Polícia Civil cumpre novos mandados e apreende dinheiro em investigação sobre desvio de medicamentos no Acre

Operação é desdobramento de ação que apreendeu mais de R$ 1 milhão em fármacos e mira rede que desviava insumos do sistema público.

A Polícia Civil cumpriu, na manhã desta quarta-feira (7), dois novos mandados de busca e apreensão em Rio Branco no inquérito que investiga o desvio de medicamentos e insumos hospitalares da rede estadual de saúde do Acre. A apuração mira um grupo criminoso suspeito de retirar fármacos do sistema público para comercialização ilegal.

Na ação, os policiais apreenderam aparelhos celulares, dinheiro em espécie, moeda estrangeira e medicamentos de uso controlado. Segundo a Polícia Civil, os celulares continham mensagens que reforçam as suspeitas sobre a existência e o funcionamento do esquema criminoso.

Ainda de acordo com os investigadores, foram encontrados mais de R$ 31 mil em dinheiro, além de valores em outras moedas, sendo 902 dólares, 40 bolivianos e 335 dólares canadenses, assim como medicamentos cuja comercialização é restrita e controlada por lei.

Celulares, dinheiro e medicamentos de uso controlado foram apreendidos durante o cumprimento dos mandados em Rio Branco. Foto: Assessoria/ PCAC

A operação desta quarta-feira ocorre dois dias após uma grande apreensão realizada na última segunda-feira, 5, quando a Polícia Civil localizou uma residência em Rio Branco utilizada para armazenar uma grande quantidade de medicamentos desviados. O volume recolhido foi suficiente para encher a carroceria de dois caminhões de médio porte.

Entre os produtos apreendidos estavam medicamentos de alto custo, incluindo fármacos destinados ao tratamento oncológico e outros insumos hospitalares. Conforme levantamento preliminar das autoridades, o valor estimado do material apreendido supera R$ 1 milhão.

O delegado Igor Brito, responsável pelo inquérito, afirmou que a investigação segue em andamento e que novas medidas judiciais podem ser adotadas.

“As investigações estão em pleno andamento e não estão descartados novos cumprimentos de mandados. A instituição está empenhada para que possamos identificar toda a cadeia criminosa, alcançar os receptadores desses medicamentos e também os servidores que, porventura, estejam envolvidos nesse esquema”, disse.

Ação da Polícia Civil é desdobramento de operação que apreendeu mais de R$ 1 milhão em medicamentos desviados da rede pública. Foto: Assessoria/ PCAC

O delegado-geral da Polícia Civil do Acre, José Henrique Maciel, destacou que o objetivo é desarticular toda a estrutura do crime, desde o desvio até o destino final dos medicamentos.

“Estamos tratando de medicamentos que deveriam chegar de forma gratuita à população, especialmente a quem mais precisa. Retirar esses insumos do sistema público é um crime grave, que impacta diretamente a saúde das pessoas. O governo do Estado, através da Polícia Civil, não vai medir esforços para responsabilizar criminalmente todos os envolvidos”, afirmou.

As investigações continuam, e a Polícia Civil não descarta novas operações e prisões conforme o avanço do inquérito.

Diversas caixas cheias de medicamentos foram apreendidas durante operação realizada na segunda-feira (5). Foto: Assessoria/PCAC

Desdobramentos do caso

A investigação que apura o desvio milionário de medicamentos no Acre ganhou repercussão na última segunda-feira (5) quando a Polícia Civil prendeu um idoso de 74 anos durante uma operação realizada na região da Sobral, em Rio Branco.

No local, segundo a polícia, funcionava uma farmácia clandestina utilizada para armazenar e comercializar medicamentos e insumos hospitalares desviados da rede pública de saúde.

Na residência, os investigadores apreenderam uma grande quantidade de medicamentos, entre eles remédios destinados ao tratamento contra o câncer, hemodiálise e medicamentos controlados, além de equipamentos hospitalares de alto valor. Parte do material, conforme a apuração policial, teria origem na Fundação Hospitalar do Acre (Fundhacre).

A operação foi coordenada pelo Departamento de Polícia Civil da Capital e do Interior (DPCI), com apoio da Delegacia Itinerante, após solicitação formal da Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre). As investigações, que começaram em 2023, tinham como foco apurar um esquema de desvio de insumos que deveriam ser destinados a pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).

De acordo com a Polícia Civil, o idoso preso, identificado como Eugênio Gonçalves Neves, ex-balconista de farmácia, é apontado como responsável por armazenar e comercializar clandestinamente os produtos desviados, atuando como receptador do material. O delegado Igor Brito afirmou que o cumprimento do mandado confirmou suspeitas levantadas ao longo da investigação e que o objetivo era desmontar toda a estrutura do esquema.

Entre os itens apreendidos estavam sondas utilizadas por pacientes com bolsa de colostomia, hemodializadores empregados em tratamentos de hemodiálise e medicamentos oncológicos, considerados de alto custo e de difícil acesso na rede pública. Devido ao grande volume, foi necessário o uso de um caminhão-baú para o transporte do material, que passou a ser submetido à perícia.

Após a prisão em flagrante, Eugênio Gonçalves Neves foi encaminhado ao Departamento de Investigações Criminais e, posteriormente, à Delegacia de Flagrantes. No dia seguinte, na terça-feira (6), ele passou por audiência de custódia, foi liberado e passou a cumprir prisão domiciliar humanitária, com uso de tornozeleira eletrônica, por decisão judicial.

Segundo o advogado de defesa, David do Vale Santos, a medida considerou a idade avançada do investigado e um quadro clínico considerado delicado, com comorbidades como hipertensão, diabetes e doença pulmonar crônica decorrente de tuberculose.

 “Trata-se de um idoso de 74 anos, responsável por três filhos menores, sendo um portador de doença genética, com residência fixa no município e sem registro de violência, ameaça ou reincidência específica”, afirmou.

A defesa também afirmou que, até o momento, não há laudo pericial conclusivo que comprove irregularidade sanitária nos medicamentos apreendidos.

O advogado sustentou ainda que Eugênio não trabalha em unidades de saúde e que o flagrante decorreu do cumprimento de mandado de busca, argumento que, segundo ele, foi considerado pela Justiça. A defesa ressaltou que a concessão da prisão domiciliar não representa impunidade, mas a aplicação de critérios legais e humanitários.

O processo segue em tramitação, e as investigações continuam para apurar a origem dos medicamentos, identificar possíveis servidores envolvidos e esclarecer a participação de outras pessoas no esquema. Enquanto isso, Eugênio Gonçalves Neves permanece em prisão domiciliar, sob monitoramento eletrônico, à disposição da Justiça.

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