Sem ônibus, estudantes enfrentam repressão durante protesto por transporte coletivo em Rio Branco

Manifestação denunciou os impactos da precarização do transporte público sobre estudantes e trabalhadores. Tentativa de ocupação do prédio foi barrada por policiais militares e seguranças, provocando tumulto e empurra-empurra.

A crise do transporte coletivo de Rio Branco, que há anos compromete o deslocamento diário de milhares de pessoas e se agravou nas últimas semanas com a redução da frota de ônibus, levou estudantes da Universidade Federal do Acre (Ufac) às ruas na manhã desta segunda-feira (13).

O protesto, organizado por movimentos estudantis, tinha como principal reivindicação a melhoria do sistema de transporte público, mas terminou em tumulto quando os manifestantes foram impedidos de ocupar a sede da Prefeitura.

A mobilização começou em frente ao prédio do Executivo municipal, no Centro da capital, onde estudantes exibiram faixas e cartazes denunciando a precariedade do serviço. O grupo também interditou a Rua Rui Barbosa, provocando congestionamentos na região central, e pretendia ocupar o prédio da prefeitura como forma de pressionar o poder público a apresentar soluções para a crise.

A tentativa, no entanto, foi barrada por policiais militares e seguranças da prefeitura. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram o momento em que manifestantes e agentes de segurança entram em confronto físico. Nas imagens, uma estudante é empurrada e cai no chão durante o tumulto. O episódio gerou empurra-empurra, discussões e acirrou o clima entre os participantes do ato e os servidores que faziam a segurança do prédio.

Segundo representantes do movimento estudantil, a manifestação transcorria de forma pacífica até a intervenção policial. O presidente da União da Juventude Socialista (UJS), Lucas Souza, afirmou que os estudantes foram reprimidos ao tentarem apresentar suas reivindicações.

De acordo com ele, muitos universitários deixaram de frequentar as aulas por falta de ônibus e o movimento continuará mobilizado em “defesa de um transporte público acessível e de qualidade”.

Estudantes são reprimidos ao tentar ocupar Prefeitura durante protesto contra crise do transporte em Rio Branco. Foto: Reprodução

O vereador André Kamai (PT) acompanhou a manifestação e manifestou apoio às reivindicações dos estudantes. Em publicação nas redes sociais, afirmou que o movimento representa estudantes e trabalhadores afetados pela crise do transporte coletivo e defendeu o direito à manifestação.

Após o confronto, Kamai participou de uma reunião com o prefeito Alysson Bestene, representantes do movimento estudantil e integrantes da administração municipal. Durante o encontro, defendeu a criação de uma mesa permanente de negociação entre a prefeitura, estudantes e sindicatos para discutir soluções para o problema.

Segundo o parlamentar, o município precisa apresentar um cronograma público, com prazos definidos para o restabelecimento da frota e para a realização da licitação definitiva do sistema, uma demanda que, segundo ele, vem sendo cobrada por usuários e entidades diante do agravamento da crise.

Kamai afirmou que participou do ato em solidariedade aos estudantes e relatou ter presenciado agressões durante a contenção da manifestação. De acordo com o vereador, ele foi atingido por spray de pimenta ao tentar proteger manifestantes e considera que houve uso excessivo da força por parte dos agentes responsáveis pela segurança do prédio.

“O que aconteceu aí na frente não foi uma contenção. O que aconteceu aí na frente foi um espancamento. Eu vi. Assisti cenas que eu nunca vi: seguranças da prefeitura segurando jovens pelo cabelo, dando soco, batendo em mulheres, enforcando. Eu não posso passar por cima desse problema, é muito grave”, criticou Kamai.

O parlamentar também cobrou a abertura de um procedimento administrativo para apurar a atuação dos seguranças envolvidos na ocorrência, defendendo que eventuais excessos sejam investigados.

Após a confusão em frente à prefeitura, os estudantes seguiram em caminhada até a sede do Sindicato dos Professores da Educação Básica da Rede Pública do Estado do Acre (Sinproac), onde deram continuidade ao protesto.

Vereador André Kamai (PT) cobra cronograma e investigação sobre ação de seguranças. Foto: Reprodução

Protesto expõe desgaste de uma crise que se arrasta há anos

O sistema de transportes de Rio Branco enfrenta uma crise estrutural desde 2021, quando o município decretou situação de emergência após o colapso das empresas que operavam as linhas urbanas. Desde então, o serviço passou a funcionar por meio de contratos emergenciais, sem que uma licitação definitiva fosse concluída.

Nas últimas semanas, a situação se agravou após a apreensão judicial de dezenas de ônibus da empresa Ricco Transportes e Turismo, responsável pela operação do sistema. A retirada dos veículos reduziu significativamente a frota em circulação, aumentando o tempo de espera, a superlotação dos coletivos e as dificuldades de deslocamento de trabalhadores, estudantes e demais usuários.

Os impactos chegaram à Universidade Federal do Acre, que chegou a suspender atividades presenciais em razão das dificuldades enfrentadas por estudantes e servidores para chegar ao campus.

Como resposta emergencial, a Prefeitura de Rio Branco autorizou temporariamente a operação de táxi-lotação por R$ 5 por passageiro. A medida, porém, foi recebida com críticas por parte dos usuários, que apontam o aumento do custo do deslocamento e defendem soluções permanentes para o transporte público.

O que diz a prefeitura

Em nota, a Prefeitura de Rio Branco afirmou que respeita o direito constitucional à manifestação, mas alegou que parte dos estudantes tentou acessar o prédio de forma forçada, apesar de haver uma reunião previamente agendada com representantes do movimento.

Segundo a administração municipal, a intervenção das forças de segurança teve como objetivo impedir a ocupação do prédio e preservar a integridade de servidores, manifestantes e do patrimônio público. A gestão também criticou a participação de lideranças políticas em ações que, segundo a nota, teriam contribuído para o aumento da tensão durante o ato.

Horas após o episódio, o prefeito Alysson Bestene deixou o gabinete e foi ao encontro dos manifestantes para dialogar com o grupo. Durante a conversa, pediu desculpas pelos episódios de violência registrados durante a tentativa de ocupação da prefeitura e afirmou que as agressões não representam a postura da administração municipal.

O prefeito informou que a prefeitura já mantinha diálogo com uma comissão de estudantes e que uma nova reunião estava prevista para a tarde desta segunda-feira para apresentar medidas emergenciais voltadas ao transporte coletivo.

Entre as ações anunciadas, Bestene informou que a prefeitura reforçou as linhas que atendem o complexo universitário da capital com quatro ônibus adicionais, contemplando a Ufac, o Instituto Federal do Acre (Ifac), a Uninorte e demais instituições da região.

Segundo o prefeito, a expectativa é ampliar esse reforço nos próximos dias com a incorporação de mais dez veículos à frota. Ele também informou que outros dois ônibus deverão ser integrados ao sistema após autorização judicial.

Bestene afirmou ainda que a solução definitiva para a crise depende da entrada em operação da nova empresa responsável pelo transporte coletivo, prevista para setembro, quando o sistema deverá contar com cerca de 120 ônibus entre veículos novos e seminovos. Questionado sobre a possibilidade de implantação de vans compartilhadas, disse que a alternativa foi analisada, mas não avançou por questões relacionadas ao equilíbrio econômico da operação.

Leia na íntegra a nota da prefeitura de Rio Branco

A Prefeitura de Rio Branco lamenta os acontecimentos registrados nesta segunda-feira (13), durante a manifestação realizada por estudantes da Universidade Federal do Acre (Ufac) em frente à sede do Poder Executivo Municipal.

A gestão municipal reconhece e respeita o direito constitucional à livre manifestação e ao protesto. No entanto, repudia qualquer tentativa de invasão de prédio público, agressão a servidores ou agentes de segurança, bem como atitudes que coloquem em risco a integridade física das pessoas e o patrimônio público.

Mesmo já havendo um horário previamente agendado para que uma comissão de representantes fosse recebida pela Prefeitura, parte dos manifestantes tentou acessar o prédio de forma forçada, provocando momentos de tensão no hall de entrada.

A Prefeitura também lamenta a participação de lideranças políticas em ações que ultrapassem os limites do diálogo democrático e contribuam para o acirramento dos ânimos, para a desordem e para comportamentos agressivos contra servidores públicos e agentes de segurança.

A gestão municipal agradece às forças de segurança do Estado pela atuação responsável e imediata, que impediu a invasão e uma possível depredação do prédio público, além de evitar que servidores, manifestantes e outras pessoas fossem agredidos.

A Prefeitura de Rio Branco permanece aberta ao diálogo respeitoso e reforça que todas as manifestações devem ocorrer de forma pacífica, ordeira e dentro dos limites da legalidade.

Prefeitura de Rio Branco
Assessoria de Comunicação

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