O medo que mora antes da chuva

Como a crise climática impacta a saúde mental na Amazônia urbana.

No domingo, 25 de janeiro de 2026, a chuva chegou a Rio Branco, capital do Acre, no fim da tarde e atravessou a noite. Na Baixada da Sobral, periferia da cidade, bastaram os primeiros minuto para que os moradores soubessem que, mais uma vez, viriam os alagamentos. Como já ocorreu diversas outras vezes, a água avançou pelas ruas, invadiu casas, subiu pelos rodapés e danificou móveis e sonhos.

Um transtorno frequente na vida de quem mora em áreas de risco e que não termina quando a água baixa. Deixa marcas profundas que se acumulam a cada novo episódio, no medo da próxima chuva, na vigília diante do céu carregado, na sensação de que tudo pode se perder outra vez.

É nesse território, entre a saída de uma enchente e a espera da próxima que a ansiedade climática se instala.

A jornalista Hellen Lirtêz cresceu convivendo com enchentes e hoje tenta nomear o medo que ficou. Foto: Juan Vicent/Proa

“Eu morei no bairro da Sobral a minha vida inteira e sofria com as enchentes para ir à escola. Ficava muito tempo fora e acabei reprovando por causa disso. Eu tinha muito medo de que chovesse de novo e de que minha vida fosse mudada, que eu perdesse tudo outra vez”, conta Hellen Lirtêz, jornalista socioambiental que vivenciou desde cedo os impactos diretos dos desastres climáticos.

As experiências ruins de Hellen não ficaram apenas nas memórias da infância. Elas atravessaram sua formação, moldaram sua relação com o território e com a própria ideia de futuro. A infância marcada pela instabilidade e pelo medo recorrente da perda deixou marcas duradouras, que hoje se refletem na forma como ela observa e narra as desigualdades ambientais.

“Em 2017, eu estava no terceiro ano do ensino médio e tivemos um vendaval muito forte. A minha casa destelhou, e eu estava dentro de casa estudando para o Enem. Fiquei tão traumatizada com a tempestade e com a chuva que não consegui ficar bem depois. Passei a ter muito medo de que chovesse novamente. Comecei a fazer jornalismo porque queria falar sobre o que não era falado, porque não se nomeava o que era aquilo. Eu sabia que tinha um nome e queria descobri-lo. Foi assim que me debrucei jornalisticamente sobre esse assunto”, explicou.

Segundo a Associação Americana de Psicologia, entre 25% e 50% expostas a um desastre climático podem desenvolver problemas de saúde mental. A entidade denomina esse sentimento de ecoansiedade ou ansiedade climática, um estado de apreensão constante diante de eventos ambientais extremos e da percepção de que eles tendem a se repetir ou piorar.

Conforme aponta a Associação, pessoas afetadas por esse estado emocional vivenciam um sofrimento agravado por sentimentos de culpa e impotência, ao perceberem que seus esforços individuais não são suficientes para conter a degradação ambiental. O acúmulo dessas frustrações deságua em um quadro de desgaste mental, sobretudo em territórios já marcados pela repetição de tragédias climáticas.

Na Sobral, esse conceito ganha corpo. Não se trata de uma inquietação abstrata com o futuro do planeta, mas de um medo concreto, assentado na memória das enchentes que alagaram casas, destruíram bens e redefiniram rotinas, além da convicção de que o risco continua à espreita.

É o que relata o comediante e criador de conteúdo Rafael Barbosa, O Faixa. Morador do bairro desde que nasceu, ele é hoje conhecido nas redes sociais por abordar os problemas socioambientais da região e denunciar a precariedade dos serviços públicos.

“Eu encontrei no audiovisual e na internet uma forma de ganhar voz. Foi aí que comecei. Ainda novo, sem nenhuma perspectiva, eu só queria ser ouvido”, afirma.

Para Rafael, porém, a urgência de falar não nasce apenas da lama que invade ruas e quintais a cada cheia. Ela se mistura a outra ferida aberta, a passagem injusta pelo sistema prisional após ter sido acusado de participar de um tiroteio. Ele só conseguiu provar que não havia cometido o crime três anos depois do encarceramento. Um intervalo que, segundo conta, deixou marcas profundas e se entrelaça à sensação permanente de abandono vivida por quem cresce em áreas vulnerabilizadas de Rio Branco.

A mesma ausência do Estado que falha em prevenir enchentes e em proteger rios e igarapés, diz, foi a que também tardou em lhe garantir justiça.

“Eu sempre vou carregar esse fardo. Sempre vou ser visto como ex-presidiário. Mas muita coisa mudou depois que saí. Percebi que as pessoas já não tinham mais a mesma mentalidade. Foi aí que comecei um avanço, falar do descaso dos gestores e governantes com a população carente. E uma das coisas em que mais bato hoje é a questão das mudanças climáticas.”

Rafael e Hellen compartilham a experiência de terem crescido em uma área marcada pela vulnerabilidade social e ambiental e de, já na vida adulta, estarem aprendendo a nomear sofrimentos psíquicos que, segundo ambos, poderiam ser amenizados com políticas públicas efetivas.

Embora muitas pessoas vivenciem a ecoansiedade sem nunca terem sido apresentadas ao termo, os impactos se manifestam de forma concreta no cotidiano.

“Não tem uma criança nesta rua que, quando começa a chover, não pare para olhar e pensar, será que vai alagar. A maioria das casas hoje tem barricadas nas portas, no banheiro, na sala, no quarto. As pessoas compram móveis novos e já os colocam sobre tijolos ou suportes de madeira para levantar, para evitar que a água estrague”, conclui Rafael.

O comediante e criador de conteúdo, Rafael Barbosa, conta que aprendeu a observar o céu antes de sair de casa e transformou isso em denúncia. Foto: Juan Vicent/Proa

O medo da enchente passa a integrar a rotina. Ele está incorporado à arquitetura das casas, à disposição dos móveis e ao olhar atento lançado ao céu a cada sinal de chuva. Um estado permanente de alerta de quem entende que a crise climática passou a habitar o presente, reorganizando a vida antes mesmo que a água chegue.

O medo que interrompe planos

A psicóloga Jade Lima explica que a ecoansiedade não é, necessariamente, uma doença diagnosticável, mas um mal-estar coletivo. Um de seus desdobramentos é a dificuldade de projetar o futuro. O medo do agravamento das mudanças climáticas tem levado pessoas a adiar planos, rever escolhas e questionar a própria possibilidade de um amanhã.

Jade Lima é psicóloga e explica os impactos das mudanças climáticas na saúde mental.

Segundo a psicóloga, esse medo do futuro é um traço comum à geração Z, jovens que cresceram aprendendo que o mundo exigia consciência ambiental, social e coletiva. Uma geração formada sob a urgência de cuidar, preservar e fazer diferente, mas que, ao mesmo tempo, foi empurrada a carregar essa responsabilidade quase sempre de forma individual.

Jade Lima explica que reduzir o consumo, fechar a torneira e repensar hábitos são gestos que carregam uma intenção coletiva, mas recaem sobre ombros individuais. O problema, segundo a psicóloga, não está nesses gestos, mas na expectativa de que eles, por si só, sejam suficientes para conter processos muito maiores, estruturais e históricos. É nesse intervalo entre a consciência e a impotência que o sofrimento começa a se desenhar.

“Nossa geração é muito marcada pelo sofrimento da incerteza. Existe ansiedade quando a gente pensa, meu Deus, o mundo está acabando, e o que eu vou fazer. Será que eu vou ter filhos. Vai existir mundo depois. Esse sofrimento vem muito desse momento individualista que o sistema cria para a gente.”

A fala da psicóloga revela que, para muitos, não é apenas o planeta que parece ameaçado, mas a própria ideia de continuidade. O trabalho, os projetos, os vínculos e até a decisão de ter filhos passam, inevitavelmente, por uma pergunta inquietante sobre a existência de um mundo capaz de acolher as próximas gerações.

Pertencer para não adoecer

Nesse cenário, os coletivos surgem como contraponto à solidão desse sofrimento. Diante de um futuro que assusta, esses espaços de organização tornam-se lugares de respiro, pertencimento e reconstrução de sentido.

Na Amazônia, esse movimento ganha contornos próprios, atravessado por desigualdades históricas, urgências ambientais e múltiplas formas de organização social. É nesse contexto que surgem iniciativas que unem pesquisa, mobilização e articulação entre juventudes, saberes acadêmicos e experiências comunitárias.

Entre essas vozes está a da jovem Thalita Vasconcelos, cientista social que atua no Comitê Chico Mendes, espaço de mobilização e catalisação de soluções voltadas para a Amazônia. A partir de sua vivência, ela traz uma perspectiva que dialoga diretamente com a necessidade de ação coletiva, pertencimento e construção de futuros possíveis.

“Algo que me ajudou foi ler Futuro Ancestral, do Ailton Krenak. Ele diz que não podemos nos render à narrativa de fim de mundo, porque ela serve para destruir nossos sonhos e os sonhos dos nossos ancestrais. Depois disso, pensei que não podia deixar que roubassem nosso futuro. Essa sensação vai e volta, mas o diálogo coletivo ajuda muito. Conversar, trocar, fortalece”, declarou.

Ao recusar a ideia de fim, Thalita afirma que ouvir e compartilhar experiências não elimina o medo, mas ajuda a sustentar uma visão mais otimista mesmo diante de cenários de crise.

“A gente precisa olhar para quem está ao nosso lado, cuidar, abraçar. Essas pessoas são memória ancestral e também futuro possível. Não podemos deixar de nos amar, de cuidar do planeta e de melhorar nossa relação com a natureza. Ainda há tempo. Ainda há futuro”, conclui.

A cientista social e ativista Thalita Vasconcelos destaca o pertencimento como resposta ao medo climático. Foto: Juan Vicent/Proa
Texto de Carina Menezes – Fotos de Juan Vicent – Vídeo de Paulo Murilo – Rio Branco, Acre – 08/02/2026