Capital acreana ocupa as últimas posições no Ranking do Saneamento 2025, com metade da população sem acesso à água tratada e apenas 20% atendida por rede de esgoto.
A situação do saneamento básico no Acre, especialmente em Rio Branco, revela um quadro alarmante de atraso estrutural. Segundo um estudo do Instituto Trata Brasil com a GO Associados, divulgado nessa quarta-feira (20), a capital acreana ocupa uma das últimas posições entre as capitais brasileiras, refletindo deficiências graves no abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto, além de baixos níveis de investimento.
De acordo com o documento, enquanto a média nacional de atendimento total de água chega a 94,1%, Rio Branco registra apenas 53,1% da população atendida. Isso significa que quase metade dos moradores ainda depende de soluções alternativas, muitas vezes precárias e inseguras, para ter acesso à água potável.
O cenário é ainda mais grave quando se trata de esgotamento sanitário. Apenas 19,9% da população tem acesso à rede de coleta de esgoto. No indicador de coleta urbana, Rio Branco também aparece entre os piores, com apenas 21,6% de cobertura.
O tratamento do esgoto coletado também está muito distante das metas do Novo Marco Legal do Saneamento. Apenas 19,9% do esgoto é tratado na capital acreana. Para efeito de comparação, a média nacional é de 51,8%.

A precariedade dos serviços se reflete diretamente no volume de recursos destinados ao setor. Entre 2019 e 2023, Rio Branco investiu uma média de apenas R$ 8,09 por habitante ao ano, o menor valor entre todas as capitais do país. O montante está muito abaixo do necessário para cumprir a meta de universalização do saneamento até 2033, estimada em R$ 223,82 por habitante/ano.
As 20 melhores cidades investiram, em média, R$ 166,52 por habitante em serviços de saneamento. Já as 20 piores investiram apenas R$ 55,46 — bem abaixo, inclusive, da média de investimento nacional, que foi de R$ 82 por habitante em 2021.
“Esses bons municípios investem continuamente e fazem muitas obras. Com isso, os indicadores de acesso a água e esgoto acompanham o crescimento da população ou mesmo até avançam em uma velocidade maior, fazendo com que os indicadores melhorem a cada ano”, destaca Luana Pretto, presidente-executiva do Instituto Trata Brasil.

O déficit estrutural em saneamento básico tem impacto direto na saúde pública e na qualidade de vida da população acreana. Segundo o estudo, a falta de água tratada e a baixa cobertura de esgoto favorecem a propagação de doenças de veiculação hídrica, aumentam a vulnerabilidade social e limitam o desenvolvimento econômico da região.
Veja abaixo as melhores e as piores cidades.
As 20 melhores cidades
- São José do Rio Preto (SP)
- Santos (SP)
- Uberlândia (MG)
- Niterói (RJ)
- Limeira (SP)
- Piracicaba (SP)
- São Paulo (SP)
- São José dos Pinhais (PR)
- Franca (SP)
- Cascavel (PR)
- Ponta Grossa (PR)
- Sorocaba (SP)
- Suzano (SP)
- Maringá (PR)
- Curitiba (PR)
- Palmas (TO)
- Campina Grande (PB)
- Vitória da Conquista (BA)
- Londrina (PR)
- Brasília (DF)

As 20 piores cidades
- Macapá (AP)
- Marabá (PA)
- Porto Velho (RO)
- Santarém (PA)
- São Gonçalo (RJ)
- Belém (PA)
- Rio Branco (AC)
- Maceió (AL)
- Várzea Grande (MT)
- Ananindeua (PA)
- Duque de Caxias (RJ)
- São João de Meriti (RJ)
- Gravataí (RS)
- Jaboatão dos Guararapes (PE)
- São Luís (MA)
- Belford Roxo (RJ)
- Pelotas (RS)
- Manaus (AM)
- Cariacica (ES)
- Caucaia (CE)

Desigualdade regional
A desigualdade demonstrada nos indicadores e no ranking é, também, regional, já que municípios das regiões Norte e Nordeste aparecem com muito mais frequência entre os de pior desempenho.
Dos 20 melhores municípios, 8 são do estado de São Paulo e 6 do Paraná, estados que, historicamente, têm índices elevados de saneamento. Inclusive, um município de SP obteve nota máxima em todas as dimensões analisadas: São José do Rio Preto. A cidade paulista apresentou os indicadores dos serviços básicos alinhados com as metas previstas pelo Marco Legal do Saneamento.
Já entre os 20 piores municípios do ranking, 4 são do estado do Pará, 4 estão no Rio de Janeiro e 2 são do Rio Grande do Sul. Do restante, a maioria está no Norte e no Nordeste do país.
Luana Pretto destaca que estas diferenças regionais são históricas e são alimentadas por uma espécie de ciclo vicioso, já que as melhores cidades continuam investindo mais mesmo já tendo bons indicadores, enquanto que as piores seguem investindo menos mesmo com baixa cobertura de saneamento.
“Limeira, a quinta colocada no ranking, investiu nos últimos cinco anos uma média de R$ 218 reais por ano por habitante em saneamento. Já Belém [a 6ª pior] é um caso clássico de falta de investimento. Foram R$ 5 por habitante por ano. Belém tem apenas 33% da população com acesso a coleta de esgoto. Como investir R$ 5 vai mudar a realidade? Não tem como”, diz Luana.
Luana ainda diz que a existência de um plano estruturado de saneamento por parte da companhia estadual ou municipal, seguida por investimentos constantes, também estão por trás das melhores cidades. “Já nos piores casos, são companhias que não investiram em saneamento e que não tiveram prioridade dos governos”, diz.
“Esses municípios de São Paulo e Paraná, por exemplo, tiveram e têm companhias estaduais que sempre investiram muito. Além de agências reguladoras fortes cobrando o cumprimento das metas e a entrega dos serviços.”
Amazônia Legal concentra os piores índices
A Amazônia Legal concentra a maior parte dessas cidades com os piores índices de saneamento do país. Estados como Acre, Amazonas, Pará, Roraima, Amapá, Maranhão, Rondônia, Mato Grosso e Tocantins enfrentam déficits profundos no atendimento à população.
De acordo com o levantamento, Amapá e Pará estão entre os estados com menor cobertura de esgoto, ambos abaixo de 20%, enquanto o Amazonas apresenta cerca de 60% da população sem acesso à água potável. No Maranhão, menos de 20% dos moradores contam com rede de esgoto, situação semelhante à observada em Rondônia e Roraima.
Em Macapá (AP), capital do Amapá, apenas 6% da população tem acesso à coleta de esgoto. Já Porto Velho (RO) apresenta menos de 10% de cobertura de esgoto e menos de 40% da população abastecida com água tratada, índices próximos aos de Rio Branco.
Sobre o estudo
O levantamento que expõe essa realidade faz parte da 17ª edição do Ranking do Saneamento, publicado pelo Instituto Trata Brasil (ITB) em parceria com a GO Associados. O estudo analisa os 100 municípios mais populosos do país com base nos dados mais recentes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), ano-base 2023, publicado pelo Ministério das Cidades, e utiliza uma metodologia própria que pondera a evolução dos indicadores.
Desde 2009, o ITB acompanha os indicadores de saneamento com o objetivo de dar visibilidade a um problema histórico. Segundo o levantamento, 16,9% da população brasileira ainda não tem acesso à água potável e 44,8% não possui coleta de esgoto. Esses déficits afetam diretamente a saúde, a produtividade, o turismo, a valorização imobiliária e o desenvolvimento socioeconômico do país.
O ranking considera três dimensões principais: Nível de Atendimento, Melhoria do Atendimento e Nível de Eficiência. Nesta edição, Campinas (SP) foi a primeira colocada, seguida por Limeira (SP) e Niterói (RJ).
Um ponto relevante do estudo é a aparente queda nos indicadores gerais de saneamento em comparação à edição anterior. No entanto, os especialistas explicam que a variação está relacionada à atualização metodológica após a publicação do Censo de 2022. Durante os anos de atraso na coleta dos dados, estimava-se um número maior de pessoas por residência.
Com a atualização do IBGE, verificou-se que a população residente não aumentou como se projetava, o que ajustou os cálculos de cobertura. Assim, os números de 2023 não indicam necessariamente uma piora nos serviços, mas sim uma medição mais precisa da realidade brasileira.
O estudo completo está disponível no site do Instituto Trata Brasil.