Políticos acreanos da extrema direita celebram ataque dos EUA à Venezuela e exaltam sequestro de Maduro

Publicações de aliados do bolsonarismo tratam ofensiva militar como “vitória ideológica”, relativizam soberania venezuelana e reproduzem discurso extremista alinhado a Donald Trump.

Políticos acreanos alinhados à extrema direita bolsonarista comemoraram neste sábado (3) o ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores.

As manifestações do senador Márcio Bittar (PL), do prefeito de Rio Branco, Tião Bocalom (PL), e do deputado federal Coronel Ulysses (União Brasil) exaltaram a ação norte-americana e associaram o episódio a uma suposta derrota da esquerda na América Latina, ignorando críticas internacionais sobre violação da soberania e do direito internacional.

Em seu perfil no Instagram, o senador Márcio Bittar publicou a mensagem “GRANDE DIA!”, celebrando a ofensiva dos EUA e se referindo a Maduro como “narcoditador”. Na publicação, Bittar associou o presidente venezuelano ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao Partido dos Trabalhadores (PT), afirmando que o sequestro representaria um golpe contra o Foro de São Paulo, organização frequentemente citada no discurso bolsonarista como símbolo de uma conspiração da esquerda latino-americana.

“Enquanto a esquerda brasileira e o PT de Lula financiavam e defendiam esse criminoso, o presidente Trump cumpriu sua promessa. Ele está combatendo de verdade, e não com discursos vazios, o narcoterrorismo que inunda o mundo com drogas e financia o projeto de poder do Foro de São Paulo”, escreveu o senador. “A queda de Maduro é uma paulada nesse esquema criminoso”, completou.

Na mesma linha, o prefeito de Rio Branco, Tião Bocalom, também utilizou as redes sociais para celebrar o episódio. “Grande dia para o povo venezuelano! Péssimo dia para a esquerda!”, escreveu.

Já o deputado federal Coronel Ulysses (União Brasil) foi além. Em diversas publicações, comemorou o que chamou de “queda da ditadura da Venezuela” e afirmou que o Brasil ainda viveria sob uma ditadura que precisaria ser derrubada.

“A ditadura da Venezuela caiu, mas não podemos esquecer que temos uma ditadura a ser derrubada no Brasil também”, escreveu o parlamentar, repetindo uma narrativa recorrente entre grupos extremistas que questionam a legitimidade das instituições democráticas brasileiras.

Ulysses também afirmou, sem apresentar evidências, que o narcotráfico supostamente comandado por Maduro financiaria a “esquerda criminosa da América Latina”, discurso que ecoa acusações feitas pelo ex-presidente norte-americano Donald Trump e por setores da extrema direita internacional.

As manifestações de celebração feitas por políticos acreanos contrastam fortemente com a reação de diversos líderes e governos ao redor do mundo, que expressaram preocupação com a escalada militar e condenaram a violação da soberania venezuelana.

Além do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que classificou o ataque como “inaceitável” e alertou para um “precedente extremamente perigoso”, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, manifestou “profunda preocupação” com os relatos de explosões em Caracas.

Petro rejeitou “qualquer ação militar unilateral” que possa agravar a tensão regional ou colocar em risco a população civil, condenou a agressão à soberania da Venezuela e defendeu o diálogo e a autodeterminação dos povos. O governo colombiano anunciou ainda o reforço da fronteira para acolher possíveis refugiados.

Aliados históricos de Caracas também se posicionaram. O governo do Irã classificou a ofensiva dos Estados Unidos como uma “violação flagrante da soberania nacional e da integridade territorial” da Venezuela e pediu que o Conselho de Segurança da ONU atue de forma imediata para interromper o que chamou de agressão ilegal.

A Rússia, por sua vez, condenou um “ato de agressão armada” dos EUA, afirmou estar profundamente preocupada e defendeu esforços diplomáticos para evitar uma nova escalada do conflito.

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, denunciou o que chamou de “criminoso ataque” e acusou os Estados Unidos de praticarem “terrorismo de Estado” contra a Venezuela e a América Latina. Em publicação nas redes sociais, afirmou que uma região historicamente definida como “zona de paz” está sendo “brutalmente atacada”.

Na contramão dessas manifestações, o presidente da Argentina, Javier Milei, comemorou publicamente o ataque norte-americano. Em publicação na rede X, escreveu: “A liberdade avança. Viva a liberdade, car****”, alinhando-se ao discurso celebratório adotado por setores da extrema direita internacional.

Países europeus e asiáticos adotaram tom cauteloso. A Alemanha afirmou acompanhar a situação com “grande preocupação” e informou que mantém contato próximo com sua embaixada em Caracas, além de ter convocado uma equipe de crise.

A Itália declarou atenção especial à segurança da comunidade italiana no país, com monitoramento constante por parte do governo.

Já o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, ordenou medidas para proteger cidadãos sul-coreanos na Venezuela e determinou que o governo se prepare para uma eventual retirada.

O que está em jogo na ofensiva norte-americana

Por trás do discurso oficial de combate ao narcotráfico e de defesa da segurança regional, a ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela envolve interesses econômicos e geopolíticos muito mais amplos.

Após meses de especulações, sanções e operações marítimas no Caribe, Washington intensificou a pressão sobre Caracas com bloqueios a navios petroleiros, apreensão de embarcações e medidas diretas contra familiares de Nicolás Maduro, culminando no ataque deste sábado (3) e na captura do presidente venezuelano e de sua esposa.

Especialistas ouvidos pela imprensa internacional apontam que o principal ativo em disputa é o petróleo. A Venezuela detém a maior reserva comprovada do planeta, com cerca de 303 bilhões de barris, aproximadamente 17% de todo o volume conhecido no mundo, segundo a Energy Information Administration (EIA), órgão oficial de estatísticas energéticas dos EUA.

O petróleo venezuelano, majoritariamente pesado, é considerado tecnicamente adequado às refinarias norte-americanas, sobretudo as localizadas na Costa do Golfo, o que explica o interesse direto de Washington.

De acordo com análises publicadas pelo The New York Times, o controle ou a reorientação da produção venezuelana é prioridade na estratégia de Donald Trump.

Para o professor de história dos EUA na Unesp Franca, Marcos Sorrilha, o acesso a esse petróleo poderia ajudar a reduzir o preço dos combustíveis nos Estados Unidos, aliviando o custo de vida interno — um objetivo político central para o republicano. Ao mesmo tempo, a pressão sobre o setor energético enfraquece a principal fonte de receita do governo venezuelano, base de sustentação econômica e política de Maduro.

“O petróleo venezuelano seria uma estratégia de barateamento do preço do combustível para os americanos. É algo que está nas expectativas de Donald Trump”, diz.

Outro fator decisivo é a relação estratégica da Venezuela com a China. Desde as sanções impostas em 2019, Pequim se tornou o principal destino do petróleo venezuelano, recebendo cerca de 68% das exportações do país apenas em 2023. Em troca, a China concedeu quase US$ 50 bilhões em empréstimos ao longo da última década, garantidos por embarques de petróleo. Para Washington, trata-se de uma aproximação inaceitável em uma região considerada historicamente estratégica.

Analistas destacam que Trump busca conter o avanço da influência chinesa na América Latina, reforçando uma agenda geopolítica que inclui a reaproximação com países produtores de energia, como Brasil e Argentina. Esse movimento vai além de alinhamentos ideológicos e está diretamente ligado a recursos estratégicos e à disputa por mercados.

Há ainda o interesse na abertura da economia venezuelana a empresas norte-americanas. Lideranças da oposição a Maduro já defenderam publicamente a ampliação do espaço para companhias dos EUA nos setores de energia, mineração e indústria. Essa agenda se insere em uma política mais ampla de expansão comercial adotada por Trump em seu segundo mandato, com foco em garantir novos mercados para empresas americanas.

No pano de fundo dessa estratégia está a retomada explícita da Doutrina Monroe, citada na mais recente diretriz de política externa da Casa Branca. O documento estabelece a América Latina como prioridade para a segurança e prosperidade dos EUA e defende uma postura mais assertiva para afastar rivais estratégicos, sobretudo a China, do hemisfério. Para especialistas, trata-se de uma reedição de uma lógica histórica de hegemonia continental, em que interesses econômicos e geopolíticos são, quando necessário, sustentados pelo uso da força.

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