Acre registra 58 conflitos no campo no primeiro semestre de 2026, aponta CPT

Estado aparece entre os dez com maior número de ocorrências no país em levantamento que aponta crescimento dos conflitos agrários; disputas envolvem terra, água e trabalho escravo.

O Acre registrou 58 conflitos no campo entre janeiro e junho de 2026, segundo dados parciais divulgados nesta quarta-feira (2) pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). O estado aparece entre as unidades da federação com maior número de ocorrências no primeiro semestre, em um cenário nacional de aumento das disputas relacionadas à terra, à água e às relações de trabalho no meio rural.

O levantamento do Centro de Documentação Dom Tomás Balduíno (Cedoc/CPT) contabilizou 841 conflitos no campo em todo o Brasil nos seis primeiros meses do ano. Desse total, 711 estão relacionados à terra, 100 à água e 30 a situações de trabalho escravo rural.

No ranking estadual, o Maranhão lidera, com 156 registros, seguido pelo Pará, com 90, Bahia, com 85, e Rondônia e Amazonas, com 63 ocorrências cada. O Acre, com 58 casos, aparece logo atrás desse grupo.

Acre registra 58 conflitos no campo no primeiro semestre de 2026, aponta CPT. Fonte: Cedoc/CPT

O número nacional representa uma retomada do crescimento depois de um ano de queda nos registros. Entre os conflitos pela terra, as ocorrências de violência relacionadas à ocupação e à posse passaram de 584 no primeiro semestre de 2025 para 663 neste ano. Ao mesmo tempo, os registros de ações de resistência, como ocupações e acampamentos, caíram de 66 para 48.

A CPT aponta que, entre as formas de violência que mais cresceram no eixo dos conflitos pela terra, estão a contaminação por agrotóxicos, invasão de territórios, desmatamento ilegal e ameaça de despejo.

Segundo a entidade, essas ocorrências estão associadas, em diferentes contextos, à expansão de atividades ligadas ao agronegócio.

O cenário regional também chama atenção. O Amazonas registrou 52 conflitos relacionados à terra, um aumento de 140% em comparação com o mesmo período de 2025. Pará e Rondônia também aparecem entre os estados com maior número de ocorrências.

No Acre, os 58 registros precisam ser observados dentro da realidade de um estado marcado por disputas fundiárias, pressão sobre territórios tradicionais e avanço de atividades agropecuárias sobre áreas rurais e florestais.

Conflitos pela água mais que dobram

Outro dado do levantamento nacional é o crescimento dos conflitos pelo acesso e uso da água. As ocorrências passaram de 47 no primeiro semestre de 2025 para 100 nos primeiros seis meses de 2026, um aumento de mais de 112%, com registros em 20 estados.

O Pará concentrou o maior número de casos, com 16 ocorrências, seguido por Minas Gerais, com 11, e Amazonas e Mato Grosso, com dez cada. O Acre aparece entre os estados com maior número de conflitos, com nove registros entre janeiro e junho de 2026, empatado com Rondônia e atrás apenas dos quatro estados citados.

A questão ganha relevância para a Amazônia em um ano marcado por eventos extremos relacionados ao clima e pela pressão sobre rios e outros recursos naturais. Para comunidades rurais, ribeirinhas e tradicionais, o acesso à água pode estar diretamente ligado à permanência no território e às condições de produção e sobrevivência.

No caso do Pará, o CPT informou que os primeiros meses deste ano têm sido marcados pela luta dos povos indígenas contra a privatização dos rios, por parte do governo federal, e contra a ação de garimpeiros. Há também a luta de ribeirinhos e outros povos contra a atuação de mineradoras.

A Comissão Pastoral lembrou que a luta dos indígenas contra a privatização dos rios resultou na revogação do Decreto nº 12.600/2025, em fevereiro de 2026. A medida incluía hidrovias nos rios Madeira, Tapajós e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização.

Violência contra a pessoa

Apesar do crescimento geral dos conflitos, o número de assassinatos registrados em disputas no campo caiu no primeiro semestre. A CPT contabilizou seis mortes até o momento, contra 27 no mesmo período do ano passado.

Entre os casos registrados em 2026 está um massacre ocorrido em Lábrea, no Amazonas, com três posseiros mortos. Também foram registrados assassinatos de indígenas em Roraima e Mato Grosso do Sul e de um trabalhador rural sem-terra.

A redução das mortes, no entanto, não significa diminuição da violência. A CPT registrou 588 casos de violência contra a pessoa, envolvendo 497 vítimas. As principais formas identificadas foram contaminação por minérios, com 195 registros; contaminação por agrotóxicos, com 132; criminalização, com 51; e ferimentos, com 42.

Os povos indígenas aparecem como as principais vítimas, seguidos por trabalhadores e trabalhadoras sem terra, posseiros, seringueiros e quilombolas.

Manifestações

Embora não integre o cálculo dos conflitos no campo, as manifestações representam importante estratégia das comunidades para denunciar as violências sofridas e lutar pela garantia de seus direitos, sendo uma forma de resistência contabilizada pela CPT.

No primeiro semestre de 2026, houve 284 manifestações, um aumento em relação ao primeiro semestre de 2025, que teve 253. A CPT cita como destaques os atos públicos, marchas, protestos, romarias, bloqueios de rodovias, ocupações de prédios públicos e outras mobilizações. 

As principais reivindicações são pela demarcação de terras indígenas, contra os agrotóxicos, contra a mineração e a privatização das águas e por melhores condições de trabalho.

A CPT ressalta que os números do primeiro semestre são parciais e servem para identificar tendências dos conflitos ao longo de 2026. A consolidação dos dados será apresentada no relatório anual Conflitos no Campo Brasil, previsto para 2027.

A entidade também destaca que seu conceito de conflito não é sinônimo de violência. O levantamento considera um contexto de disputa que inclui tanto as violências sofridas quanto ações de resistência relacionadas à terra, à água, aos direitos e aos meios de trabalho e produção.

Os dados são produzidos pelo Cedoc/CPT a partir de informações coletadas por agentes da entidade em diferentes regiões do país, além de denúncias, notícias e informações divulgadas por órgãos públicos, movimentos sociais e organizações parceiras.

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