Investigação aponta funcionamento de farmácia clandestina e indica que esquema de desvio de insumos da saúde pública envolvia outras pessoas.
Um idoso de 74 anos foi preso na manhã desta segunda-feira (5) durante uma operação da Polícia Civil (PCAC) que resultou na apreensão de uma grande quantidade de medicamentos e insumos hospitalares desviados da rede pública de saúde do Acre. A ação ocorreu em uma residência localizada na região da Sobral, em Rio Branco, onde, segundo as investigações, funcionava uma farmácia clandestina.
No imóvel, os policiais encontraram mais de 150 caixas de medicamentos, incluindo remédios destinados ao tratamento contra o câncer, hemodiálise e medicamentos controlados, além de equipamentos hospitalares de alto valor. Parte do material apreendido é proveniente da Fundação Hospitalar do Acre (Fundhacre).
A operação foi coordenada pelo Departamento de Polícia Civil da Capital e do Interior (DPCI), com atuação da Delegacia Itinerante, após solicitação formal da Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre). As investigações duraram cerca de dois anos e tinham como objetivo apurar um esquema de desvio de insumos que deveriam ser destinados a pacientes da rede pública.
O delegado-geral da Polícia Civil do Acre, José Henrique Maciel, afirmou que o caso será tratado como prioridade e contará com uma ampla força-tarefa, por se tratar de um crime que atinge diretamente a população usuária do Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo ele, a revenda de medicamentos que deveriam ser distribuídos gratuitamente é considerada extremamente grave, pois compromete o abastecimento das unidades públicas de saúde.
“A operação faz parte de uma investigação que já vem sendo realizada há alguns meses, a pedido do secretário de Saúde. Solicitamos apoio da nossa delegacia especializada e, hoje pela manhã, houve esse primeiro desfecho, com a ação de busca e apreensão. O governo do Estado não compactua com esse tipo de situação”, declarou.
José Henrique Maciel não descarta a hipótese de que o esquema envolva uma organização criminosa. De acordo com o delegado-geral, há indícios de participação de várias pessoas, inclusive servidores ligados à Secretaria de Estado de Saúde do Acre (Sesacre).
“Temos provas de que existem mais envolvidos e de que pode se tratar de uma quadrilha. Com certeza, há participação de várias pessoas, inclusive dentro da Sesacre”, afirmou.
Segundo a PCAC, na casa funcionava uma farmácia clandestina e o homem preso seria o receptador da medicação.

O delegado Igor Brito, responsável pelo caso, afirmou que o cumprimento do mandado de busca e apreensão confirmou as suspeitas levantadas ao longo da investigação.
“A Polícia Civil deu cumprimento a um mandado de busca e apreensão nesta residência e logramos êxito em apreender diversos medicamentos. Vamos continuar investigando para desmontar esse sistema de desvio de medicamentos que seriam destinados à população”, disse em entrevista.
Ainda de acordo com o delegado, as investigações seguem sob sigilo, mas já há a certeza de que outras pessoas estão envolvidas no esquema. “Temos plena e absoluta ciência de que a pessoa presa não agia sozinha. Vamos continuar as diligências para identificar todos os envolvidos e apresentar uma resposta positiva para a população”, afirmou.
O delegado destacou ainda que a quantidade de medicamentos apreendidos é expressiva e que o material pode ter causado um prejuízo superior a R$ 1 milhão aos cofres públicos. “É uma estimativa conservadora. Eu mesmo tentei quantificar e cheguei a um valor em torno de R$ 1 milhão, mas acreditamos que esse montante possa ultrapassar essa cifra”, acrescentou Brito.
Entre os itens apreendidos estavam sondas utilizadas por pacientes com bolsa de colostomia, hemodializadores empregados em tratamentos de hemodiálise e medicamentos oncológicos, considerados caros e de difícil acesso na rede pública. Devido ao grande volume de material, foi necessário o uso de um caminhão-baú para transportar os itens até um local adequado, onde passarão por perícia.
Após a prisão em flagrante, o idoso foi encaminhado ao Departamento de Investigações Criminais (Deic) e, posteriormente, apresentado à Delegacia de Flagrantes (Defla), onde permanece à disposição da Justiça. As investigações continuam para identificar outros possíveis envolvidos no esquema.
Próximos passos
O secretário de Estado de Saúde, Pedro Pascoal, informou que os medicamentos apreendidos passarão por um processo de rastreamento a partir dos números de série, o que permitirá identificar a origem de cada item e o caminho percorrido até a revenda irregular.
De acordo com o titular da Sesacre, os levantamentos iniciais indicam que os medicamentos podem ter sido desviados de unidades estratégicas da rede pública, como o Pronto-Socorro de Rio Branco, a Fundação Hospitalar do Acre (Fundhacre), a Maternidade Bárbara Heliodora e as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).
“Trata-se de um trabalho iniciado há algum tempo, e o mérito é do governo do Estado, por meio da Polícia Civil do Acre. Graças a esse esforço, estamos começando a localizar as medicações que deveriam estar sendo aplicadas aos pacientes”, concluiu Pedro Pascoal.
As investigações seguem em andamento e novas fases da operação não estão descartadas.


