Acre lidera taxa de feminicídios no país em 2025, com 14 mulheres assassinadas

Alta de 75% em relação a 2024 coloca o estado no pior patamar da última década e expõe padrão de violência doméstica recorrente.

O Acre encerrou o ano de 2025 como o estado brasileiro com a maior taxa proporcional de assassinatos contra mulheres, estimada em 1,58 caso por 100 mil habitantes, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Ao todo, 14 feminicídios foram registrados no estado.

O número representa um aumento de 75% em relação a 2024, quando foram contabilizados oito casos, e recoloca o estado acreano no pico da série histórica dos últimos dez anos, repetindo os patamares de 2016 e 2018, também com 14 ocorrências.

Desde 2015, quando a Lei do Feminicídio passou a tipificar o crime de forma específica, o Acre já soma 122 mulheres mortas por violência de gênero. A marca de 100 vítimas foi ultrapassada em 2023.

No ranking nacional por números absolutos, o Acre aparece à frente de estados como Amapá, com nove casos, e Roraima, com sete. O cenário local acompanha uma escalada nacional.

Em todo o país, 2025 foi o ano mais letal desde a sanção da lei, com 1.470 feminicídios registrados, uma média próxima de quatro mulheres assassinadas por dia. O total ainda pode ser maior, já que estados como São Paulo não haviam atualizado completamente os dados de dezembro no sistema federal até o fechamento do levantamento.

Os dados podem ser visualizados no portal do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp).

Mulheres protestam contra a violência de gênero, em Rio Branco, no Acre. Foto: Carina Castelo Branco/Proa

Perfil das vítimas e padrão dos crimes

Os dados da plataforma Feminicidômetro, do Ministério Público do Acre (MPAC), revelam um padrão que se repete ao longo do ano. Quase todas as vítimas foram mortas por companheiros ou ex-companheiros, em contextos marcados por histórico de violência doméstica. Em muitos casos, os crimes ocorreram dentro de casa ou na frente dos filhos.

Das 14 mulheres assassinadas em 2025 no Acre, 92% eram pretas ou pardas, 71% tinham filhos e metade se dedicava ao trabalho doméstico. A faixa etária mais recorrente foi entre 40 e 44 anos. Nove vítimas morreram a golpes de faca, quatro por arma de fogo e uma após agressões com uma tábua de cortar carne.

Rio Branco concentrou o maior número de casos, com quatro feminicídios. Cruzeiro do Sul e Tarauacá aparecem em seguida, com dois registros cada. Quase todos os autores estão presos. Permanecem sem responsabilização penal direta os casos em que os suspeitos morreram após o crime ou seguem foragidos.

Entre 2018 e novembro de 2025, o estado registrou ao menos 91 feminicídios consumados e 158 tentativas, segundo o Feminicidômetro.

O crime de feminicídio foi tipificado em março de 2015 e se caracteriza quando o assassinato envolve violência doméstica e familiar ou menosprezo e discriminação à condição de mulher. As penas variam de 12 a 30 anos de prisão.

No Acre, denúncias de violência contra a mulher podem ser feitas à Polícia Militar pelo 190 em casos de risco imediato, às delegacias especializadas ou à Secretaria de Estado da Mulher. O Disque 100 recebe denúncias de forma anônima, e profissionais de saúde têm obrigação legal de notificar suspeitas de violência.

Relembre os 14 feminicídios registrados no Acre em 2025

17 de janeiro, Graziely Lima de Oliveira, 19 anos, Mâncio Lima. Assassinada a facadas pelo ex-namorado Pedro Tarik, de 23 anos, que confessou o crime e foi pronunciado a júri popular.

9 de abril, Janice da Rocha Lima, 41 anos, Rio Branco. Morta a tiros pelo ex-marido Francisco Gilberto Gomes, conhecido como “Ceará”, que foi encontrado morto dias depois.

11 de junho, Auriscléia Lima do Nascimento, 25 anos, Capixaba. Assassinada a golpes de terçado pelo marido Natalino do Nascimento Santiago, de 50 anos, condenado a 50 anos, oito meses e 13 dias de prisão.

13 de junho, Luana Conceição do Rosário, 45 anos, Senador Guiomard. Morta a facadas em via pública pelo ex-marido José Rodrigues de Oliveira, de 54 anos, condenado a 52 anos e seis meses de prisão.

14 de julho, Maria José de Souza, 39 anos, Tarauacá. Assassinada a facadas pelo ex-companheiro Josimar de Amorim Silva, de 41 anos, que segue preso preventivamente.

20 de agosto, Erilene da Silva Costa, 34 anos, Tarauacá. Morta a facadas pelo marido Domingos dos Santos Oliveira, de 31 anos, que confessou o crime.

26 de agosto, Ivanilde Souza da Silva, 42 anos, Rio Branco. Assassinada dentro de casa com golpes de tábua de cortar carne pelo marido Gerbeson do Nascimento Soares, de 26 anos, preso no dia seguinte.

23 de setembro, Maria José de Oliveira, 51 anos, Cruzeiro do Sul. Morta a facadas pelo ex-marido Raimundo Prudêncio da Silva, de 61 anos, preso em flagrante, mesmo com medida protetiva em vigor.

27 de setembro, Ionara da Silva Nazaré, 29 anos, Rio Branco. Assassinada a tiros pelo ex-companheiro Reginaldo de Freitas Rodrigues, de 56 anos, ex-tenente da Polícia Militar, preso e denunciado por feminicídio.

19 de outubro, Elizete de Amorim Malveira, 39 anos, Feijó. Morta com tiro de espingarda pelo marido Elizangelo Sousa da Silva, de 39 anos, preso em flagrante.

24 de outubro, Maria Luceleide de Oliveira, 57 anos, Cruzeiro do Sul. Assassinada a facadas pelo companheiro Luiz Henrique da Silva, de 44 anos, que teve a prisão preventiva decretada.

25 de outubro, Cibelly Silva Rodrigues, 18 anos, Porto Acre. Assassinada a facadas pelo marido Francisco Jeremias, de 39 anos, que se suicidou após o crime.

30 de novembro, Josie Silva da Costa, 42 anos, Bujari. Morta com tiro de espingarda pelo companheiro Gilberto da Cruz Ribeiro, de 50 anos, preso no mesmo dia.

13 de dezembro, Maria da Conceição Ferreira da Silva, 46 anos, Rio Branco. Encontrada morta dentro de casa. O principal suspeito é o companheiro Antônio José Barbosa Pinto, de 54 anos, que segue foragido após romper a tornozeleira eletrônica.

Canais de denúncia

Polícia Militar e emergência

  • Disque 190 (situação de risco imediato)

Delegacias e atendimento especializado

  • Delegacias especializadas no atendimento à mulher (endereços e horários variam conforme município; recomenda-se consultar a Secretaria de Estado da Mulher ou as prefeituras locais para detalhes)

Secretaria de Estado da Mulher (Semulher)

  • Telefone (WhatsApp/ligação): (68) 99930-0420
  • Endereço: Travessa João XXIII, 1137, Village Wilde Maciel, Rio Branco, AC

Disque denúncia nacional e proteção de direitos humanos

  • Disque 100 (violação de direitos humanos, atendimento anônimo) — funciona em todo o Brasil

Ministério da Mulher, Família e dos Direitos Humanos

  • WhatsApp: (61) 99656-5008 (linha de apoio e acolhimento nacional)

Força-tarefa de proteção à mulher — Patrulha Maria da Penha (PMAC)

  • Contatos disponibilizados pela Polícia Militar do Acre (para orientação e acionamento de equipes especializadas):
    (68) 99609-3901
    (68) 99611-3224
    (68) 99610-4372
    (68) 99614-2935

Serviços de saúde com notificação compulsória

  • Qualquer unidade de saúde — médicos, enfermeiros, psicólogos e outros profissionais têm obrigação legal de notificar casos suspeitos de violência.
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