Evento em Rio Branco integra agenda nacional que marca dois anos da tentativa de golpe e propõe debate sobre extremismo, soberania do voto e desafios democráticos na Amazônia
Três anos após a invasão às sedes dos Três Poderes, em Brasília, atos em todo o país marcam nesta quinta-feira (8) a defesa do Estado Democrático de Direito e a preservação das liberdades civis. A data rememora os ataques golpistas de 8 de Janeiro de 2023, quando grupos extremistas contestaram o resultado das eleições presidenciais de 2022 e tentaram romper a ordem institucional.
No Acre, a mobilização ocorre a partir das 17h, no Auditório da Adufac, no campus da Universidade Federal do Acre (Ufac), em Rio Branco. Organizado por entidades políticas, sindicais, estudantis e movimentos sociais, o ato integra a jornada nacional e traz como tema “8 de janeiro – Brasil soberano: liberdade e dignidade aos povos”.
A proposta é discutir os desdobramentos políticos, jurídicos e sociais do 8 de janeiro, o enfrentamento ao extremismo antidemocrático e os desafios permanentes para o fortalecimento da democracia.
O debate busca relacionar o cenário nacional à realidade amazônica e acreana, marcada por lutas sociais e ambientais e também impactada pela circulação de discursos autoritários e pela desinformação.
A atividade terá formato aberto, sem mesa formal, com falas iniciais de professores universitários, pesquisadores, militantes de movimentos sociais e representantes da juventude. Em seguida, o microfone será aberto ao público.
A programação prevê ainda manifestações culturais espontâneas, como música e poesia, como forma de ampliar o diálogo e ocupar o espaço público.
Segundo a organização, lembrar o 8 de janeiro vai além da memória dos ataques às instituições. O objetivo é reafirmar o compromisso coletivo com a democracia, a soberania do voto popular e a dignidade dos povos brasileiros, com atenção especial à Amazônia.

Agenda nacional
Em Brasília, a mobilização foi marcada para a Via N1, em frente ao Palácio do Planalto, nas proximidades da Praça dos Três Poderes, que passa por reformas após os ataques de 2023. A concentração iniciou às 8h. A organização informou que haverá acesso por ponto único de credenciamento e revista, com protocolos de segurança reforçados.
Está prevista uma cerimônia simbólica no Palácio do Planalto, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), representantes de partidos, movimentos sociais e centrais sindicais. Um telão deve transmitir a solenidade para o público do lado de fora, e um caminhão de som será instalado próximo à rampa presidencial.
Com o lema “em defesa da democracia, sem anistia para golpistas, pelo veto ao PL da dosimetria”, os atos também incorporam críticas ao Projeto de Lei da Dosimetria, aprovado pelo Senado em dezembro e atualmente sob análise para sanção presidencial.
Especialistas e entidades da sociedade civil apontam que o texto altera o cálculo das penas para crimes como tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado, com redução do tempo mínimo em regime fechado e possibilidade de progressão mais rápida.
Críticos da proposta afirmam que a mudança pode resultar em abrandamento das punições aplicadas pelo Supremo Tribunal Federal após os ataques de 2023 e beneficiar condenados por crimes contra a democracia. O governo federal ainda não se manifestou oficialmente sobre eventual veto.
Ataques golpistas
As imagens da depredação das sedes dos Três Poderes da República, em 8 de janeiro de 2023, que completa três anos nesta quinta-feira (8), correram o mundo e entraram para a história como um dos episódios mais graves da trajetória democrática brasileira.
Numa tarde de domingo, milhares de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), derrotado nas urnas dois meses antes, marcharam pela Esplanada dos Ministérios, romperam barreiras de segurança e invadiram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal (STF), promovendo destruição generalizada.
O objetivo dos manifestantes era explícito. Pediam um golpe de Estado que depusesse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), eleito democraticamente e empossado havia apenas uma semana. O episódio marcou o ponto culminante da chamada trama golpista, um conjunto de ações articuladas para romper a ordem democrática e manter o grupo bolsonarista no poder.
De acordo com a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), que resultou na condenação de Jair Bolsonaro e aliados pelo Supremo Tribunal Federal, o plano começou a ser desenhado ainda em 2021, após Lula recuperar seus direitos políticos. Desde então, passaram a ser estimuladas ações de deslegitimação do sistema eleitoral e ataques reiterados às instituições, especialmente ao STF.
Após a derrota eleitoral de Bolsonaro no segundo turno de 30 de outubro de 2022, o movimento ganhou corpo. Na mesma noite da divulgação do resultado, apoiadores iniciaram bloqueios em rodovias federais em diversos estados. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) chegou a mapear mais de mil interdições totais ou parciais, que causaram transtornos no abastecimento e no transporte aéreo.
Os bloqueios perderam força apenas após Bolsonaro pedir publicamente a liberação das estradas, sem, no entanto, reconhecer a vitória do adversário.
Com o enfraquecimento das interdições, o foco do movimento se deslocou para os acampamentos montados em frente a quartéis das Forças Armadas em várias capitais e cidades do interior. Foram mais de cem estruturas espalhadas pelo país, com destaque para o acampamento em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília, de onde partiram os manifestantes que invadiram a Praça dos Três Poderes. Segundo a PGR, esses acampamentos contaram com aval do então presidente da República e funcionaram como centros de articulação golpista.
Em dezembro de 2022, a escalada chegou à violência política aberta. No dia 12, data da diplomação de Lula, manifestantes tentaram invadir a sede da Polícia Federal em Brasília e incendiaram carros e ônibus, em uma das noites mais violentas da capital federal em décadas. Poucos dias depois, na véspera de Natal, uma tentativa de atentado a bomba nas proximidades do Aeroporto Internacional de Brasília foi frustrada após falha no artefato explosivo. A investigação apontou envolvimento de integrantes do acampamento golpista do QG do Exército.
Apesar do clima de tensão, a posse presidencial, em 1º de janeiro de 2023, ocorreu sem intercorrências. A sensação de normalidade durou pouco. Exatamente uma semana depois, os ataques de 8 de janeiro evidenciaram que a ameaça à democracia permanecia ativa, resultando em um dos episódios mais simbólicos e traumáticos da história política recente do país.
Serviço
- O quê: Ato e debate “8 de janeiro – Brasil soberano, liberdade e dignidade aos povos”
- Onde: Auditório da Adufac, campus da Ufac, Rio Branco
- Quando: Quinta-feira, 8 de janeiro, a partir das 17h
- Entrada: Gratuita e aberta ao público


