Estudo da Ufac revela importância do Acre nas rotas migratórias de aves e destaca papel da ciência cidadã

Pesquisa realizada por estudantes de Ciências Biológicas analisa registros feitos por observadores da natureza e será publicada em revista científica internacional.

Por Marinara Lusvardi

Imagine uma viagem longa, atravessando continentes, rios e florestas. Uma jornada silenciosa, realizada a milhares de metros de altura ou sobre paisagens que mudam com as estações. Todos os anos, aves percorrem milhares de quilômetros entre diferentes regiões do planeta e, nesse percurso, o Acre também faz parte da rota.

Foi para compreender melhor esse fenômeno que universitários do curso de Ciências Biológicas e membros do Laboratório de Ornitologia da Universidade Federal do Acre (Ufac) desenvolveram um estudo sobre aves migratórias registradas no estado.

A pesquisa foi orientada pelo professor doutor Edson Guilherme e reúne dados que ajudam a compreender como essas espécies utilizam o território acreano ao longo do ano.

O artigo científico foi aceito para publicação na revista Ornithology Research e deve ser disponibilizado oficialmente em agosto, ampliando a visibilidade internacional da produção científica realizada na Amazônia.

Para desenvolver o estudo, os pesquisadores analisaram 1.554 registros fotográficos, que documentam a presença de 61 espécies de aves migratórias no Acre, sendo 31 provenientes da América do Norte e 30 do sul da América do Sul.

Segundo a primeira autora do artigo, Alnizia Galdino, estudante de Ciências Biológicas da Ufac, a pesquisa nasceu da necessidade de ampliar o conhecimento sobre essas espécies no estado.

“Nosso orientador já vinha registrando a presença de aves migratórias no Acre, e percebemos que havia uma oportunidade de ampliar essa base de dados. Ao mesmo tempo, quisemos mostrar como os registros feitos pela população podem contribuir para a ciência e ajudar a entender melhor os padrões migratórios dessas espécies”, explica.

Acre como ponto de passagem

A análise dos dados revelou que diferentes grupos de aves utilizam o estado em períodos distintos do ano, acompanhando os ciclos naturais de migração.

Espécies vindas da América do Norte, conhecidas como neárticas, costumam ser registradas no Acre entre setembro e março, período que coincide com a migração para áreas de invernada na América do Sul. Já as espécies que se reproduzem no sul do continente, chamadas de austrais, aparecem no estado principalmente entre março e setembro.

“Observamos que aves vindas da América do Norte e da América do Sul chegam ao Acre em épocas diferentes, acompanhando os ciclos de reprodução e de migração em suas regiões de origem. Também identificamos espécies que aparecem no estado em mais de um período ao longo do ano, como a tesourinha (Tyrannus savana), e outras com padrões migratórios mais complexos”, afirma Alnizia.

Esses resultados ajudam a demonstrar que o Acre funciona como uma espécie de corredor ecológico, utilizado por diferentes espécies ao longo de suas rotas migratórias pelo continente.

Pesquisa realizada por estudantes de Ciências Biológicas da Ufac analisa registros feitos por observadores da natureza

Ciência cidadã impulsionando descobertas

Um dos aspectos mais importantes do estudo é que os dados utilizados pelos pesquisadores não vieram apenas de expedições científicas, mas também de registros feitos por observadores da natureza e amantes da biodiversidade.

As informações foram coletadas em plataformas digitais de ciência cidadã, como eBird, iNaturalist e WikiAves, onde qualquer pessoa pode compartilhar fotografias e registros de espécies encontradas na natureza.

Esse modelo de colaboração tem se tornado cada vez mais importante para a ciência, especialmente em regiões extensas e biodiversas como a Amazônia, onde o território amplo e a diversidade de habitats tornam o monitoramento contínuo um grande desafio.

Para Alnizia, a participação da população pode transformar simples observações em informações valiosas para a ciência.

“Os registros feitos por observadores da natureza ajudam a construir uma base de dados muito valiosa para a ciência, principalmente em regiões onde ainda temos pouca informação, como no Acre. Sempre que alguém fotografar uma ave, planta ou qualquer animal na natureza, pode compartilhar esse registro em plataformas como iNaturalist, WikiAves ou eBird e contribuir diretamente com pesquisas científicas”, destaca.

WIKIAVES – plataforma de ciência cidadã

Ciência produzida na Amazônia

Além de revelar novos dados sobre as rotas migratórias das aves, o estudo também reforça o papel da Universidade Federal do Acre como um importante centro de produção científica na Amazônia.

Ao envolver estudantes em pesquisas de relevância internacional, iniciativas como essa contribuem para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade regional e fortalecer a formação de novos pesquisadores.

Mais do que um levantamento científico, o trabalho mostra que a ciência também pode ser construída coletivamente, conectando pesquisadores, estudantes e cidadãos interessados em observar e compreender a natureza.

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