Eric Rodrigues diz que denúncia é “frágil” e anuncia recurso para tentar revogar prisões; Secretaria da Mulher afirma que falas desqualificam trabalho da Deam e reforçam culpabilização das vítimas.
O treinador da Associação Desportiva Vasco da Gama (Vasco-AC), Eric Rodrigues, manifestou-se nesta terça-feira (17) sobre a investigação que apura denúncias de estupro contra duas mulheres dentro do alojamento do clube, em Rio Branco, no Acre.
Quatro jogadores são suspeitos e estão presos por decisão judicial.
O caso tramita sob sigilo e é conduzido pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), vinculada à Polícia Civil do Acre (PCAC).
Os suspeitos são Erick Luiz Serpa Santos Oliveira, Matheus Silva, Brian Peixoto Henrique Iliziario e Alex Pires Júnior. Erick Serpa foi preso em flagrante no sábado (14) e teve a prisão convertida em preventiva no domingo (15). Os demais foram presos na segunda-feira (16).
Segundo informações preliminares da investigação, as vítimas teriam ido ao alojamento para um encontro consensual com um dos atletas. No entanto, relataram que, ao chegarem ao local, foram conduzidas de forma coercitiva a um dormitório onde outros jogadores aguardavam, o que teria resultado nos abusos.

“Denúncia muito frágil”, diz treinador
Ao comentar o caso, Eric Rodrigues afirmou que a defesa vai apresentar recursos judiciais e que os atletas pretendem se apresentar formalmente à Justiça. “Agora é providenciar os recursos. Os atletas já estão se organizando para se apresentarem à justiça”, disse.
O treinador também questionou a condução do caso e as provas reunidas até o momento.
“É, a gente teve acesso ao inquérito que está sendo feito pela delegada. É, a verdade, para as pessoas saberem, as vítimas não apresentaram denúncia contra os atletas. Quem apresenta a denúncia contra os atletas são duas inspetoras de polícia que ouviram as vítimas; uma, inclusive, é amiga de uma delas. Elas, reiteradas vezes, chamaram as vítimas para irem à delegacia, mas as vítimas não compareceram”, pontuou.
Na sequência, Rodrigues afirmou que, na avaliação dele, os próprios depoimentos das mulheres enfraqueceriam a acusação e reiterou a tese de consentimento.
“É, pelo próprio depoimento das vítimas, o sexo delas foi consensual. Sinceramente, a denúncia é muito frágil. O Lequinho, por exemplo, o nome dele nem aparece em nada e está com mandado de prisão expedido. O Manga, nenhuma das duas vítimas afirma que teve relações com ele e também está com mandado de prisão expedido”, acrescentou.
O treinador informou ainda que o advogado do clube deve ingressar com recurso para tentar revogar a prisão preventiva, inclusive com o objetivo de permitir que os atletas participem da próxima partida.
“Bom, a gente vai tentar entrar com recurso, apresentar os atletas, de repente na quarta-feira pela manhã, e já entrar com recurso para tentar relaxar a prisão deles, até para que possam participar da partida”, declarou.
Semulher reage e aponta conteúdo misógino
As declarações do treinador motivaram reação do governo do Acre. Em nota pública, a Secretaria de Estado da Mulher (Semulher) manifestou repúdio às falas e afirmou que houve desqualificação do trabalho técnico e legal da Deam.
Segundo o órgão, “colocar em dúvida a seriedade de profissionais da segurança pública é um desserviço à Justiça, enfraquece a confiança nas instituições e contribui para a perpetuação da impunidade em crimes de violência contra a mulher”.
A secretaria também criticou o que classificou como conteúdo misógino e tentativa de culpabilização das vítimas.
“Causa especial preocupação, ainda, o conteúdo misógino e discriminatório presente nas declarações, ao atribuir às mulheres a responsabilidade por condutas praticadas por atletas adultos”.
O texto ressalta que mulheres não são responsáveis por violações de regras institucionais nem por crimes praticados por terceiros.
“Mulheres não são culpadas por violações de regras institucionais nem por crimes cometidos por terceiros. Cada pessoa responde por seus próprios atos, e qualquer tentativa de transferir essa responsabilidade às mulheres configura culpabilização da vítima”.
A nota enfatiza que consentimento não é permanente nem automático e que a ausência de consentimento em qualquer momento caracteriza crime.
“É igualmente inaceitável a tentativa de minimizar a gravidade do crime de estupro. Consentimento não é permanente, nem automático. Ainda que tenha havido encontro ou intenção inicial de relação sexual, a ausência de consentimento em qualquer momento torna o ato criminoso. Sexo sem consentimento é estupro. Além disso, os relatos de tapas e puxões de cabelo mencionados nas falas caracterizam violência física, somando-se à violência sexual, o que eleva ainda mais a gravidade dos fatos”.
O governo informou ainda que a pasta acompanha o caso e presta apoio às vítimas.
“A Secretaria de Estado da Mulher reforça que vem fazendo o acompanhamento das vítimas do caso em questão e reafirma que nenhuma forma de violência contra a mulher é tolerável, seja física, sexual, psicológica ou institucional. Discursos que naturalizam, relativizam ou justificam esse tipo de violência reforçam estruturas de desigualdade, silenciam vítimas, incentivam crimes contras às mulheres e terminam por afastá-las da busca por justiça”, conclui a nota.
O posicionamento é assinado pela secretária de Estado da Mulher, Márdhia El Shawwa.
Entenda o caso
As duas mulheres procuraram a delegacia ainda na manhã de sábado, mas o registro formal da ocorrência ocorreu depois que o delegado de plantão as encontrou na Maternidade Bárbara Heliodora, onde recebiam atendimento médico.
De acordo com a polícia, embora tenham ido ao alojamento com a intenção inicial de manter relações consensuais, os relatos indicam que teriam sido submetidas a abusos. As vítimas teriam demonstrado receio de retaliação e decidiram formalizar a denúncia após orientação de uma assistente social.
A Polícia Civil informou que, por se tratar de crime de ação penal pública incondicionada, a investigação não depende de representação formal das vítimas para prosseguir.
O Vasco-AC declarou anteriormente que não compactua com qualquer forma de violência e que adotou medidas administrativas internas, ressaltando que a apuração oficial deve respeitar o devido processo legal.
Canais de denúncia
A PM do Acre disponibiliza os seguintes números para denunciar casos de violência contra a mulher:
- (68) 99609-3901
- (68) 99611-3224
- (68) 99610-4372
- (68) 99614-2935
Veja outras formas de denunciar:
Polícia Militar – 190: quando a criança está correndo risco imediato;
Samu – 192: para pedidos de socorro urgentes;
Delegacias especializadas no atendimento de crianças ou de mulheres;
Qualquer delegacia de polícia;
Secretaria de Estado da Mulher (Semulher): recebe denúncias de violações de direitos da mulher no Acre. Telefone: (68) 99930-0420. Endereço: Travessa João XXIII, 1137, Village Wilde Maciel.
Disque 100: recebe denúncias de violações de direitos humanos. A denúncia é anônima e pode ser feita por qualquer pessoa;
Profissionais de saúde: médicos, enfermeiros, psicólogos, entre outros, precisam fazer notificação compulsória em casos de suspeita de violência. Essa notificação é encaminhada aos conselhos tutelares e polícia;
WhatsApp do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: (61) 99656- 5008;
Ministério Público;
Videochamada em Língua Brasileira de Sinais (Libras).
Nota do governo do Acre na íntegra
O governo do Acre, por meio da Secretaria de Estado da Mulher (Semulher), vem a público manifestar repúdio às declarações proferidas pelo treinador de futebol do clube Vasco da Gama-AC, em reportagens exibidas em programas de TV locais.
Durante sua fala, ao se posicionar sobre denúncias de estupro envolvendo atletas sob sua responsabilidade, o treinador desqualifica o trabalho técnico, ético e legal da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), ao insinuar suposta parcialidade na condução das investigações.
Colocar em dúvida a seriedade de profissionais da segurança pública é um desserviço à Justiça, enfraquece a confiança nas instituições e contribui para a perpetuação da impunidade em crimes de violência contra a mulher.
Causa especial preocupação, ainda, o conteúdo misógino e discriminatório presente nas declarações, ao atribuir às mulheres a responsabilidade por condutas praticadas por atletas adultos. Mulheres não são culpadas por violações de regras institucionais nem por crimes cometidos por terceiros. Cada pessoa responde por seus próprios atos, e qualquer tentativa de transferir essa responsabilidade às mulheres configura culpabilização da vítima.
É igualmente inaceitável a tentativa de minimizar a gravidade do crime de estupro. Consentimento não é permanente, nem automático. Ainda que tenha havido encontro ou intenção inicial de relação sexual, a ausência de consentimento em qualquer momento torna o ato criminoso. Sexo sem consentimento é estupro. Além disso, os relatos de tapas e puxões de cabelo mencionados nas falas caracterizam violência física, somando-se à violência sexual, o que eleva ainda mais a gravidade dos fatos.
A Secretaria de Estado da Mulher reforça que vem fazendo o acompanhamento das vítimas do caso em questão e reafirma que nenhuma forma de violência contra a mulher é tolerável, seja física, sexual, psicológica ou institucional. Discursos que naturalizam, relativizam ou justificam esse tipo de violência reforçam estruturas de desigualdade, silenciam vítimas, incentivam crimes contras às mulheres e terminam por afastá-las da busca por justiça.
Por fim, o governo do Estado do Acre reitera seu compromisso com a proteção das mulheres, o respeito às vítimas, a valorização do trabalho das instituições públicas e a promoção de uma cultura de responsabilização, igualdade e respeito.
Márdhia El Shawwa
Secretária de Estado da Mulher
Nota do Clube
A Associação Desportiva Vasco da Gama (AC) tomou conhecimento de informações divulgadas publicamente indicando o envolvimento de atletas vinculados ao clube em ocorrência sob apuração pelas autoridades competentes.
Diante da seriedade do assunto, a instituição informa que adotou medidas administrativas internas para apuração dos fatos e permanece à disposição para colaborar integralmente com as autoridades.
O clube reafirma seu compromisso com a integridade, o respeito e a observância das normas, ressaltando que qualquer conclusão sobre responsabilidade depende da apuração oficial, com garantia do devido processo legal.
Ao mesmo tempo, a Associação esclarece que não compactua com qualquer forma de violência e adotará as medidas cabíveis, no âmbito interno, conforme o andamento das investigações.
Por respeito às pessoas envolvidas e ao curso das apurações, a Associação não fará comentários adicionais neste momento.
Atualizações serão divulgadas exclusivamente por canais oficiais.







