Pesquisa inédita aponta elevado índice de subnotificação na capital acreana e revela desafios para a segurança pública, especialmente no enfrentamento aos crimes digitais e à violência contra mulheres
Mais de 39,1 mil crimes cibernéticos e 10,4 mil casos de violência doméstica podem ter deixado de ser registrados oficialmente em Rio Branco nos últimos 12 meses. Os dados fazem parte da Pesquisa de Vitimização na Cidade de Rio Branco, apresentada nesta terça-feira (16), durante seminário realizado no plenário do Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC).
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O estudo revela uma realidade que permanece fora das estatísticas da segurança pública. Conhecida como “cifra obscura”, a subnotificação corresponde aos crimes que ocorrem, mas não chegam ao conhecimento das autoridades por meio de boletins de ocorrência.
Coordenador da pesquisa, o professor doutor Ermício Sena, da Universidade Federal do Acre (Ufac), explicou que o levantamento busca justamente identificar essa parcela invisível da violência.
“A pesquisa de vitimização é um diagnóstico da subnotificação da violência em Rio Branco, ou seja, ela é o que a gente chama de busca da ‘cifra obscura’. Aquela que está escondida, que as polícias, os órgãos de segurança e a sociedade não sabem. Muitas pessoas não registram boletins de ocorrência, que é muito importante para a polícia agir, e fazem isso porque acham que isso vai piorar a situação delas, porque [o problema] não vai ser resolvido”, afirmou.
A pesquisa foi coordenada por Ermício Sena e desenvolvida pelo grupo de pesquisa Sujeitos, Ações e Percepções: Grupo de Pesquisa em Violência e Conflitualidades, liderado pela professora doutora Marissol Brandt.
Menos de um terço das vítimas procura a polícia
Os resultados apontam que, em média, 6% dos moradores de Rio Branco foram vítimas de algum tipo de crime. Entre essas vítimas, apenas 27,8% registraram boletim de ocorrência.
A pesquisa identificou que os crimes com menor taxa de notificação são constrangimento por insinuação de cunho sexual, discriminação e fraude pela internet.
Na outra ponta, os delitos mais frequentemente comunicados às autoridades são furto de veículo automotor, agressão física e roubo de objetos de valor, todos com índices de registro superiores à metade dos casos.
A baixa procura pelos canais oficiais ajuda a explicar a discrepância entre os números percebidos pela população e aqueles registrados pelos órgãos de segurança.
Ferramenta para orientar políticas públicas
Durante o seminário, a presidente do TCE-AC, conselheira Dulce Benício, destacou que os impactos da violência ultrapassam os números das ocorrências policiais e exigem respostas mais efetivas do poder público.
“Precisamos nos reunirmos mais vezes para debater a importância desse tema, ficar atento aos orçamentos também dos municípios e do governo, para contemplar políticas efetivas que combatam essa violência encoberta no campo social”, afirmou.
Para o sociólogo e especialista em segurança pública Marcos Rolim, do Tribunal de Contas do Rio Grande do Sul, a realização da pesquisa representa um avanço importante para o Acre.
“A grande maioria das vítimas, tanto no Brasil quanto no resto do mundo, não registra as ocorrências, inclusive no caso de crimes graves e violentos. Por essa razão, países mais avançados nessa área já utilizam as pesquisas de vitimização como um instrumento fundamental há muitas décadas”, destacou.
Segundo ele, os resultados oferecem um retrato mais próximo da realidade enfrentada pela população e podem subsidiar ações mais eficientes das forças de segurança.
Crimes digitais e violência contra a mulher entram no radar
Entre os principais alertas apontados pelo relatório está o crescimento dos crimes digitais, que passam a ocupar espaço relevante entre as formas de vitimização registradas pelos moradores da capital.
A pesquisa também reforça a necessidade de ampliar políticas públicas voltadas ao enfrentamento da violência contra a mulher, diante do elevado número de casos que permanecem fora dos registros oficiais.
O documento aponta ainda que a sensação de insegurança continua elevada em diferentes regiões da cidade, especialmente em áreas marcadas por vulnerabilidades sociais e baixa presença institucional.
Principais pontos de atenção identificados
- Elevada percepção de violência na cidade;
- Concentração territorial da insegurança em regiões vulneráveis;
- Convergência entre percepção popular e evidências de campo em áreas críticas;
- Crescimento dos crimes digitais como nova dimensão da violência;
- Impactos da insegurança até mesmo na realização de pesquisas de campo.
Desafios apontados pelo estudo
- Reduzir desigualdades territoriais na segurança pública;
- Fortalecer a presença do Estado em áreas vulneráveis;
- Ampliar a confiança da população nas forças de segurança;
- Qualificar estratégias de combate aos crimes digitais;
- Expandir políticas específicas de proteção às mulheres.
Primeira pesquisa do tipo no Acre
O estudo foi contratado pela Ufac e executado pelo Instituto Pesquisas de Opinião (IPO), por meio da Fundação de Apoio e Desenvolvimento Ensino e Pesquisa Universitária no Acre.
Entre os dias 24 de fevereiro e 6 de abril deste ano, foram entrevistados 800 moradores com mais de 16 anos nas dez regionais de Rio Branco. A margem de erro é de 3,5 pontos percentuais e o nível de confiança alcança 95%.
Além de identificar vítimas de crimes e violências, a pesquisa investigou a sensação de segurança da população, o nível de confiança nas instituições e a percepção sobre o trabalho das polícias Civil e Militar.
Segundo o relatório, o levantamento incorpora indicadores voltados a temas emergentes, como violência doméstica, crimes digitais e percepção de justiça, ampliando o diagnóstico sobre a segurança na capital acreana.







