Gostaria que vocês imaginassem comigo a seguinte situação:
É domingo, pouco antes da hora do almoço, ali entre as 11 horas e o meio dia. O dia está ensolarado, você chega na casa da sua família, um primo já está assando o churrasco, outro está escolhendo a música. Na cozinha, as tias e primas falam sobre aquela prima que está fora, mas vai vir no natal. Você pensa que é bom demais poder viver assim.
É bom viver isso, não é? Uma pena que Eliza Samúdio não vive mais isso desde 2010. Na verdade, Eliza e tantas outras mulheres que foram assassinadas pelo companheiro, ex-companheiro ou qualquer pessoa do tipo. Essas mulheres que foram covardemente assassinadas por esses homens, que não são monstros, nunca mais irão viver essa situação e suas famílias nunca mais irão ter a sensação de vê-las entrando no portão para um almoço de domingo.
Pensando sobre o crime de feminicídio, eu lembrei que ele é um crime causado pelo simples fato da mulher ser mulher. Que mulher nunca ouviu homens que sequer compreendem a luta e o ato político que é ser mulher falando frases como “mas homens também são assassinados” ou “mas homens também sofrem violência doméstica e nem por isso tem uma Lei João da Penha”? E, para essas pessoas que se perguntam isso, eu convido vocês para uma reflexão (e, se não quiserem viver, tudo bem. As vezes é melhor viver na ignorância).
Os homens são assassinados, sim — geralmente por outros homens —, mas qual é a motivação que os leva a isso? Podem ser dívidas, brigas, assaltos, rixas, diversas coisas. O que tipifica a Lei do Feminicídio é que as mulheres são mortas porque são MULHERES. Porque quiseram terminar, porque falaram alto, porque terminaram, porque não queriam ser mães ou porque queriam ser mães, porque queriam trabalhar. Nós apanhamos, sofremos, somos violentadas e morremos porque simplesmente somos mulheres, brancas, pretas, pobres, ricas, cis, trans. Nós sofremos porque somos mulheres.
E é importante que você, leitora (ou leitor), compreenda isso — a raiva que é direcionada a nós quando reforçamos bem em nossos trabalhos. A raiva quando uma de nós decide largar a vida profissional para ser mãe, ou colocar a criança na creche mais cedo porque não quer parar de trabalhar. A nós mulheres é entregue uma raiva constante simplesmente porque nós existimos.
É válido aqui dizer que, mesmo entre nós, existem umas de nós que sofremos mais do que as outras — isso é algo levantado por dados e pela literatura. A autora do livro Prateleira do Amor, a Valeska Zanello, vai falar sobre as mulheres serem colocadas em dispositivos de prateleira, onde precisam ser validadas. E nesse lugar mulheres trans sofrem mais que mulheres cis, mulheres pretas sofrem mais do que mulheres brancas — mas todas as mulheres sofrem. A autora vai falar que às mulheres trans e cis, os homens dessa masculinidade típica, heteronormativa e sexista irão entregar a sexualidade e às mulheres brancas o casamento, a validação. Mas nunca, nunca o amor. Para esse sistema heteronormativo, o amor (dos homens e de algumas mulheres) nunca é entregue às mulheres, apenas a outros homens. Na nossa sociedade, não se ama mulheres.
O que me retorna a outra questão que falamos — a frase de “homens também sofrem violência doméstica e nem por isso tem uma Lei João da Penha”. Gente, vocês sabiam que o Brasil recebeu uma punição INTERNACIONAL pelo acontecido com a Maria da Penha? Vocês acham que as tentativas de feminicídio que ela teve e as diversas violências que ela sofreu pelo ex companheiro condenado (aqui não darei a honra sequer de me referir ao mesmo seu nome) foram brincadeiras de mal gosto? Vocês acham que deixar uma mulher em uma cadeira de rodas é algo normal?
Nossa, acho que estou muito irritada — será que é ruim? falar demais? na minha coluna? que eu escrevo? com a minha visão de mundo?
E aí a gente vai ao que aconteceu essa semana aqui no Vasco da Gama AC — na verdade, vamos em partes. Inicialmente nós temos o acontecimento de um estupro coletivo — e vamos chamar pelo crime que é, é um estupro coletivo — que acontece nas dependências da agremiação. E me vem o técnico, em uma entrevista concedida a um veículo de imprensa, sendo gravado para quem quiser ver, falando o que falou?? Falando que, quando houvesse a decisão da moça de fazer algo, eles iriam ficar mal, ou que ela estava chamando os homens, ou que era ruim a atuação da DEAM ser super rápida. Entendem o tamanho desprezo que esse homem apresenta por mulheres? A ponto dele falar tudo isso enquanto era GRAVADO? Como que nós mulheres nos sentimos minimamente seguras quando uma pessoa como essa fala isso estando gravado? Entende?
E eu preciso falar uma coisa com vocês que eu sempre reforço para pessoas que estão no meu convívio — estupradores não são monstros! Não são doentes mentais! Em sua maioria, estupradores são homens comuns, homens que trabalham num emprego normal, que vão ao mercado toda semana fazer compras, homens que vão ao parque correr, homens que compram carros, que estudam. Estupradores são homens normais. Chamar eles de monstros os afasta e faz parecer que isso não acontece perto de ninguém, quando a própria Lei Maria da Penha que em seus dados que o estupro acontece predominantemente na casa da vítima e 80% dos que cometem esse crime são companheiros ou ex-companheiros.
E nem doentes mentais — primeiramente porque isso é psicofobia, mas isso é uma conversa para outro dia —, mas a ideia de falar que é uma doença mental é criar a ideia de uma inimputabilidade do criminoso, colocando como se ele não fizesse isso normalmente, mas que só fez isso porque estava acometido de uma doença mental.
Não, esses criminosos não são monstros. São pessoas — em sua maioria homens — que muitas das vezes recebem a chance de se redimir.
O que me leva a outra questão que queria levantar — goleiro Bruno voltando ao trabalho em Rio Branco? Novamente? Um homem condenado por ser mandante do assassinato de Eliza Samúdio, que a deixou em cárcere privado, que a deu para cachorros comerem a sua carne, ganhando a chance de se redimir? Vocês acham mesmo que entregar uma pessoa para ser comida por cachorros é algo que merece remissão? Algo que foi fantasia alguns anos atrás e que rendeu piadinhas por homens que odeiam mulheres merece remissão? Uma pessoa que usa a sua condenação como palco tem que ter remissão?
Eu poderia citar aqui diversos autores, trabalhos acadêmicos, pinturas, ideias, diagramas. Nada seria o suficiente para demonstrar a minha profunda consternação frente a esse caso. É um escárnio em cada uma de nós mulheres e me lembrou uma conversa que tive com a minha mãe. Estávamos conversando sobre a vida e ela me falou “Jade, quando uma mulher apanha, todas nós apanhamos. Não porque sofremos a violência fisicamente, mas porque todas nós falhamos, porque algo aconteceu que levou aquela mulher a apanhar”. E assim que eu me senti com relação a essa contratação pífia. Cada uma de nós mulheres morreu um pouco por dentro com essa contratação, mesmo as que acham que por serem conservadoras estão imunes a sofrerem alguma violência de gênero. Quando uma pessoa como ele vence, TODAS nós sofremos.
Isso me lembra o livro O Conto da Aia de Margaret Atwood — ao longo de todo o livro, somos expostas ao que a personagem Offred — ou June sofre. Todas as violências, humilhações, tentativas de mudar o sistema, tudo o que ela sofre em nome da autocracia de Gillead. O que eu gostaria de destacar aqui não é o livro — tão falado —, mas sim o epílogo. Ele acontece anos após a dissolução de Gillead em um simpósio universitário, onde fazem as leituras dos diários de June, e em um determinado momento os pesquisadores começam a duvidar do que a personagem trás em suas palavras. Começam a duvidar do que ela diz ali viver. Em um determinado momento, as pessoas ali presentes começam a questionar se realmente isso acontecia em Gillead — se era “tão ruim assim”. Isso só confirma que Jacques Lacan teve a mais célebre das frases quando disse que “só se fala a verdade através das malhas da ficção”.
Para finalizar essa conversa agora — e não pensem que é porque não tenho mais o que falar, mas sim porque uma conversa acontece por etapas —, eu queria expressar o meu total desprezo pela contratação dessa pessoa ao cargo de goleiro do Vasco da Gama AC, pela entrevista pífia de uma pessoa que se diz treinador de um time de futebol, que não devia usar o palanque que tem para revitimizar uma mulher que sofreu um estupro coletivo. É desolador que estejamos sendo obrigadas a, mais uma vez, mostrar que o absurdo é um absurdo.
A todas as mulheres que já sofreram qualquer tipo de violência, eu me solidarizo por vocês. Não é e nem nunca foi sua culpa.
E se você se encontra em uma situação de violência, aqui vão alguns contatos:
A PM do Acre disponibiliza os seguintes números para denunciar casos de violência contra a mulher:
- (68) 99609-3901
- (68) 99611-3224
- (68) 99610-4372
- (68) 99614-2935
Veja outras formas de denunciar:
Disque 180: Central de Atendimento à Mulher
Polícia Militar – 190: para quando a violência está acontecendo ou há alguma lei sendo violada;
Samu – 192: para pedidos de socorro urgentes;
Delegacias especializadas no atendimento de crianças ou de mulheres;
Qualquer delegacia de polícia;
Delegacia especializada de Atendimento à Mulher (Deam) – Rio Branco – Telefone: (68) 3221-4799 / 99988-2610 Delegada Elenice / 99979 0517 (Delegada Kelcinaira).
Secretaria de Estado da Mulher (Semulher): recebe denúncias de violações de direitos da mulher no Acre. Telefone: (68) 99930-0420. Endereço: Travessa João XXIII, 1137, Village Wilde Maciel.
Disque 100: recebe denúncias de violações de direitos humanos. A denúncia é anônima e pode ser feita por qualquer pessoa;
Profissionais de saúde: médicos, enfermeiros, psicólogos, entre outros, precisam fazer notificação compulsória em casos de suspeita de violência. Essa notificação é encaminhada aos conselhos tutelares e polícia;
WhatsApp do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: (61) 99656- 5008;
Ministério Público: Centro de Atendimento à Vítima (CAV) – Telefone: (68) 3212-2062 / 9993 04701






