Entre paredões e rótulos, o Brasil se revela

Todo começo de ano existe sempre o mesmo diálogo ligado a associar o fato de assistir ao Big Brother a ser menos inteligente do que uma pessoa que consome livros. “Desligue o BBB e vá ler um livro” e frases análogas a esta são comuns de serem ouvidas.

Mas aí eu pergunto a você, cara pessoa:

Há um lugar melhor para avaliarmos como anda a nossa subjetividade enquanto sociedade do que um espaço televisionado 24 horas por dia, onde pessoas estão expostas a uma intensa convivência e precisam provar a sua importância para milhares de desconhecidos em nome de um valor em reais que mudaria suas vidas e as de seus entes queridos?

Todos os anos o BBB segue sendo o espelho de situações que ainda acontecem no Brasil de verdade. E hoje eu quero perguntar pra você: o que é um analfabeto?

De acordo com o dicionário de Oxford, analfabeto é “aquele que não sabe ler nem escrever” ou “aquele que não tem instrução primária”, e vamos partir desse conceito para as demais coisas que vou elaborar.

Quando Edilson Capetinha — um homem preto, mas que entrou como camarote, tem um local de ídolo por ser um grande jogador de futebol de um consagrado time brasileiro — chama Leandro Boneco de analfabeto, não é só o ímpeto de falar do jogo dele, mas a incessante vontade de mostrar que ele, Edilson Capetinha, é melhor, que ele venceu, que ele tem todo o preparo para estar ali, que ele merece aquele lugar mais do que o outro.

Tanto que, quando Boneco responde “sim, eu fui analfabeto até a minha adolescência”, Edilson logo corrige para analfabeto de jogo, querendo dizer que o problema não era falta de conhecimento, mas que Leandro não tinha a visão de jogo “correta”.

O que é irônico, afinal Leandro, aqui fora, é parabenizado por sua exímia visão de jogo e olhar afiado, preparado para saber o que e como falar, tanto que sua resposta foi imediata.

Nesse momento, eu fico pensando em ocasiões em que esse estigma foi colocado em uma pessoa, e não tem como não pensar no presidente Lula, que foi o primeiro homem sem um diploma universitário a ser eleito presidente da República, referindo a si mesmo e a José de Alencar como a primeira “dupla de analfabetos” a assumir a presidência do Brasil.

E isso me lembra das pessoas que não concordam com a agenda política de Lula e como elas têm prazer em dizer que ele é um analfabeto, que não tinha como ele ter sido eleito presidente, que isso é uma vergonha.

Mais uma vez, o prazer de julgar a importância e a capacidade de uma pessoa com base no conhecimento técnico e acadêmico, que ainda é de difícil acesso a uma parte da população brasileira.

Dominique, a companheira de Leandro, fez um vídeo falando sobre o processo de alfabetização de seu parceiro e como ele aconteceu com o auxílio dela, e falou sobre como a alfabetização de jovens e adultos ainda é algo que ocorre com frequência no Brasil, por diversos fatores.

Mas estamos falando de BBB, não de coisa séria!

Após o embate com Boneco, Edilson Capetinha começou a ensaiar sua desistência do reality show da Globo, alegando questões do jogo, mas percebendo que, sim, sua fala teria impactado as pessoas e que não seria o impacto que ele procurava.

Naquele momento, para esta que vos fala, Edilson não pareceu triste porque havia dito algo infeliz para seu colega de confinamento, mas sim porque falou algo infeliz que pegaria mal para o público, e isso poderia fazer mal à sua imagem.

E aí eu pergunto de novo a vocês: como assistir a um programa como este e não perceber que, em horário nobre na TV Globo, passa um grande documentário sobre a nossa sociedade brasileira, onde homens acham que são melhores uns do que os outros porque tiveram acesso e “mereceram” crescer, frente a outros que não tiveram nem mesmo a escolha de não ter?

Eu penso que, se quem é intelectual de verdade tem que desligar a TV para ler um livro, prefiro não ser intelectual e desligar meus livros para ler a TV!

Abraços,

Jade.

Jade Lima é psicóloga pela Faculdade Santana, de Ponta Grossa (PR). Milita no Instituto Mulheres da Amazônia (IMA), no Movimento Articulado de Mulheres da Amazônia (MAMA), no Levante Feminista do Acre e no Levante Feminista Nacional. Pesquisa violência de gênero e alternativas econômicas, tendo publicado um artigo sobre economia solidária na promoção dos direitos das mulheres. Escreve desde os 9 anos, transitando pela poesia, contos, romances e fantasia. Acredita que a escrita é uma poderosa ferramenta de organização mental e que deve ser acessível a todas as pessoas.

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