Anvisa investiga mortes suspeitas e alerta para riscos no uso de canetas emagrecedoras

Agência apura mais de 200 notificações de problemas no pâncreas em usuários de medicamentos como Ozempic, Saxenda e Mounjaro e reforça que uso sem indicação e sem acompanhamento médico amplia perigos.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou um alerta após o aumento de notificações de pancreatite em pessoas que utilizaram canetas injetáveis para obesidade e diabetes. No Brasil, estão em apuração seis mortes suspeitas e mais de 200 registros de alterações no pâncreas em pacientes que usavam fármacos como Ozempic, Saxenda e Mounjaro.

Segundo a agência, ainda não há confirmação de relação direta de causa e efeito, mas o crescimento recente das notificações levou à manifestação oficial do órgão sobre os riscos associados ao uso desses medicamentos fora da indicação e sem acompanhamento médico.

O tema ganhou repercussão internacional depois que o Reino Unido comunicou 19 mortes associadas ao uso desses medicamentos. A Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde (MHRA) britânica classificou os episódios como incomuns e raros, mas graves, incluindo quadros de pancreatite necrosante e fatal.

Especialistas explicam que a pancreatite é uma inflamação do pâncreas, órgão responsável por produzir enzimas digestivas e hormônios como a insulina. No Brasil, as causas mais frequentes da doença continuam sendo o consumo excessivo de álcool e a presença de cálculos na vesícula biliar.

“A pancreatite é uma doença importante e potencialmente grave. No Brasil, a gente tem uma média de registros de 200 mil casos por ano. Isso justamente pelo cenário de obesidade e diabetes no país”, afirma Nelton Dornellas, endocrinologista e presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

Fatores que podem aumentar o risco

De acordo com a Anvisa e com sociedades médicas, os próprios usuários das canetas já pertencem a um grupo de maior vulnerabilidade, pois convivem com obesidade, diabetes ou as duas condições, fatores associados a problemas biliares. As bulas desses medicamentos trazem alerta para a possibilidade de formação de cálculos na vesícula, situação que pode desencadear crises de pancreatite.

Outro ponto destacado é a perda de peso rápida, efeito comum desses tratamentos e reconhecido como fator de risco para a formação de cálculos biliares. Há ainda o mecanismo de ação das drogas, que retardam o esvaziamento do estômago e alteram o metabolismo dos ácidos biliares, substâncias ligadas ao processamento de gorduras e ao funcionamento do pâncreas.

“Quando falamos de canetas falsificadas a gente não sabe o que tem nessas substâncias, o controle do quanto está sendo aplicado. E isso piora quando a pessoa faz sem indicação. A dose pode ser arriscada para ela, ainda mais se ela tem algum histórico de questão no pâncreas e não está acompanhando isso”, diz Dornellas.

A Anvisa orienta a suspensão imediata do tratamento diante de qualquer suspeita de inflamação pancreática e reforça que os medicamentos devem ser usados apenas dentro das indicações aprovadas em bula, sempre com prescrição e acompanhamento médico.

Mercado paralelo preocupa

Além do uso fora da indicação, a circulação de canetas falsificadas e de origem irregular é apontada como um agravante relevante. Como se tratam de fármacos de alta complexidade e efeito prolongado, a incerteza sobre a substância e a dose aplicadas pode elevar os riscos, sobretudo em pessoas com histórico de problemas no pâncreas ou consumo frequente de álcool.

Para especialistas, esse mercado paralelo dificulta qualquer controle sanitário e expõe pacientes a perigos que não existem no uso regular supervisionado por profissionais de saúde.

A agência reguladora brasileira também recomenda que suspeitas de eventos adversos sejam notificadas aos sistemas oficiais de farmacovigilância, para que os casos sejam investigados e contribuam para a avaliação contínua da segurança desses medicamentos.

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