Morre aos 96 anos Adelino Nunes de Almeida, referência das ‘desobrigas católicas’ na Amazônia acreana

Ministro da Palavra na Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, ele dedicou décadas à evangelização de comunidades isoladas e ajudou a preservar uma das mais tradicionais expressões da fé na floresta

Morreu no final da tarde dessa sexta-feira (19), aos 96 anos, Adelino Nunes de Almeida, ministro da Palavra da Reserva Extrativista (Resex) Cazumbá-Iracema e uma das figuras mais importantes da história das desobrigas católicas na Amazônia acreana.

Reconhecido pelo trabalho de evangelização em comunidades isoladas da floresta, ele dedicou grande parte da vida à missão de levar a “palavra de Deus” a famílias seringueiras em uma época em que a presença de padres na região era rara.

O velório ocorre na Funerária São Francisco, em Rio Branco, desde as 22h desta sexta-feira. O sepultamento está marcado para as 17h deste sábado (20), no Cemitério São João Batista.

Nascido em 21 de janeiro de 1930, Adelino ficou conhecido pelo trabalho missionário desenvolvido a partir da década de 1970, quando a Igreja Católica passou a confiar aos leigos parte das atividades pastorais nas regiões mais remotas. Como ministro da Palavra, participou das desobrigas, tradição missionária que levava o Evangelho, os sacramentos e a orientação religiosa a comunidades que, muitas vezes, passavam anos sem receber a visita de um padre.

Adelino Nunes de Almeida dedicou décadas à evangelização de comunidades isoladas da Amazônia acreana como ministro da Palavra e um dos principais nomes das desobrigas católicas. Foto: Cedida

Nessa missão, esteve ao lado do padre Paolino Baldassari, um dos maiores símbolos da Igreja Católica no Acre. Considerado seu braço direito durante as desobrigas, acompanhou o missionário nas longas viagens pelos rios da região, auxiliando nas celebrações, batismos, casamentos e demais atividades pastorais junto às comunidades da floresta

Sua trajetória ganhou destaque em 2019, quando foi retratado em uma reportagem da Agência de Notícias do Acre como um dos principais responsáveis por manter viva essa tradição na Resex Cazumbá-Iracema, entre Sena Madureira e Manoel Urbano. Na época, aos 86 anos, ele relembrou as dificuldades enfrentadas pelas comunidades do interior e a força da religiosidade popular.

“Nessa época as pessoas que moravam na floresta não tinham muito contato com a Igreja. Também não havia padres. Quando aparecia um por aqui era de quatro em quatro anos. E nesse tempo, a religiosidade do povo era rezar o terço”, relatou à Agência de Notícias do Acre.

Adelino Nunes de Almeida morreu aos 96 anos, deixando um legado de fé e serviço às comunidades da floresta. Foto: Cedida

Além da atuação religiosa, Adelino também trabalhou na antiga Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam), onde participou do combate à malária em comunidades do interior acreano. Após a aposentadoria, fixou residência na Resex Cazumbá-Iracema, onde continuou servindo à comunidade como ministro da Palavra e colaborando com a associação local de seringueiros.

Com uma vida marcada pela simplicidade, pela fé e pelo compromisso com as populações da floresta, Adelino se tornou uma referência para gerações de moradores da reserva. Sua atuação ajudou a preservar não apenas uma tradição religiosa, mas também parte da memória social e cultural das comunidades amazônicas, onde as desobrigas representavam momentos de encontro, solidariedade e fortalecimento dos laços comunitários.

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