Saída do superintendente foi publicada em edição extra do Diário Oficial nesta quarta-feira (11); decisão ocorre após pressão interna envolvendo renovação do contrato emergencial com a empresa Ricco
O prefeito de Rio Branco, Tião Bocalom (PL), exonerou nesta quarta-feira (11) o titular da Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito (RBTrans), Clendes Villas Boas. A decisão foi publicada em edição extra do Diário Oficial e ocorre após uma semana de tensão nos bastidores da prefeitura, marcada por divergências sobre a renovação do contrato emergencial com a empresa Ricco Transporte.
Clendes estava no cargo desde janeiro do ano passado e acumulava críticas pela condução do sistema de transporte coletivo da capital, que enfrenta sucessivas crises operacionais. Segundo informações apuradas pela imprensa local, o estopim para a saída teria sido a suposta resistência do gestor em renovar o contrato emergencial com a Ricco, responsável pelo transporte público de Rio Branco. O contrato venceu no último domingo (8).
Nos bastidores, a avaliação era de que a permanência do superintendente se tornou insustentável após o impasse. Ainda na manhã desta quarta, durante coletiva no gabinete municipal, Bocalom evitou confirmar a saída iminente. Questionado sobre a situação, afirmou: “Vamos deixar quieto, eu não sei nem o que pode acontecer agora. Vamos aguardar aí para ver”.
Horas depois, a exoneração foi oficializada. Para o lugar de Clendes, foi nomeado Marcos Roberto da Silva Coutinho, também por meio de publicação no Diário Oficial.

Debate na Câmara e denúncia de coação
A possível saída do superintendente já havia sido tema de debate na Câmara Municipal. Durante sessão desta quarta-feira (11), o vereador Eber Machado (MDB) saiu em defesa de Clendes e afirmou que o gestor estaria sendo pressionado a assinar a renovação do contrato sem a realização de chamada pública.
“Precisa de uma chamada pública, mas não querem fazer. Pelo contrário, estão tirando. Isso aqui é grave. Foram tentar coagir o Clendes Villas Boas, que é superintendente da RBTrans, para que ele assinasse esse contrato sem ter essa chamada pública. Como ele não assinou, o prefeito de Rio Branco, juntamente com o Valtinho, chamaram ele lá e disseram que ele teria que pedir para sair, alegar motivos de saúde, e que depois seria colocado em outro lugar, para alguém entrar lá e assinar essa pouca vergonha que é o nosso transporte público”, afirmou.
O parlamentar classificou o caso como “gravíssimo” e pediu a atuação do Ministério Público, do Tribunal de Contas e da própria Câmara. “Eu quero pedir apoio do Ministério Público, do Tribunal de Contas e desta Casa também, para que não deixem isso continuar. O Clendes Villas Boas está sendo coagido pelo prefeito para assinar esse contrato. Se ele não assinar, já está tudo certo que ele vai sair da RBTrans. Isso é grave. Nos tempos em que estamos, não podemos aceitar isso. Isso é vergonhoso”, declarou.
A prefeitura não comentou oficialmente as acusações de coação.
Denúncias de assédio
A trajetória de Clendes à frente da RBTrans já vinha marcada por controvérsias. Em agosto, a Comissão de Defesa dos Direitos das Mulheres da Câmara de Rio Branco concluiu relatório reunindo oito denúncias de assédio moral contra o superintendente, feitas por servidoras e ex-servidoras da autarquia. O documento foi encaminhado ao Ministério Público do Trabalho (MPT-AC) e ao Ministério Público do Estado do Acre (MP-AC).
As denúncias vieram à tona após vereadores relatarem o recebimento de uma carta anônima com acusações. Posteriormente, ex-servidoras tornaram públicos seus relatos nas redes sociais. Durante sessão na Câmara, servidores afirmaram que o ambiente de trabalho era marcado por constrangimentos e perseguições. “As próprias palavras dele agem contra ele, tem que haver uma investigação”, afirmou a servidora Denise Santos.
Clendes negou as acusações por meio de seu advogado, que informou que o gestor apresentaria provas aos órgãos fiscalizadores e registraria boletim de ocorrência contra os denunciantes. O então superintendente chegou a ser convocado para prestar esclarecimentos na Câmara, mas não compareceu, alegando problemas de saúde.
À época, o prefeito Tião Bocalom saiu em defesa do aliado e afirmou que não o afastaria do cargo, mesmo após a Câmara aprovar requerimento nesse sentido. “Falei isso outras vezes, antes de acontecer [a aprovação], eu disse que não iria afastá-lo. Não é justo que comecem a criar denúncias, a princípio, denúncias sem fundamento nenhum”, declarou. Ele acrescentou: “Ele continua na gestão e sob a minha confiança. Se lá na frente tiver alguma coisa de desvio, de erros, a gente toma outras providências, mas, por enquanto não”.







