Escrever sobre a feiura de uma cidade é sempre delicado, sobretudo quando se vive nela, quando se constrói ali a própria memória e se aprende a amá-la apesar de suas contradições. A feiura, ao contrário do abandono puramente material, atinge algo mais profundo: corrói o imaginário coletivo, enfraquece o vínculo simbólico entre as pessoas e o lugar onde vivem. E, quando essa feiura não é acidental, mas resultado de escolhas reiteradas, ela deixa de ser apenas um problema urbanístico para torna-se um problema político.
Rio Branco sempre viveu entre dois impulsos: o da precariedade estrutural (comum às capitais amazônicas) e o da invenção simbólica. Houve um momento em que a cidade decidiu narrar a si mesma como parte da floresta. Essa narrativa se materializava em cores terrosas, em equipamentos culturais, em espaços públicos que evocavam memória, em uma arquitetura que buscava dialogar com o entorno amazônico, ainda que de forma imperfeita. Era um projeto de pertencimento.
A estética, como nos ensina a tradição filosófica desde Kant até os debates contemporâneos sobre a imagem urbana, não é ornamento. É forma de organizar o mundo. É política tornada visível. As cores que revestem uma repartição pública, o modo como uma praça é ocupada, o cuidado com a paisagem histórica, tudo isso comunica valores. Uma cidade é, antes de tudo, uma pedagogia visual.
Nos últimos anos, sob a gestão do atual prefeito, Tião Bocalom, a capital acreana tem assistido a uma sucessão de intervenções que não se intimidam em alterar espaços históricos e desconsiderar a dimensão simbólica desses lugares. A padronização cromática, especialmente o uso insistente de um azul que ignora a paleta amazônica, não é uma escolha neutra. Há ali a imposição de uma marca sobre a memória coletiva. É o poder assinando a paisagem.
Da mesma forma, as tendas improvisadas, mal posicionadas, que encobrem fachadas e monumentos, revelam uma compreensão utilitarista do espaço público. A cidade deixa, cada vez mais, de ser cenário de convivência e passa a ser suporte provisório. A arquitetura é tratada como pano de fundo descartável, quando deveria ser vista como patrimônio.
Há ainda um elemento que merece análise mais detida: a construção de viadutos e o incentivo à verticalização como símbolos de progresso. A Prefeitura tem tratado essas intervenções como evidências incontestáveis de futuro, como se o concreto elevado e o estímulo a edifícios altos fossem, por si, indicadores de modernidade. Mas é preciso perguntar: futuro para quem? Que ideia de cidade está sendo materializada nessas escolhas?
Há um equívoco recorrente na história urbana brasileira de confundir altura com avanço, concreto com progresso, densidade com modernidade. Essa visão linear de desenvolvimento, que associa o “futuro” à estética da metrópole industrial, desconsidera que o verdadeiro avanço urbano contemporâneo passa por sustentabilidade, identidade e qualidade do espaço público.
Em Rio Branco, a insistência nesse imaginário do progresso vertical rompe com o projeto simbólico que, em outros momentos, buscou afirmar a cidade como capital da floresta. O horizonte amazônico – horizontal, amplo, respirável – é parte constitutiva de sua identidade. Alterá-lo sem debate público profundo ultrapassa o campo da decisão técnica e avança sobre a redefinição do imaginário coletivo.

Esse ponto se torna ainda mais sensível no contexto da tentativa atual de revisão do Plano Diretor do município, o principal instrumento de ordenamento urbano. A condução desse processo sem ampla participação é bastante questionável. O Ministério Público do Acre (MPAC) emitiu recomendação à Câmara Municipal de Rio Branco para que o projeto não seja aprovado sem que a população seja ouvida. A advertência é clara: revisar o Plano Diretor sem debate público compromete a legitimidade das decisões e enfraquece o princípio democrático que deve orientar a política urbana.
É evidente que gestões anteriores também cometeram erros, e foram muitos. Houve problemas de planejamento, de mobilidade, de infraestrutura. Mas, ainda assim, persistia uma tentativa de afirmar uma identidade amazônica. Havia o reconhecimento de que ser capital da floresta não era um estorvo. Ser amazônico era bonito. Era sofisticado. Era afirmação política.
A ruptura atual parece mais profunda porque é estética e, portanto, identitária. Ao negligenciar a cultura, ao enfraquecer equipamentos culturais, ao reduzir o espaço público a palco de intervenções desarticuladas, o poder público altera a paisagem e reconfigura o imaginário.
A feiura, aqui, não é mero juízo de gosto. Quando uma cidade se torna visualmente desarmoniosa, quando suas cores não dialogam com sua história, quando seus símbolos são encobertos por estruturas provisórias, instala-se uma espécie de dissonância estética. E a dissonância estética gera afastamento. As pessoas deixam de se reconhecer na cidade.
Penso que Rio Branco não precisa de monumentalidade artificial. A necessidade é reafirmar sua condição de cidade amazônica, com orgulho e inteligência. Precisa resgatar a ideia de que o espaço público é território de memória.
Uma cidade pode sobreviver à precariedade. O que ela não sobrevive é à perda de sentido.
Bento Castro.







