Organizações pedem cancelamento de contratação de goleiro condenado por feminicídio e cobram posicionamento do futebol acreano diante da violência contra mulheres.
O Levante Feminista – Acre contra o Feminicídio, o Lesbocídio e o Transfeminicídio e o Instituto Mulheres da Amazônia (Ima) emitiram nota pública de indignação e repúdio às declarações do técnico do Vasco-AC, Eric Rodrigues, sobre o caso em que quatro atletas do clube são investigados por estupro coletivo, em Rio Branco.
As entidades afirmam que a fala do treinador foi “preconceituosa e violenta” e contribuiu para a revitimização das mulheres que denunciaram o crime. O caso é apurado pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) e tramita sob sigilo.
Na manifestação divulgada nesta terça-feira (17), os movimentos classificam o posicionamento do técnico como discriminatório, machista e misógino. Para as organizações, as declarações traduzem “o sadismo da revitimização de uma mulher em sofrimento que acontece perante a sociedade”.
O protesto ocorre após o treinador questionar publicamente a consistência da investigação e sustentar que, segundo os depoimentos, teria havido consentimento nas relações. Ele também afirmou que a denúncia seria “muito frágil” e anunciou que a defesa dos atletas tentará reverter as prisões.
Os suspeitos são Erick Luiz Serpa Santos Oliveira, Matheus Silva, Brian Peixoto Henrique Iliziario e Alex Pires Júnior. Erick Serpa foi preso em flagrante no sábado (14) e teve a prisão convertida em preventiva no domingo (15). Os demais foram presos na segunda-feira (16).
Violência estrutural e dados alarmantes
Na nota, os movimentos feministas contextualizam o caso dentro do cenário estadual de violência de gênero. Segundo as entidades, o Acre registrou, em 2025, a maior taxa proporcional de feminicídio do país, com 1,58 casos a cada 100 mil habitantes e mais de 5 mil ocorrências de violência contra a mulher.
O documento argumenta que os índices de violência registrados no estado refletem padrões estruturais e relações desiguais de gênero. Segundo as organizações, a maioria dos casos é cometida por homens que mantêm vínculos cotidianos com as vítimas, no âmbito familiar ou social. “O que significa ser mulher em um ambiente que pune nossa existência?”, quetionam.
As entidades também afirmam que declarações como as do treinador reforçam uma cultura de desrespeito ao corpo feminino, especialmente em um estado que lidera indicadores de feminicídio.
Críticas à contratação de goleiro condenado
A nota critica ainda a contratação, pelo clube, do goleiro Bruno, condenado pelo feminicídio de Eliza Samúdio. Para os movimentos, a recontratação representa a normalização da violência contra mulheres e envia uma mensagem de impunidade.
Segundo o texto, trazer de volta ao futebol acreano um homem condenado por ser mandante do assassinato de uma mulher reforça a ideia de que a violência não gera consequências para agressores, apenas para as vítimas.
As entidades exigem o cancelamento da contratação e afirmam que manter o vínculo seria uma demonstração de falta de compromisso do futebol local com o enfrentamento à violência de gênero.
Nota na íntegra
NOTA DE INDIGNAÇÃO E REPÚDIO
O Levante Feminista – Acre contra o Feminicídio, o Lesbocídio e o Transfeminicídio, e o Instituto Mulheres da Amazônia (IMA) manifestam profunda indignação e repúdio às declarações preconceituosas e violentas proferidas pelo técnico da agremiação esportiva Vasco da Gama AC, sobre o caso do estupro coletivo cometido por atletas do referido time, em Rio Branco, Acre, no qual o mesmo técnico é treinador.
A fala deste profissional, além de discriminatória, machista e misógina, traduz o sadismo da revitimização de uma mulher em sofrimento que acontece perante a sociedade.
O Acre teve a maior taxa de feminicídio proporcional do Brasil em 2025, sendo 1,58 casos a cada 100 mil habitantes e com mais de 5 mil casos de violência contra a mulher registrados.
Ressaltamos que essas taxas de violência não existem a ermo e não são causadas sem motivos. São causadas por pessoas — em sua maioria homens — que estão no convívio diário com essas mulheres, com essas famílias, e não por “monstros”. São homens que olham mulheres como descartáveis, como objetos, como coisa abjeta. E que odeiam as mulheres.
O que significa ser mulher em um ambiente que pune nossa existência?
Lamentável e vergonhosamente, no Estado que mais matou mulheres proporcionalmente em 2025, ainda são ouvidas declarações violentas como a feita pelo treinador, demonstrando o profundo desrespeito e desprezo pelo corpo feminino.
Para além do desprezo do corpo da mulher, outro ato INACEITÁVEL é a contratação, novamente, do goleiro Bruno, pessoa condenada pelo feminicídio de sua ex-companheira, Eliza Samúdio.
O homem que foi condenado por ser o mandante do assassinato de uma mulher que apenas requereu os seus direitos.
Contratá-lo reitera o quanto a violência contra as mulheres é normalizada e sem qualquer consequência para os assassinos e violentadores.
Ser mulher no Brasil, especificamente no estado do Acre, é estar constantemente em risco de encontrar a morte causada pelos homens de sua convivência.
A recontratação de alguém como Bruno no Acre manda uma mensagem de que a violência contra a mulher não tem consequência nenhuma para os homens, apenas para as mulheres, que têm seus corpos dilacerados.
Com sentimento de indignação, tristeza, mas firmes na luta, nós do Levante Feminista EXIGIMOS O CANCELAMENTO DA CONTRATAÇÃO DO GOLEIRO BRUNO PELO VASCO DA GAMA ACRE.
Seguir com esta contratação será uma demonstração de falta de compromisso do futebol acreano em avançar no enfrentamento à violência contra a mulher, mantendo-se à margem do futebol nacional e dando palco a condenado por assassinato de mulheres.
Reiteramos que estamos cansadas de emitir notas de repúdio frente às situações de violência no estado do Acre e do Brasil.
Estamos cansadas de ver mulheres e meninas sendo violentadas e revitimizadas por pessoas que deveriam lhes proteger.







