MPF aciona Justiça para exigir atualização de plano de proteção da Terra Indígena Alto Rio Purus, no Acre

Órgão aponta que documento elaborado há mais de uma década não contempla novas ameaças ao território, como projetos de estradas, atuação de missionários e avanço de organizações criminosas na região de fronteira

O Ministério Público Federal (MPF) ingressou com uma ação civil pública para obrigar a União e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) a atualizar e publicar o Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) da Terra Indígena Alto Rio Purus, no Acre.

Segundo o órgão, o documento, elaborado em 2012, já não responde aos desafios enfrentados atualmente pelas comunidades indígenas diante das transformações ocorridas no território ao longo dos últimos anos.

A Terra Indígena Alto Rio Purus ocupa cerca de 236 mil hectares entre os municípios acreanos de Santa Rosa do Purus e Manoel Urbano, na fronteira com o Peru. O território é habitado pelos povos Madija (Kulina) e Huni Kuĩ e integra um importante corredor de conservação da Amazônia, conectado a unidades de conservação brasileiras e peruanas.

Na ação, o MPF argumenta que o plano de gestão territorial é um instrumento fundamental para orientar a proteção dos territórios indígenas, garantir o uso sustentável dos recursos naturais, fortalecer a segurança alimentar das comunidades e assegurar a participação dos povos indígenas nas decisões sobre seus territórios.

Embora o documento tenha passado por um processo de atualização em 2021, o MPF sustenta que o surgimento de novas ameaças exige uma revisão mais ampla antes de sua publicação definitiva. Entre os fatores apontados estão projetos de abertura de estradas nas proximidades da terra indígena, o avanço de atividades ilegais em áreas de fronteira, a presença de grupos missionários e a crescente influência de facções criminosas em regiões estratégicas da Amazônia ocidental.

De acordo com o órgão, a ausência de um PGTA atualizado compromete o planejamento das comunidades indígenas e dificulta a implementação de políticas públicas voltadas à proteção territorial, ao monitoramento ambiental e à prevenção de conflitos. Também enfraquece a articulação entre órgãos públicos e organizações indígenas para enfrentar pressões que se intensificaram ao longo da última década.

Antes de recorrer à Justiça, o MPF instaurou um inquérito civil e promoveu articulações com a Funai, o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), a Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre) e outras instituições envolvidas na política indigenista.

Durante as tratativas, foi elaborado um plano de trabalho prevendo a atualização do documento em um prazo de oito meses. No entanto, segundo informações prestadas pelo Ministério dos Povos Indígenas, a inclusão da Terra Indígena Alto Rio Purus em um projeto nacional de revisão dos planos de gestão territorial ainda depende de procedimentos administrativos e de disponibilidade orçamentária, o que impediu o início das atividades.

Para o MPF, o fato de mais de dez anos terem se passado desde a elaboração do plano, sem perspectiva concreta para sua atualização, justifica a necessidade de intervenção judicial.

Na avaliação do Ministério Público, os Planos de Gestão Territorial e Ambiental vão além de documentos administrativos. Construídos com a participação direta das comunidades indígenas, eles estabelecem diretrizes para a proteção do território, conservação dos recursos naturais, fortalecimento cultural, segurança alimentar e desenvolvimento sustentável.

O órgão destaca que a atualização do PGTA é especialmente importante para a Terra Indígena Alto Rio Purus devido à sua localização na faixa de fronteira, à presença de povos indígenas de recente contato e ao aumento das pressões relacionadas a atividades ilícitas e empreendimentos com potencial impacto sobre a região.

Na ação, o MPF solicita que a Justiça determine à União e à Funai a adoção de medidas concretas para concluir a atualização e a publicação do plano.

Entre os pedidos está a apresentação, em até 60 dias, de um plano de trabalho detalhado contendo cronograma de execução, definição de responsabilidades, previsão orçamentária e mecanismos de participação das comunidades indígenas.

O órgão também requer a realização de consultas e oficinas junto aos povos Huni Kuĩ e Madija, de forma que o documento reflita as mudanças ocorridas no território desde 2012 e incorpore os novos desafios enfrentados pelas comunidades.

Além disso, o MPF pede que o plano seja concluído, validado pelas comunidades indígenas e publicado em até 12 meses. A ação prevê ainda a aplicação de multa diária de R$ 10 mil em caso de descumprimento das determinações judiciais.

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