Pensei em começar este texto por outros caminhos. Considerei atalhos, desvios, pequenas provocações. Mas era impossível fugir da nossa conversa sem passar pelo estrondoso show de Bad Bunny, no intervalo do Super Bowl LX no último domingo (8), o mais vista da história do evento esportivo americano.
Fico pensando em como o tempo coleciona ironias. Há anos acompanho as apresentações do Super Bowl. Assisti, por exemplo, ao icônico show de Beyoncé, em 2016. O que mais me atravessava era a distância, a estética, o puro suco estadunidense.
Mesmo quando havia crítica, mesmo quando tensionava o que estava vigente, ainda era sobre os Estados Unidos vistos e não vistos, mas sempre os Estados Unidos.
Então chega esta edição. Um Super Bowl em espanhol, com referências assumidamente latinas, sem pedido de licença e sem legenda explicativa para quem se sentiu desconfortável. Foi impossível não notar a irritação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. E isso, por si só, indica que Bad Bunny alcançou o que parecia buscar.
Há algo poderoso na escolha da língua. Cantar em espanhol, sua língua natal, é um gesto político. É afirmar uma identidade que conecta o México para baixo, que atravessa o Caribe, que pulsa na América Latina inteira. A língua carrega memória, pertencimento e resistência.
Quando Bunny escolhe o espanhol, ele escolhe também não suavizar a própria identidade. E isso, para nós, pode parecer natural. Mas naquele contexto, é profundamente simbólico.
Aqui preciso fazer uma pausa, porque tem uma coisa que devo reforçar.
Sou paraense. No Pará — ao menos em Belém e na bolha em que eu vivia — a latinidade não era tão explícita. Ela surgia, talvez, nos bregas, em algumas músicas, em ecos culturais que nem sempre nomeávamos como latino-americanos. Não era algo que se impunha no cotidiano.
No Acre, a experiência foi outra.
Quando voltei, em 2021, fui tomada por uma latinidade concreta, cotidiana, sem esforço. Restaurantes cubanos e peruanos fazem parte da paisagem urbana. A fronteira não é conceito geopolítico distante, é travessia possível, aprendizado constante. O portunhol circula com naturalidade. Até um chá com estévia boliviana carrega essa mistura.
Aqui, a latinidade não se resume a dançar reggaeton. Ela se manifesta no afago, na recepção calorosa, no modo de acolher. Está no jeito de se sentir recebido. Está na compreensão de que afeto não é excesso, é fundamento.
E como isso é libertador.
Em muitos espaços, demonstrar afeto ainda é visto como exagero, como falta de sobriedade. Talvez por isso tenha incomodado tanto a declaração de amor que Bad Bunny fez à sua nação, Porto Rico, e aqui falamos de nação em sentido profundo.
Para muitos latinos, amar não é fraqueza. Amar não diminui competência, nem seriedade. Amar é cuidado atento, é compromisso com cada detalhe.
Não há nada mais latino do que declarar amor ao próprio lugar sem amarras. E talvez seja isso que pareça “óbvio” para nós e extraordinário para eles. Fomos ensinados a admirar o que vem de fora, a consumir o estrangeiro como sinônimo de excelência.
Quando o palco mais vigiado do entretenimento global se abre para o que sempre foi nosso, alguns se espantam.
Mas para quem vive essa latinidade no corpo e na rua, não há espanto. Há reconhecimento.
Que venham mais artistas latinos ocupando espaços centrais. Que o que sempre foi nosso deixe de ser tratado como exótico. E que o mundo aprenda, de uma vez por todas, que o óbvio também pode ser revolucionário.






