Fé, memória e tradição marcam o principal ato religioso da maior festa católica do município, que há mais de um século mobiliza gerações.
A fé tomou as ruas de Xapuri na tarde desta terça-feira, 20, durante a procissão que marcou o encerramento do novenário de São Sebastião, padroeiro do município. Milhares de fiéis de diferentes comunidades participaram do percurso, considerado o momento mais simbólico da maior festa religiosa da cidade e uma das mais tradicionais do Acre.

Celebrado pela Igreja Católica como mártir, São Sebastião é lembrado pela fidelidade à fé cristã em um período de perseguições. Em Xapuri, a devoção ao santo atravessa gerações e se confunde com a própria história do município, onde o padroeiro sempre foi visto como símbolo de resistência, proteção e esperança em tempos de dificuldade.

A procissão teve início por volta das 16h30 e percorreu ruas históricas dos bairros Bolívia e do Centro da cidade. Em silêncio, oração e cantos, moradores, romeiros e visitantes acompanharam a imagem do santo até a bênção solene, que encerrou o momento religioso.
O prefeito de Xapuri, Maxsuel Maia, destacou a dimensão da festa e a presença de fiéis de diferentes regiões. “Nós estamos tendo esse ano um dos maiores e melhores festejos de São Sebastião, de 20 de janeiro. A cidade está lotada. A gente preparou uma estrutura com muito carinho para atender os xapurienses, os romeiros que vêm de fora. E a nossa procissão é esse grande ato de encerramento que reúne esse momento de fé, muitos fiéis. E, assim, gente encerra os festejos de São Sebastião do ano de 2026 com o coração cheio de gratidão por todos que vieram nos visitar”.

Entre os participantes, histórias pessoais se misturaram à devoção coletiva. Manoel Lima percorreu todo o trajeto descalço, como faz todos os anos, para cumprir uma promessa feita pela mãe quando ele ainda era criança. “Eu pago promessa, todo ano eu tenho que acompanhar a procissão, nesse formato que eu estou. Por causa de uma doença de criança que eu peguei, minha mãe fez uma promessa e até hoje eu pago ela”.

A procissão também foi marcada pela memória e pela história de Xapuri. Raimundo Medes, o Raimundão, referência na luta socioambiental no Acre e primo de Chico Mendes, acompanhou o cortejo ao lado do irmão e relembrou a infância nos seringais.
“Faz eu me lembrar, junto aqui com o meu mano, quando nós era criança, que saía daqui do Seringal Filipina, da colocação tabocal, nós tudo pequenininho, acompanhando a nossa mãe, e vinha acompanhar a procissão. Minha mãe era, assim, assídua dessa festa de São Sebastião. Então faz muito me lembrar dessa época e a minha trajetória de jovem aqui em Xapuri, junto com eles. E eu me sinto muito à vontade, muito feliz, de hoje meus 81 anos, e ele com 83, estarmos juntos aqui, acompanhando a procissão, que era de costume quando nós crianças, como eu já me referi. Recordar o passado e o presente, né? E é sempre uma alegria pra nós. São Sebastião nos inspira”.

O padre Antônio Menezes ressaltou a importância histórica e religiosa do festejo. “É a terceira maior festa do Acre e a segunda maior festa da Diocese de Rio Branco, a festa de São Sebastião em Xapuri. O Alto Acre todo bebe desta fonte. Mais de 120 anos de história, mais de 120 anos de homens e mulheres bebendo desta fonte, dessa espiritualidade. Para você ter ideia, no início aqui das primeiras novenas de São Sebastião, no início da nossa igreja, aqui não tinha médico, não tinha padre, aqui não tinha escola. Então, São Sebastião era tudo. Era o professor, era o médico, todo mundo apelava para ele. Hoje, nem todo mundo entende o porquê dessa história, mas é uma história linda, uma história de conexão com Deus, com a espiritualidade, com o outro”.

Após a procissão e a bênção solene, a programação seguiu com um jantar comunitário às 18h, além da quermesse e o tradicional leilão de gado, que reuniu fiéis e visitantes. A festa, iniciada na última sexta-feira (16), foi concluída na noite desta terça com o show do padre Erenildo, fechando mais um ciclo de fé, tradição e memória em Xapuri.
São Sebastião
A história de São Sebastião, venerado como mártir pela Igreja Católica, remonta ao século 3. Nascido por volta do ano 256, no Império Romano, Sebastião teria se alistado no exército com o objetivo de ajudar cristãos perseguidos, atuando de forma discreta dentro da estrutura militar. Descoberta sua fé, foi condenado à morte por ordem do imperador Diocleciano.
Segundo relatos hagiográficos, São Sebastião sofreu um duplo martírio. Na primeira condenação, foi amarrado a um tronco e alvejado por flechas, episódio que marcou sua iconografia ao longo dos séculos. Considerado morto, teria sobrevivido após ser socorrido por cristãos. Recuperado, decidiu confrontar novamente o imperador, reafirmando sua fé, o que resultou em uma segunda execução, desta vez por espancamento, em 20 de janeiro de 286.
Desde os primeiros séculos do cristianismo, São Sebastião passou a ser venerado como símbolo de coragem, fidelidade e resistência. A ele também são atribuídas intercessões contra epidemias, o que reforçou sua devoção popular em diferentes partes do mundo. No Brasil, tornou-se padroeiro do Rio de Janeiro após a expulsão dos franceses em 1567, ocorrida no dia dedicado ao santo.
Em Xapuri, essa devoção ganhou raízes profundas e atravessa mais de um século, mantendo viva uma tradição que une fé, memória e identidade coletiva. No Acre, o santo também é celebrado em Rio Branco, Epitaciolândia, Jordão, Marechal Thaumaturgo entre outros municípios.
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