Três dias de paz

Por Antônia Tavares

Hoje pela manhã — embora agora seja noite, e a manhã pareça ter acontecido há muito tempo ou talvez continue acontecendo —, um paciente chegou atrasado à clínica. Entrou bufando e, antes mesmo de se acomodar, disse:

— As mulheres são incompreensíveis.

A enfermeira respondeu no susto dos instintos:

— Vocês nunca conheceram os nossos infernos.

Então, desfiou um rosário: menstruação, gravidez, menopausa, hormônios; esse corpo oscilante que sangra, gera, dá leite, transforma-se e, contudo, precisa levantar-se, vestir-se, trabalhar, sorrir e atravessar o dia como se nada extraordinário estivesse acontecendo dentro dele.

— A mulher só tem três dias de paz por mês. O resto é inferno — disse.

A clínica inteira congelou. Talvez porque cada pessoa tenha percebido a existência de um mundo que sempre estivera ali, embora ninguém o visse. Pois o invisível não é aquilo que não existe. Muitas vezes, é aquilo que está diante de nossos olhos. E aquela letargia que só acontece nos domingos chuvosos entrou em mim.

O tempo passou — as horas certamente passaram, porque agora é noite —, mas não passou em mim. Continuo pensando nos infernos que as mulheres carregam há eras sem interromper o funcionamento do mundo.

Incompreensíveis para quem nunca precisou conhecer os medos com que aprendemos a viver. Medo de andar sozinha. Medo de dizer não. Medo de desagradar. Medo de deixar de amar alguém. Medo de permanecer. Medo de partir. Medo da rua escura e, às vezes, medo da casa iluminada.

Eu mesma sempre vivi com medo. Agora, tenho medo até de ir ao Parque da Maternidade. Alguém poderia dizer: é apenas um parque. Mas nenhum lugar é apenas um lugar quando somos obrigadas a abrir mão dele. Talvez a liberdade não seja roubada de uma vez. Talvez vá diminuindo aos poucos — um parque, uma rua, um horário, uma palavra — até que a mulher perceba que sua vida não foi traçada por seus desejos, mas pelo medo. O medo tira minha liberdade. Mulheres vivem medos que o mundo não vê.

Agora, dentro da noite, pressinto em mim o que a mulher aprende a suportar enquanto o mundo continua — indiferente, pontual, perfeitamente organizado ao redor de seus infernos. Infernos que não são maus nem são, em si mesmos, infernos. E, no entanto, incompreensíveis somos nós.

Incompreensíveis somos nós. Ai do homem que compreender inteiramente uma mulher. Ai do homem que compreender inteiramente uma mulher. Ai de tudo o que nele já não poderá permanecer indiferente. Nesse dia, seremos salvas.

* Antônia Tavares é mulher cis, escritora acreana e ecofeminista. Autora de Loucas e Bruxas, Bruxas e Loucas e Caderno Rosa: 360 noites entre sonhos e insônias, escreve manifestos feministas poéticos e entrelaça pensamento crítico, imaginação e linguagem para investigar o feminino, os sonhos e as relações entre corpo e poder. Criadora do método As 21 Leis da Escrita Feminina, compreende a escrita como forma de se conhecer, conhecer o mundo, tornar-se autora de si e conquistar liberdade.

Publicidade
banner docs epop bari 01