité do “coronel” Almeida e tantos outros episódios que o tempo insistia em preservar apenas na memória dos mais velhos.
Mas meu tio cansou de me esperar. Em 16 de julho de 2026, partiu do Seis aos 89 anos, levando consigo quase nove décadas de experiências vividas a duras penas nos varadouros da floresta, nas estradas de seringa iluminadas pela poronga e diante do defumador impregnado pelo cheiro da borracha e da fumaça. Com ele também se foi uma verdadeira biblioteca viva sobre o cotidiano dos seringueiros acreanos, seus sofrimentos, sua resistência e seus modos de viver na floresta.

Continuarei voltando ao Seis, mesmo sabendo que não o encontrarei mais sentado à mesa da cozinha da tia Zilda ou caminhando pelo terreiro da Colônia São Francisco. Ainda assim, cada canto daquele lugar guardará um pouco da sua presença. O mulateiro continuará oferecendo sombra ao quintal; o terreiro seguirá recebendo o sol das primeiras horas da manhã; e o silêncio parecerá repetir, baixinho, as histórias que ele tantas vezes contou.
Porque as pessoas partem, mas os lugares permanecem como guardiões da memória. E o Seis continuará sendo o ponto de encontro não apenas da família de seu Juca e dona Maria, mas também das lembranças de uma geração de homens e mulheres que abriram varadouros, cortaram seringa, criaram filhos na floresta e ajudaram a construir a história do Acre.
Descanse em paz, meu tio Luís Nogueira da Silva. Que Deus o receba em seus iluminados varadouros, ao lado de seu Juca e dona Maria. E que suas histórias continuem abrindo caminhos para que as futuras gerações conheçam a vida dos homens e mulheres que fizeram da floresta sua casa e seu destino.







