Sob chuva, mulheres ocupam o Tonicão em ato de enfrentamento à violência de gênero no futebol acreano

Ato realizado neste sábado, em Rio Branco, cobrou responsabilização do Vasco-AC e criticou contratação do goleiro Bruno.

Nem a chuva que insistiu em cair sobre Rio Branco na tarde deste sábado (28) calou as vozes das mulheres que se reuniram em frente ao Estádio Antônio Aquino Lopes (Tonicão) para denunciar a violência de gênero no futebol e cobrar responsabilização institucional.

Convocado pelo Levante Feminista contra o Feminicídio, Lesbocídio e Transfeminicídio Acre, o ato teve como foco a investigação de um caso de estupro coletivo envolvendo atletas da Associação Desportiva Vasco da Gama (Vasco-AC), e a contratação do goleiro Bruno Fernandes, condenado pelo assassinato de Eliza Samudio.

A mobilização começou às 15h e foi marcada por palavras de ordem contra a impunidade. Com cartazes e gritos como “Feminicida não merece torcida!”, as manifestantes pediram responsabilização no caso investigado pela polícia e criticaram a permanência de figuras públicas condenadas por crimes graves em espaços de ampla visibilidade social.

Mesmo sob chuva, mulheres se concentram em frente ao Tonicão para denunciar a violência de gênero no futebol acreano. Foto: Carina Castelo Branco/Proa

A presidente do Instituto Mulheres da Amazônia (IMA) no Acre, Concita Maia, afirmou que o protesto é um recado direto à sociedade e às instituições.

“Então, nós estamos aqui nessa manifestação do Levante Feminista Acre contra o feminicídio, o lesbocídio, o transfeminicídio e todas as formas de violência contra as mulheres, contra as meninas, em relação não somente ao feminicídio, mas aos estupros. E estamos aqui para repudiar a atitude do Clube Vasco da Gama Acre, por essa atitude, inclusive através do seu técnico, com uma narrativa que estimula os jovens a serem reprodutores desse tipo de violência.”

Ela destacou o papel simbólico do futebol na formação de referências.

“Nós sabemos que o futebol move, mobiliza a juventude. E são verdadeiros líderes, são ídolos que a juventude, principalmente masculina, se vê nesses jogadores. Então, os estupradores do Vasco da Gama Acre, assim como a contratação do feminicida, do jogador Bruno, isso vai fortalecer ainda mais a violência que no nosso estado é inadmissível nós termos nossos corpos mortos, nossos corpos estuprados todos os dias.”

Ao final, fez um apelo. “Nós não queremos que os nossos jovens sejam os futuros estupradores, os futuros feminicidas do nosso estado.”

Manifestantes erguem cartazes durante ato em Rio Branco. Foto: Carina Castelo Branco/Proa

A presidente da Comissão de Combate à Violência Doméstica e Contra Mulheres da OAB/AC, Socorro Rodrigues, também participou do ato e ressaltou a responsabilidade social de atletas e dirigentes.

“Os jogadores são grandes influenciadores, as novas gerações copiam. Então, o que é que nós estamos aprontando para as novas gerações? Estímula a violência, essa violência que nós todos combatemos, que é a violência doméstica e contra a mulher.”

Sobre a contratação do goleiro Bruno ela questionou o impacto simbólico da decisão. “Quantos Brunos surgirão ainda? Porque as pessoas ficam copiando.”

Socorro também avaliou como relevante a retirada de patrocínios por empresas que decidiram não manter apoio ao clube. “Eu estou vendo um avanço. A responsabilidade das empresas patrocinadoras em retirarem o patrocínio, em não concordar com a atitude do clube. Eu achei isso muito válido.”

O protesto foi impulsionado pela investigação conduzida pela Polícia Civil do Acre sobre denúncias de um estupro coletivo envolvendo quatro jogadores do Vasco-AC contra duas mulheres. O caso teria ocorrido na noite de 13 de fevereiro, no alojamento oficial do clube, em Rio Branco.

As vítimas procuraram atendimento médico e registraram denúncia na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam). Um dos atletas foi preso em flagrante e teve prisão preventiva decretada. Outros três se apresentaram à polícia e tiveram prisão temporária determinada pela Justiça. Todos negam participação no crime.

A mobilização também questiona a contratação do goleiro Bruno Fernandes das Dores de Souza, condenado pelo homicídio triplamente qualificado de Eliza Samudio. Para o movimento, a contratação de um atleta condenado por matar uma mulher, somada às denúncias que recaem sobre integrantes do elenco, enfraquece o compromisso público com o enfrentamento desse tipo de crime.

Jade Lima, representante do Levante Feminista no Acre. Foto: Carina Castelo Branco/Proa

Jade Lima, representante do Levante Feminista no Acre, contextualizou o protesto com dados sobre a violência no estado.

“O nosso estado, ele é um estado que mata mulheres. Infelizmente, ano passado, nós fomos o estado que mais matou mulheres, tendo praticamente 1,5 mulheres morreram a cada 100 mil habitantes. Isso é muito maior do que a média nacional. A gente teve 14 feminicídios”, destaca.

Ela classificou a contratação de Bruno como uma afronta às vítimas. “A contratação de uma pessoa que é abertamente condenada por um assassinato e que se coloca como um exemplo para meninos mais novos, para mulheres, para pessoas, para o nosso estado, que é extremamente violento contra mulheres, é um escárnio para a gente.”

Jade também criticou declarações atribuídas ao técnico do clube, Eric Rodrigues, que teriam colocado sob suspeita o trabalho Deam, ao insinuar suposta parcialidade na condução das investigações, e responsabilizado as vítimas.

“Então a gente tem mais uma vez a revitimização, a gente tem mais uma vez o estupro como punição e como corretivo violento para a mulher.”

Acre tem maior taxa de feminicídios do país em 2025. Foto: Carina Castelo Branco/Proa

Acre tem maior taxa de feminicídios do país em 2025

Os dados mais recentes reforçam o cenário apontado pelas manifestantes. Em 2025, o Acre registrou 14 feminicídios e passou a liderar o país em taxa proporcional de assassinatos de mulheres, com 1,58 caso por 100 mil habitantes, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

No ranking por números absolutos, o Acre aparece à frente de Amapá, com 9 casos, e Roraima, com 7. Em comparação com 2024, quando foram contabilizados oito feminicídios, houve aumento de 75% nas ocorrências.

O número de 14 mortes repete os picos da série histórica observados em 2016 e 2018. Desde 2015, o estado soma 122 feminicídios, tendo ultrapassado a marca de 100 vítimas em 2023.

Em todo o país, 2025 foi o ano com mais feminicídios desde a criação da lei que tipificou o crime. Foram 1.470 mulheres assassinadas por violência doméstica ou discriminação de gênero, média próxima de quatro vítimas por dia. Ao longo da última década, o Brasil acumulou 13.448 feminicídios.

Canais de denúncia

A PM do Acre disponibiliza os seguintes números para denunciar casos de violência contra a mulher:

  • (68) 99609-3901
  • (68) 99611-3224
  • (68) 99610-4372
  • (68) 99614-2935

Veja outras formas de denunciar:

Disque 180: Central de Atendimento à Mulher

Polícia Militar – 190: para quando a violência está acontecendo ou há alguma lei sendo violada;

Samu – 192: para pedidos de socorro urgentes;

Delegacias especializadas no atendimento de crianças ou de mulheres;

Qualquer delegacia de polícia;

Delegacia especializada de Atendimento à Mulher (Deam) – Rio Branco – Telefone: (68) 3221-4799 / 99988-2610 Delegada Elenice / 99979 0517 (Delegada Kelcinaira).

Secretaria de Estado da Mulher (Semulher): recebe denúncias de violações de direitos da mulher no Acre. Telefone: (68) 99930-0420. Endereço: Travessa João XXIII, 1137, Village Wilde Maciel.

Disque 100: recebe denúncias de violações de direitos humanos. A denúncia é anônima e pode ser feita por qualquer pessoa;

Profissionais de saúde: médicos, enfermeiros, psicólogos, entre outros, precisam fazer notificação compulsória em casos de suspeita de violência. Essa notificação é encaminhada aos conselhos tutelares e polícia;

WhatsApp do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: (61) 99656- 5008;

Ministério Público: Centro de Atendimento à Vítima (CAV) – Telefone: (68) 3212-2062 / 9993 04701

Videochamada em Língua Brasileira de Sinais (Libras).

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