EDITORIAL| O riso amargo nas margens do Juruá: a segunda ponte

“Vcs querem 100 milhões de reais ou a Ponte? Lembro como se fosse hoje o Governador prometendo kkkkk que vergonha”.

Foi esse breve comentário de um internauta, perdido no oceano das redes sociais, que serviu de estopim para esta reflexão. Por trás da sintaxe rápida da internet e do “kkkkk” que encerra a frase não há humor genuíno. Há, na verdade, a exaustão de quem conhece a aspereza do sol a pino e a humilhação da lama na fila da balsa. Esse riso amargo traduz o sentimento que impera nas barrancas do rio Juruá. A descrença de uma população que viu, por anos a fio, seu direito de ir e vir ser transformado em moeda de troca.

A indignação aponta diretamente para o governador Gladson Cameli (PP), um filho do Juruá que fez da ligação entre Cruzeiro do Sul e Rodrigues Alves uma de suas principais juras de campanha. O cenário para a concretização da obra chegou a parecer ideal. Durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o governo estadual desfrutava de alinhamento com Brasília. Compartilhavam-se palanques, promessas e narrativas. E, ainda assim, a balsa continuou cortando as águas barrentas do rio, indiferente aos discursos. Faltou ali o que mais se exige da gestão pública. Transformar retórica em obra.

Mas o buraco da negligência é ainda mais fundo e a conta desse atraso tem culpados com nome e sobrenome. A demora para que o sonho da ponte saísse do papel não se deu apenas por inércia administrativa. Houve também uma manobra que flertou com a irresponsabilidade.

Lideranças políticas da direita acreana, com protagonismo do senador Márcio Bittar (PL) e da então deputada federal Mara Rocha, decidiram encampar um projeto de proporções grandiosas. A extensão da BR-364 rumo a Pucallpa, no Peru. A proposta previa rasgar o coração do Parque Nacional da Serra do Divisor, um dos maiores santuários de biodiversidade da Amazônia e território de populações tradicionais.

Para os moradores de Rodrigues Alves, o problema foi imediato. Essas lideranças atrelaram o projeto da ponte à estrada transoceânica. Qualquer analista técnico sabia que a rodovia para Pucallpa enfrentaria entraves jurídicos e ambientais severos. O resultado foi previsível. Quando a Justiça freou o avanço da estrada rumo ao Peru, a obra da ponte acabou arrastada pelo mesmo impasse. Por causa dessa aposta desmedida, o projeto passou anos paralisado.

Foi preciso desfazer esse nó para que o processo voltasse a andar. Sob a atual gestão federal, a obra foi separada da proposta de estrada na Serra do Divisor e retomada com abordagem mais pragmática. O que permaneceu travado por quase uma década voltou a avançar.

Hoje, a resposta ao internauta indignado começa a sair do campo das promessas. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) trabalha na elaboração do projeto executivo da que será tecnicamente a segunda ponte sobre o rio Juruá. A previsão oficial aponta para a conclusão dos estudos no segundo semestre de 2026.

Com os estudos prontos, o edital de licitação para execução da obra, estimada nos mesmos R$ 100 milhões ironizados nas redes sociais, deve ser lançado na sequência. Depois disso, respeitando os ritos legais e o prazo de preparação da empresa vencedora, as máquinas podem começar a operar em 2027.

Enquanto a ponte ainda está no papel, outra frente de investimento tenta responder a um problema antigo do estado. O governo federal redirecionou atenção para o que já existe e precisa funcionar. A própria BR-364 no trecho entre Rio Branco e Cruzeiro do Sul. Os investimentos recentes em recuperação e manutenção indicam uma tentativa de garantir trafegabilidade durante todo o ano.

A história do rio Juruá ensina que o povo amazônida tem memória longa, como as águas que desenham seu território. Brincar com a esperança de uma travessia digna custou dez anos de atraso. O comentário indignado nas redes é prova disso. A população não aceita mais ver sua vida usada como trampolim de palanque. Não era piada. Era cobrança.

Agora resta acompanhar o cronograma. Para que o riso amargo dê lugar ao som do concreto fincando raízes no leito do rio.

Foto de capa: Sérgio Vale

Publicidade
banner docs epop bari 01