Com 81% de chance de atingir a categoria “muito forte” até o fim de 2026, fenômeno climático aumenta o risco de estiagem prolongada, incêndios florestais e impactos sobre comunidades tradicionais e a biodiversidade amazônica.
A possibilidade de o El Niño atingir a categoria de “muito forte” até o fim de 2026 acende um novo alerta para a Amazônia. A atualização divulgada pelo Centro de Previsão Climática (CPC), da agência norte-americana National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), indica que o fenômeno tem 81% de probabilidade de alcançar alta intensidade entre outubro e dezembro — justamente no período em que a região costuma enfrentar os meses mais secos do ano.
Na Amazônia, os efeitos do El Niño vão muito além das altas temperaturas. O fenômeno costuma reduzir o volume de chuvas, prolongar a estiagem e criar condições favoráveis para a propagação de incêndios florestais, além de provocar a queda no nível dos rios, afetando diretamente a mobilidade, o abastecimento de água, a pesca e a segurança alimentar de milhares de famílias ribeirinhas e povos indígenas.
Os impactos também recaem sobre a floresta. Com menos umidade e temperaturas elevadas, a vegetação torna-se mais vulnerável ao fogo, favorecendo queimadas de grandes proporções e aumentando a emissão de gases de efeito estufa, que intensificam o aquecimento global.

Um cenário que preocupa
O fortalecimento do El Niño ocorre poucos anos depois de a Amazônia enfrentar uma das mais severas secas já registradas.
Em 2023 e 2024, diversos rios amazônicos atingiram níveis historicamente baixos. No Acre, municípios enfrentaram dificuldades de abastecimento, isolamento de comunidades rurais e prejuízos à navegação.
Em outros estados da Amazônia Legal, milhares de famílias ficaram sem acesso regular ao transporte fluvial, enquanto a mortandade de peixes e de botos evidenciou os efeitos extremos da combinação entre seca e calor.
Agora, os especialistas alertam que um novo episódio intenso poderá repetir ou até ampliar esses impactos, dependendo da evolução do fenômeno e das condições atmosféricas nos próximos meses.
Mais calor e menos chuva
O El Niño é provocado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera a circulação dos ventos e modifica a distribuição das chuvas em diferentes regiões do planeta.
Na Amazônia, a consequência mais comum é a redução das precipitações, especialmente durante a estação seca. A falta de chuvas diminui a umidade da floresta, favorece o avanço das queimadas e dificulta o combate aos incêndios.
Além disso, as temperaturas tendem a ficar acima da média, aumentando a evaporação da água dos rios e do solo. O resultado é um ciclo que intensifica a seca e amplia os riscos ambientais e sociais.

Rios mais baixos afetam comunidades
Os rios são as principais vias de transporte na Amazônia. Quando o nível das águas diminui, embarcações deixam de chegar a comunidades isoladas, comprometendo o transporte de alimentos, combustíveis, medicamentos e pacientes.
A estiagem também afeta diretamente a pesca artesanal, reduz a produção agrícola em áreas ribeirinhas e dificulta o acesso à água para consumo humano e para os animais.
No Acre, onde grande parte dos municípios depende dos rios para transporte e abastecimento, uma estiagem prolongada pode gerar impactos econômicos e sociais significativos, principalmente em localidades mais distantes dos centros urbanos.
Mudanças climáticas ampliam os riscos
Embora o El Niño seja um fenômeno natural, os cientistas alertam que seus efeitos ocorrem hoje em um planeta mais quente devido às mudanças climáticas provocadas pelas atividades humanas.
Essa combinação pode tornar ondas de calor mais intensas, prolongar períodos de seca e aumentar a frequência de eventos extremos, ampliando os impactos sobre populações vulneráveis e ecossistemas como a Amazônia.
Segundo a NOAA, o fenômeno já está estabelecido e há 97% de probabilidade de permanecer ativo até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte, o que corresponde ao outono brasileiro.
Para especialistas, o cenário reforça a necessidade de planejamento por parte dos órgãos públicos, com ações voltadas ao monitoramento de queimadas, gestão dos recursos hídricos, apoio às comunidades mais vulneráveis e prevenção de desastres ambientais.







