Fotógrafo peruano radicado no Acre, José Diaz construiu um acervo que atravessa a política local e a vida de povos indígenas, registrando, com olhar sensível, histórias de resistência, memória e pertencimento na Amazônia.
Por vezes, a história de um lugar não está nos livros oficiais nem nos discursos de autoridades, mas guardada em gavetas antigas, álbuns amarelados e negativos que resistem ao tempo. Na casa verde de aparência simples, cercada por plantas que parecem crescer sem pressa no bairro Tucumã, em Rio Branco, vive José Diaz da Silva, de 73 anos, um homem que, por décadas, foi os olhos do Acre.
A trajetória de José Diaz não começa no Acre, mas encontra na Amazônia um território definitivo. Nascido no Peru, em Iñapari, na tríplice fronteira com Brasil e Bolívia, ele atravessou caminhos geográficos e simbólicos até transformar a fotografia em instrumento de memória e testemunho. A profissão não surgiu como destino imediato, mas como um acaso que, com o tempo, virou ofício e identidade.
“Eu sou peruano, nasci na fronteira, então de lá eu fui para Lima. E quando eu fui, meu pai me deu uma máquina fotográfica, só que eu não sabia nem mexer com ela, aí eu guardei”, relembra. “Eu nunca tinha visto uma antes”, confessa, com o sotaque que ainda preserva as raízes andinas.
Sem saber usar o equipamento, o jovem guardou a câmera até cruzar o caminho de Ashigo Tanaka, um professor chinês que conheceu durante uma excursão em Lima e que percebeu no menino a curiosidade necessária para aprender. Foi ele quem, gratuitamente, lhe ensinou a gramática da luz. Tanaka apresentou ao garoto o rigor técnico e o olhar paciente da fotografia. A partir dali, o que era curiosidade virou vocação. Foi ali que nasceu o fotógrafo.
“Foi ele que me deu essa máquina aqui, máquina Nikon, bem antiga, toda desmontada, e eu me interessei pela fotografia, ele me deu umas dicas”, conta. O equipamento, com mais de meio século de existência, ainda funciona. Está guardada em uma gaveta, entre outras máquinas analógicas preservadas como relíquias. “Foi a minha primeira câmera profissional que eu usei.”
O aprendizado se consolidou no Brasil. Diaz conta que antes de fincar raízes na Amazônia brasileira, percorreu outros caminhos. Ele passou pelo Rio de Janeiro, onde se profissionalizou na Associação Brasileira de Arte Fotográfica (ABAF). Estudou fotografia e atuou em diferentes áreas, do fotojornalismo à publicidade.
“No Rio de Janeiro, eu fiz um curso, onde eu aprendi fotografias, fotojornalismo, fotografia de publicidade, de modelo, essas coisas, tudo. Eu me apaixonei pela fotografia e nunca mais larguei”. O encantamento se traduziu em carreira. Como fotojornalista, registrou a violência urbana e teve imagens publicadas em jornais como O Dia.
A chegada ao Acre, em 1985, marcou o início de uma atuação que ultrapassaria a fotografia e tocaria a história política do estado. Diaz passou a trabalhar assessoria de comunicação do governo acreano, fato que mudou definitivamente sua trajetória. Naquele momento, o estado vivia discussões sobre integração fronteiriça entre Brasil e Peru, e o fotógrafo peruano parecia a ponte humana perfeita.
Chegou com a esposa, Bela Luz, e ficou. “Naquela época estava se ventilando esse negócio de integração fronteiriça. Eu, como era peruano, disse, esse cara é interessante aqui para nós.”
Na assessoria, ele participou de encontros estratégicos realizados em cidades como Cobija, Puerto Maldonado e Rio Branco, durante o governo de Nabor Júnior. O movimento culminaria na aproximação entre autoridades dos dois países. “Foi o primeiro governador que foi para Lima. E ele é, bem dizer, o pai da integração entre Peru e Brasil. Ou seja, entre Acre e Peru.”

Durante mais de 20 anos, acompanhou governadores, campanhas eleitorais, viagens oficiais e cerimônias históricas. Fotografou encontros diplomáticos, visitas presidenciais e momentos decisivos da política acreana. Trabalhou durante a gestão de Iolanda Fleming, primeira mulher a governar um estado brasileiro, experiência que ele define como intensa.
“Acompanhei ela nos dez meses que ela trabalhou. Foi um governo muito intenso e interessante. A gente recebia autoridade de tudo que era lugar”.
Poucos registraram tanto a vida institucional do Acre quanto José Diaz.

O olhar voltado aos povos indígenas
Uma das dimensões mais marcantes da trajetória de Diaz está no registro das culturas indígenas do Acre. Se a fotografia institucional lhe garantiu estabilidade, foi fora dela que José encontrou sentido para o ofício. A serviço do Sebrae, passou a percorrer territórios indígenas, acompanhando processos de retomada cultural em um período ainda atravessado por silenciamentos.
Entre os Ashaninka e os Yawanawa, seguiu lideranças por territórios marcados por expulsões e resistência. Suas imagens registram um tempo em que o artesanato era proibido e as canções, caladas — tornando-se documentos de uma época em que povos inteiros lutavam para fazer suas culturas reaparecerem após décadas de repressão.
“Teve uma época em que o Sebrae me contratou para fazer um registro fotográfico sobre o artesanato indígena. Que naquela época, como vocês sabem, depois das correrias, a cultura indígena no Acre praticamente se extinguiu. Era proibido deles fazerem artesanato, deles cantarem as músicas deles, deles falarem seus idiomas. Era um caos”.

No ano 2000, ele testemunhou o retorno do povo Yawanawá às suas terras originais, de onde haviam sido expulsos por seringalistas. Lá, entre o cheiro da chacrona e do jagube, Diaz deixou de ser apenas um fotojornalista para se tornar um cronista visual, atento não só aos elementos visíveis, mas aos processos de resistência e reconstrução cultural.
“Quando nós chegamos na aldeia do Biraci, ele nos levou até a terra original deles. De onde eles foram expulsos pelos calcheiros, pelos seringalistas e fazendeiros”, conta. “O Biraci continuou conservando aquela aldeia. Fez uma plantação de chacronas e jagube. Tinha uma casinha lá que era toda encoberta de cipó. E só ele ia lá com as lideranças de pajés fazer sessões espirituais”.
Essas experiências redefiniram sua relação com a fotografia. O registro deixou de ser apenas documental e passou a carregar compromisso. A formação em Antropologia pela Universidade Federal do Acre (Ufac), anos mais tarde, consolidaria essa mudança. O fotógrafo passou então a compreender, com mais profundidade, os contextos que registrava.

Bastidores da política e a fotografia como documento
Ao longo de sua trajetória, José Diaz se inseriu também nos bastidores de campanhas políticas importantes no Acre. Trabalhou com nomes centrais da política local, registrando comícios, visitas e articulações. Um desses momentos envolve a campanha de Jorge Viana, então um candidato jovem, ainda em início da carreira política.
“Edmundo Pinto veio aqui em casa me convidar para trabalhar com ele. Mas no dia anterior o Jorge Viana já tinha vindo. Eu disse pra ele: se você tivesse vindo ontem, eu tinha ficado contigo.”
A escolha o colocou ao lado de um grupo que ainda buscava afirmação no cenário político local. “Chamavam a gente de ‘os meninos do PT’. O Jorge vinha aqui em casa buscar as fotografias. Eu revelava tudo aqui mesmo, no meu laboratório.”
Era um processo artesanal e intenso. As imagens dos comícios, das visitas aos municípios e dos encontros políticos eram reveladas manualmente na própria casa do fotógrafo e, em seguida, encaminhadas para publicação.
“Eu revelava as fotografias aqui, o Jorge vinha com o motorista dele pegar as fotografias para levar para o jornal”.
Entre os registros, está a passagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo Acre quando ainda começava a ganhar projeção nacional. O episódio rendeu até confusão nas ruas.
“Em Xapuri fiz a segunda vinda do nosso atual presidente, quando ele veio para cá.” Ele conta sorrindo ao relembrar a reação das pessoas durante os deslocamentos. “Quando a gente ia passando na rua, eu ia sempre na frente, o pessoal me confundia com o Lula, que usava barba também. ‘Esse é o Lula? É o Lula?’ Eu fazia que não e apontava pra ele. O Lula vinha logo atrás.”

O apagamento de arquivos e a memória fragmentada
Apesar da longa produção, parte significativa do acervo de Diaz se perdeu ao longo dos anos, em um processo que evidencia fragilidades institucionais na preservação da memória.
“A gente arquivava tudo na assessoria de comunicação. Aí algum refúgio eu pegava e trazia e guardava. Mas mesmo assim sumiram também.”
A mudança de governos marcou o desaparecimento de registros. “Quando deletaram tudo lá, acabaram.” O relato se torna mais incisivo ao lembrar o momento em que retornou ao local de trabalho. “Aí um certo dia eu vim, não encontrei mais nem minha mesa, nem nada. E o arquivo de fotografia, pelado. Pelado, pelado.”
De volta à casa no Tucumã, ele abre uma gaveta. Depois outra. Dentro delas, câmeras antigas, lentes, negativos. Um acervo que resiste ao tempo.
“O que tenho aqui são raridades. Materiais que possuo desde que comecei minha carreira. Muitos ainda funcionam.”
Há um cuidado quase afetivo na forma como apresenta cada equipamento. Como se fossem extensões de si. José nunca se adaptou completamente ao digital. Preferiu o processo manual, a revelação paciente, o tempo necessário entre o clique e a imagem final.
Afastado das atividades externas há mais de duas décadas por questões de saúde, Diaz mantém parte de seu legado preservado dentro de casa. “Faz mais de 20 anos que eu não saio daqui de casa. Adoeci, fiquei com problemas cardíacos, fiz cirurgia e tudo mais.”
Mesmo assim, segue conectado à fotografia. O legado não ficou restrito aos arquivos.
Juan Vicent Diaz, um dos seis filhos, seguiu o mesmo caminho. Herdou o ofício e a inquietação. Também passou a percorrer a Amazônia com a câmera, atento às histórias invisíveis. “Ainda bem que o Juan é o meu sucessor, que está tocando em frente. E me ajuda e me incentiva, porque eu preservo o meu equipamento antigo.”
Em uma carta ao filho, após um prêmio de fotografia, José escreveu:
“Juanito! Continue trabalhando as brenhas da nossa Amazônia com esse olhar fotográfico que nos orgulha. Continue revelando a sensibilidade que somente os bons fotógrafos possuem para manter o foco nítido e expressivo das coisas mais simples às mais belas deste nosso lindo planeta.”
Hoje, afastado das câmeras por problemas cardíacos, José Diaz ocupa o tempo entre a jardinagem e a marcenaria. Constrói pequenos objetos, cuida das plantas, observa os netos. Ao fim da tarde, enquanto rega suas plantas e troca frases em espanhol com sua esposa, Bela Luz, José Diaz da Silva parece em paz.
A casa segue cheia. A vida também.







