Formigas indicam caminhos para a recuperação da Amazônia, aponta estudo da Ufac

Pesquisa publicada em revista científica internacional mostra que sistemas agroflorestais podem ajudar a restaurar a biodiversidade em áreas desmatadas, embora o processo dependa do tempo de regeneração da vegetação.

Quase invisíveis no cotidiano, as formigas desempenham um papel central no funcionamento dos ecossistemas amazônicos. Sensíveis às mudanças ambientais e presentes em praticamente todos os habitats da floresta, esses insetos vêm sendo utilizados por cientistas como indicadores da saúde ambiental. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Acre (Ufac) mostra que elas também podem revelar o ritmo de recuperação da biodiversidade em áreas desmatadas da Amazônia.

O trabalho foi publicado na terça-feira (10), na revista científica internacional Biodiversity and Conservation e analisou como diferentes formas de uso da terra influenciam a diversidade de formigas na região. O artigo, intitulado Successional agroforestry systems as land use that promote the restoration and conservation of ant assemblages in the Amazon, aponta que sistemas agroflorestais podem contribuir para a restauração ecológica em áreas anteriormente degradadas.

As formigas são consideradas excelentes bioindicadoras porque respondem rapidamente às alterações no ambiente. Além de desempenharem funções ecológicas relevantes — como dispersão de sementes, ciclagem de nutrientes e controle de outros organismos — muitas espécies ocupam nichos específicos, vivendo no solo, no subsolo ou nas árvores. Qualquer mudança na estrutura do ambiente tende a refletir diretamente na composição dessas comunidades.

O estudo foi desenvolvido pelo Laboratório de Ecologia de Formigas da Ufac, coordenado pelo professor doutor Fernando Augusto Schmidt. A equipe reúne estudantes da graduação em Ciências Biológicas e Engenharia Florestal, além de pesquisadores de pós-graduação, que investigam como diferentes usos da terra afetam as chamadas assembleias de formigas, conjunto de espécies que coexistem em um mesmo ambiente.

As coletas de formigas foram realizadas em diferentes tipos de uso da terra nos municípios de Brasiléia e Epitaciolândia, no Acre, região do sudoeste da Amazônia brasileira.

Para avaliar esses impactos, os pesquisadores compararam cinco tipos de ambientes. Entre eles estavam áreas de floresta preservada, sistemas agroflorestais antigos, sistemas agroflorestais jovens, pastagens e áreas de agricultura itinerante, conhecidas na região como roçados. Em cada local, foram analisadas a quantidade de espécies presentes e a composição das comunidades de formigas.

As coletas de formigas foram realizadas nos municípios de Brasiléia e Epitaciolândia, no Acre, região do sudoeste da Amazônia brasileira.

Os resultados confirmaram que as áreas de floresta intacta ainda concentram a maior diversidade de espécies. A complexidade estrutural do ambiente, com maior disponibilidade de sombra, umidade, abrigo e alimento, cria condições favoráveis para uma grande variedade de organismos.

Já os sistemas agroflorestais mais antigos apresentaram níveis intermediários de diversidade, aproximando-se gradualmente das condições observadas na floresta. Segundo os pesquisadores, isso indica que esses sistemas podem funcionar como ferramentas de recuperação ecológica em paisagens já modificadas pela atividade humana.

A situação é diferente nos sistemas agroflorestais recém-implantados. Nesses ambientes, a diversidade de formigas ainda se assemelha à encontrada em pastagens ou roçados. A explicação está no estágio inicial da vegetação, que ainda não oferece a complexidade ambiental necessária para sustentar espécies típicas da floresta.

Os resultados reforçam a importância dos sistemas agroflorestais como alternativa de uso da terra na Amazônia. Ao combinar diferentes espécies de plantas — como árvores, frutíferas e culturas agrícolas — esse modelo produtivo tende, com o passar do tempo, a reconstruir parte da estrutura ecológica da floresta.

A primeira autora do artigo é a pesquisadora acreana Dhâmyla Bruna de Souza Dutra, mestre em Ciência, Inovação e Tecnologia para a Amazônia pela Ufac. O estudo reúne ainda integrantes do Laboratório de Ecologia de Formigas da universidade e colaboradores de outras instituições brasileiras.

Além de contribuir para o debate científico sobre restauração ecológica, a pesquisa também evidencia o papel estratégico da ciência produzida na própria Amazônia. Estudos conduzidos por pesquisadores que vivem e trabalham na região permitem compreender com maior precisão as dinâmicas da floresta e desenvolver soluções adaptadas à realidade local.

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