Especial 8 de Março: Mulheres, cuidado e a violência que estrutura a sociedade

“Não lamentava por certo ser mulher; tirava, ao contrário, grandes satisfações disso. Minha educação convencera-me da inferioridade intelectual de meu sexo, (…) os homens tratava-me sem condescendência e até com particular gentileza, pois não viam em mim uma rival e ai percebi que mulheres eram classificadas de acordo com as mesmas regras que os homens, mas não lhes disputavam os lugares, só ocupavam suas vagas.” (Simone de Beauvoir; Memórias de uma moça bem-comportada, p. 301).

Gostaria que pensassem uma situação comigo.

Maria, 35 anos, negra, moradora da baixada da 6 de agosto. Maria queria ser professora como a sua tia, mas quando saiu do ensino médio, com 18 anos, engravidou do seu namorado João e, desde então, se casaram e eles tiveram mais dois filhos.

João não deixa Maria trabalhar, porque fala que Maria tem que ficar em casa cuidando dos filhos para que ele trabalhe. No entanto, sempre quando brigam, João joga na cara de Maria que ela não faz nada além de cuidar dos filhos e da casa, que ele poderia viver muito bem sem Maria, mas que ela não viveria sem ele. Que, na verdade, ninguém aguentaria viver com ela.

Isso é uma violência e ela tem diversos motivos. O primeiro é o sistema que engloba essa violência, o patriarcado.

Patriarcado é o sistema social que se fundamenta na ideia de superioridade do masculino e inferioridade do feminino e em uma relação de dominação e submissão das mulheres. Esse sistema se alia e se baseia em desigualdades, dominações e discriminações.

O Patriarcado se institui na forte divisão sexual do trabalho, onde às mulheres é requerido o trabalho invisível e privado – o cuidado das crianças, idosos, da casa e de qualquer um que necessita ser cuidado. Aos homens é entregue o trabalho público, a gestão pública, a vida em sociedade.

A mentalidade do patriarcado sustenta as violências que homens praticam contra mulheres.

A cientista social e psicanalista brasileira Fabiana Sanches Grecco, em seus estudos, apresenta os conceitos de Divisão Sexual do Trabalho e a Ambivalência da Economia Feminista e a importância de ambos para a manutenção da estrutura do patriarcado e do sistema opressor contra as mulheres.

A Divisão Sexual do Trabalho é uma forma de divisão social que destina prioritariamente os homens à esfera produtiva e pública e as mulheres à esfera reprodutiva e privada.

É importante falar que essa divisão não é natural. Ela é histórica e socialmente construída e sustenta a opressão de gênero.

O cuidado é colocado como um trabalho “inerente” das mulheres e que, por isso, não tem o porquê ser reconhecido, valorizado ou socialmente compartilhado, ainda mais porque este é um trabalho que não gera valor de troca no mercado.

Partindo da ideia que falei, de que o Patriarcado se sustenta na dominação do masculino em cima do feminino, o Feminismo se apresenta como um movimento necessário e urgente na nossa sociedade.

O Feminismo é um movimento cultural e político que questiona a estrutura patriarcal.

O feminismo coloca o projeto de construção de relações de poder entre mulheres e homens de maneira simétrica, buscando romper com o modelo opressor-oprimido.

O Feminismo trabalha com a adoção de uma perspectiva de gênero em todos os âmbitos, mostrando que todas as relações sociais são permeadas por esta dimensão.

Mas aqui, mesmo como uma mulher branca, é necessário fazer um triste recorte.

Não tem como entender totalmente as opressões vividas por mulheres pensando apenas na perspectiva de gênero. É necessário olhar para como gênero e raça se entrelaçam.

O perfil das mulheres vítimas de feminicídio, das mulheres que estão em atendimento às delegacias das mulher e nas circunstâncias dos crimes, o retrato é explícito.

De acordo com o Retrato dos Feminicídios no Brasil, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 62,6% das vítimas de feminicídio são mulheres negras; 36,8% são mulheres brancas; 0,3% são mulheres indígenas e 0,3% são mulheres amarelas.

A sobrerrepresentação de mulheres negras evidencia que o feminicídio e as violências de gênero não são compreendidas apenas como um fenômeno isolado. Ele se inscreve na interseção entre desigualdades de gênero e desigualdades raciais.

O que me leva a outra intersecção. Classe. Que também atravessa aqui gênero e raça.

Quem consegue me dizer que realmente apenas 0,3% de mulheres indígenas e amarelas sofrem violência e têm suas vidas ceifadas pelo feminicídio?

A dificuldade do acesso à informação muitas das vezes coíbe e impede as mulheres de buscarem ajuda especializada.

O mesmo documento que trouxe aqui apontando dados afirma que cidades de médio porte têm dificuldades de lidar com as questões relativas à violência de gênero e cidades pequenas têm ainda mais dificuldade.

Entre se conhecer, entre não ter o treinamento especializado. Entre a mentalidade que vê a violência contra a mulher como algo de dentro de casa, a falta de conhecimento e acesso traz uma outra dimensão.

Nesse ponto, eu fico pensando em mulheres que estão nas reservas, em aldeias, em colocações, longe dos centros e polos.

Muitas das vezes a mentalidade que impera é que a mulher “merece” a violência que ela mesma sofre.

Em muitas cidades, nesse contexto, buscar ajuda pode significar percorrer longas distâncias, repetir a própria história diversas vezes e lidar com respostas contraditórias ou insuficientes.

Fora que o nosso estado tem, em sua maioria, municípios de médio e pequeno porte.

Sabemos que mais de 70% dos municípios com menos de 100 mil habitantes não possuem nenhum serviço especializado para atender mulheres em situação de violência e não têm a sua equipe treinada para lidar com essa demanda.

Nós, como movimento social, sabemos a falta que faz esse treinamento eficiente para os órgãos públicos, não apenas para os órgãos especializados.

E sabemos também como essa falta incorre na revitimização da mulher, como vimos há pouquíssimo tempo acontecer no episódio do Vasco Acre.

Compreender a dimensão da violência de gênero não deveria ser algo para determinadas instituições, mas sim uma competência básica para toda a esfera pública.

Afinal, o Estado tem o dever de proteger a integridade das mulheres e punir seus agressores.

Sabemos também que estar em grandes centros nem sempre pode significar a total proteção e a ideal atuação da rede de enfrentamento à violência contra a mulher.

É de ciência que faltam serviços especializados, há sobreposição de funções, onde as profissionais acumulam atribuições e as articulações entre saúde, assistência social e sistema de justiça são nulas ou frágeis.

Com isso, a política de enfrentamento à violência contra as mulheres ainda se organiza, de forma predominante, ao redor das Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs).

Estas se consolidam como o principal equipamento estatal voltado à responsabilização dos crimes relacionados à violência de gênero e ao feminicídio.

No entanto, com relação aos equipamentos destinados à proteção da vida da mulher, não se consegue fazer nada sem o devido repasse financeiro.

Neste momento gostaria de falar do escárnio do orçamento de R$3,00 da prefeitura de Rio Branco para o programa “Mulher com Dignidade”.

Do valor de R$2,4 bilhões de reais do orçamento anual do município, para essa gestão nós representamos 0,00000012% de importância.

O valor de três reais. Sendo 1 real para cada uma das três ações do programa que são: Promoção dos Direitos e Proteção da Mulher; Atendimento Integral às Mulheres em Situação de Violência; e Autonomia de Mulheres Negras.

E os dados de violência contra a mulher no Brasil são devastadores.

Em uma análise de 16 Unidades da Federação, no contexto de 1.127 feminicídios registrados, 148 mulheres (13,1%) foram mortas mesmo tendo uma Medida Protetiva de Urgência (MPU) vigente.

No Acre os dados são ainda mais incômodos.

Somos o primeiro lugar de feminicídios do país, acima da média nacional, registrando 14 feminicídios no ano de 2025.

Entre os três estados que se destacam pelas taxas elevadas de feminicídio no último ano, o Acre aparece em primeiro lugar com 3,2 feminicídios por grupo de 100 mil mulheres.

Esses dados reforçam a necessidade de avançar no fortalecimento da governança da rede de enfrentamento, com foco na capilaridade e prevenção real.

Afinal, desde a criação da lei do Feminicídio, a Lei 13.104/2015, há evidências de aprimoramento progressivo na capacidade institucional de identificar e classificar corretamente os casos de feminicídio que envolvem violência doméstica e familiar.

Isso é fruto de investimento e capacitação da equipe e de todo o entorno.

O enfrentamento à violência contra as mulheres não é responsabilidade de um único equipamento ou ente federativo.

A rede de prevenção, atenção e garantia de direitos envolve, além da segurança pública, a assistência social, a saúde e o sistema de justiça.

Também demanda articulação com políticas de habitação, educação, trabalho e cultura.

Afinal, mulheres são mortas por homens em razão de desigualdades estruturais que atravessam as relações afetivas, familiares e domésticas.

Isto nos indica que estamos diante de uma epidemia de violência vinculada a padrões de masculinidade que associam poder, controle e posse à identidade masculina.

Por fim, gostaria que todos voltassem ao exemplo que citei no início desta fala.

Maria, a mulher de 35 anos que trabalha em casa para que o seu marido possa ter o sucesso que ele diz que tem sozinho.

Quanto desse sucesso ele teria se precisasse lavar roupa?

Cozinhar todos os dias e pensar no que fazer em todas as refeições?

Cuidar dos filhos e garantir que eles tenham estudo, comida, sono, lazer, boas relações?

Quanto desse sucesso ele teria se precisasse pensar em todos os dias ter que acordar cedo para colocar o lixo fora?

A economia feminina defende que o trabalho doméstico e de cuidado não remunerado é a base que sustenta toda a economia “produtiva”.

É por isso que as antigas sociedades eram matrilineares e tiveram tanto sucesso.

Elas reconheceram que o trabalho que era entregue às mulheres era um trabalho de gigante valor e que, sem esse trabalho, toda a sociedade perece.

Gostaria de terminar esta fala com uma citação da autora Fabiana Sanches Grecco no artigo Uma crítica à Economia Solidária e Feminista:

“É preciso que as mulheres rompam com as relações opressoras, que podem ser de classe, de gênero ou de raça, o que exige um esforço coletivo de conscientização e organização política, pois a opressão não se desfaz individualmente, mas sim por meio da ação coletiva e da transformação das estruturas sociais que a sustentam.”

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