Mudança no discurso: Trump recua sobre acusação de que Maduro chefiava cartel de drogas

Nova denúncia do governo norte-americano abandona tese de comando direto do suposto cartel e reformula linguagem usada contra o ex-presidente venezuelano.

O governo dos Estados Unidos recuou na acusação contra Nicolás Maduro ao deixar de atribuir a ele a liderança do chamado Cartel de Los Soles e ao relativizar a própria existência do grupo como uma organização criminosa estruturada. A mudança consta em uma versão reescrita da denúncia apresentada pelo Departamento de Justiça norte-americano contra o presidente deposto da Venezuela, segundo análise do jornal The New York Times.

O novo documento representa mudança no discurso adotado pelo governo Donald Trump, especialmente se comparada à acusação original apresentada em 2020, quando Maduro foi descrito como “chefe de uma organização terrorista narcotraficante”. À época, Washington sustentava que o Cartel de Los Soles operava como um cartel de drogas clássico, liderado diretamente pelo então presidente venezuelano.

Ao longo de 2025, em meio à escalada de tensões políticas e militares entre os dois países, os Estados Unidos reforçaram publicamente essa narrativa, classificando o Cartel de Los Soles como um cartel de drogas comandado por Maduro.

O discurso culminou, no último sábado (3), em uma operação militar em Caracas que resultou no sequestro de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, ação considerada sem precedentes nas últimas décadas na América Latina e amplamente repudiada pela comunidade internacional.

Mudança de tom na denúncia

Na nova versão da acusação, divulgada no mesmo dia da operação, o Departamento de Justiça abandona a afirmação de que Maduro lideraria o suposto cartel. Em vez disso, passa a acusá-lo de “participar, proteger e perpetuar uma cultura de corrupção baseada no enriquecimento por meio do tráfico de drogas”, além de lucrar politicamente com esse sistema.

Apesar da mudança de linguagem, Maduro continua respondendo a quatro acusações relacionadas ao narcoterrorismo nos Estados Unidos:

  • conspiração para o narcoterrorismo;
  • conspiração para o tráfico de cocaína;
  • posse de metralhadoras e dispositivos explosivos;
  • conspiração para posse de armas de uso restrito destinadas ao narcotráfico.

Já o Cartel de Los Soles, que havia sido designado como organização terrorista internacional pelo Departamento de Estado em novembro, aparece apenas duas vezes no novo texto e é descrito como um termo “guarda-chuva” para práticas de narcotráfico associadas à elite política e militar venezuelana.

Segundo o Departamento de Justiça, trata-se de um sistema de clientelismo no qual “os lucros da atividade ilegal fluem para oficiais civis, militares e de inteligência corruptos, em diferentes níveis, operando sob a proteção das altas esferas do poder”, em referência ao símbolo do sol presente nos uniformes de oficiais de alta patente das Forças Armadas venezuelanas.

“O réu, Nicolás Maduro Moros — assim como o ex-presidente Chávez antes dele — participa, perpetua e protege uma cultura de corrupção na qual as elites poderosas da Venezuela se enriquecem por meio do tráfico de drogas e da proteção de seus parceiros traficantes. Os lucros dessa atividade ilegal fluem para oficiais civis, militares e de inteligência corruptos de diferentes níveis, que operam em um sistema de clientelismo comandado pelos que estão no topo — conhecido como Cartel de Los Soles ou Cartel do Sol, em referência ao símbolo do sol afixado nos uniformes de oficiais militares venezuelanos de alta patente”, afirmou o Departamento de Justiça.

Um cartel sem hierarquia definida

A própria existência do Cartel de Los Soles como uma organização criminosa formal é questionada há anos por pesquisadores e especialistas em crime organizado. Analistas apontam que não há uma hierarquia clara nem uma estrutura centralizada, mas sim uma “rede de redes” formada por diferentes atores do aparato estatal venezuelano.

Para Jeremy McDermott, cofundador e codiretor do InSight Crime — fundação especializada no estudo do crime organizado nas Américas —, o Cartel de Los Soles não pode ser comparado a organizações como o Cartel de Sinaloa, no México, ou o Cartel de Medellín, na Colômbia. “Não é uma organização centralizada”, afirma.

McDermott destaca que o esquema antecede o governo de Hugo Chávez e foi se consolidando ao longo de décadas. Segundo ele, embora Maduro não seja necessariamente o líder de um cartel formal, é um dos principais beneficiários de um modelo que define como “governança criminal híbrida”.

Nesse sistema, o poder político não controla diretamente o tráfico de drogas, mas concede permissões e proteção a militares e aliados estratégicos, que, em troca, garantem sustentação ao regime. “O tráfico funciona como moeda de troca para a manutenção do poder”, explica o pesquisador.

Audiência em Nova York

Na segunda-feira (5), Maduro foi formalmente acusado em audiência no tribunal federal de Nova York. Diante do juiz, declarou-se inocente, afirmou ser vítima de um sequestro internacional e se definiu como “prisioneiro de guerra”.

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