Obra usa ficção política como ferramenta de intervenção sobre os povos indígenas e seus territórios e integra campanha “A Resposta Somos Nós”
O curta-metragem “Vitória Régia”, lançado na última terça-feira (14), chega ao debate público como uma obra de ficção que se ancora em conflitos concretos do país. Com 20 minutos de duração, o filme articula temas como soberania nacional, crise climática e fragilidade democrática, tendo a Amazônia como centro de uma narrativa que mistura distopia e denúncia.
Produzido pelo Coletivo Zero, pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e pelo G9, em parceria com a produtora Vetor Zero, o curta dá visibilidade às pautas territoriais e climáticas defendidas pelo movimento indígena brasileiro. No elenco, a atriz Alice Braga divide protagonismo com a liderança indígena Ywyzar Tentehar. O roteiro é assinado pela jornalista Carol Pires, com direção de Cisma e produção de Pedro Inoue.
A trama se passa em uma realidade paralela, onde um candidato derrotado nas urnas consegue tomar o poder por meio de um golpe de Estado com apoio estrangeiro. Nesse cenário, a Amazônia é entregue a interesses internacionais e rebatizada de “Amazon of America”. A partir desse ponto, o filme constrói uma narrativa de resistência protagonizada por povos indígenas e comunidades quilombolas, que se organizam para defender o território diante de uma ameaça que não é apenas fictícia.
A personagem de Alice Braga é uma jornalista que atravessa esse território em conflito com o objetivo de contar ao mundo o que está em jogo. Para a atriz, a participação no projeto foi movida por um compromisso político e simbólico.
“O desejo de usar a ficção para ampliar uma escuta que já existe, e ajudar essas vozes a chegarem mais longe. Os povos indígenas, enquanto guardiões da floresta, são também os guardiões do futuro. Então fazer esse filme foi colocar meu trabalho a serviço de algo que eu acredito e me mobiliza profundamente”, afirma.
A leitura do filme, no entanto, não se limita ao campo simbólico. Para Toya Manchineri, coordenador-geral da Coiab, a escolha da ambientação reforça o papel central da Amazônia nas disputas contemporâneas.
“No filme, a Amazônia não é pano de fundo – é território vivo, em disputa, onde democracia, soberania e futuro climático se tornam inseparáveis. A partir disso, o filme coloca uma pergunta central: quem decide o destino de territórios estratégicos – e a serviço de quais interesses? E quais são as consequências dessas decisões no longo prazo?”, questiona.
Já Dinamam Tuxá, coordenador-executivo da Apib, aponta que a narrativa explicita tensões já existentes no país.
“De um lado, a lógica da exploração predatória, acelerada e orientada pelo lucro imediato. Do outro, a defesa de ecossistemas que regulam o clima e sustentam a vida. O que está em disputa não é apenas território. É poder, é soberania e é o lugar do Brasil no mundo. É um filme sobre ESCOLHAS. Um lembrete de que democracias não são garantias permanentes – e de que territórios não são mercadorias”, disse.
A estreia ocorreu no Cine Belas Artes, em São Paulo, com a presença de lideranças indígenas como Alana Manchineri, Tukumã Pataxó e Samela Sateré Mawé, que atuam na articulação política e na comunicação do movimento indígena.
“Vitória Régia” opera como um alerta. Ao tensionar democracia e soberania em um cenário extremo, o filme evidencia que parte dos conflitos retratados já está em curso, ainda que em outras escalas e formatos. A ficção, nesse caso, funciona menos como fuga e mais como lente de aumento.
O curta está disponível gratuitamente no YouTube da Coiab e no site oficial do projeto.
Com informações da Apib.







