A Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ) divulgou, neste sábado (17), uma nota de repúdio às declarações do senador Márcio Bittar (PL-AC), feitas durante entrevista à imprensa de Cruzeiro do Sul, no interior do Acre. A entidade contesta os ataques ao coordenador-geral, Francisco Piyãko, e as suspeitas levantadas sobre projetos indígenas financiados pelo Fundo Amazônia.
Na manifestação, a OPIRJ reafirma sua autonomia e esclarece que as decisões da organização são coletivas. Também lembra que os recursos do Fundo Amazônia seguem critérios institucionais de aprovação e fiscalização, não constituindo favores políticos ou privilégios pessoais.
A entidade defende um modelo de desenvolvimento que garanta infraestrutura, serviços públicos e melhores condições de vida à população, sem comprometer os territórios indígenas, a floresta, os rios e a biodiversidade.
“Os povos indígenas não são obstáculos ao desenvolvimento. Temos nossa própria visão de futuro e o direito de participar das decisões sobre o destino do Vale do Juruá”, afirma a organização.
A OPIRJ também rejeita tentativas de responsabilizar os povos indígenas pelo abandono histórico da região e cobra respeito às comunidades e aos seus direitos constitucionais.
Confira a nota de repúdio segue anexa, na íntegra:
NOTA DE REPÚDIO – OPIRJ repudia ataques do senador Márcio Bittar contra lideranças e organizações indígenas do Vale do Juruá
A Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ) manifesta seu repúdio às declarações do senador Márcio Bittar (PL-AC), que, durante entrevista à imprensa de Cruzeiro do Sul, atacou o coordenador-geral da organização, Francisco Piyãko, levantou suspeitas sobre projetos indígenas e tentou apresentar a defesa de nossos direitos como obstáculo ao desenvolvimento regional.
É inaceitável que um representante do Acre no Senado Federal utilize sua posição política para desqualificar lideranças indígenas e alimentar divisões entre comunidades que compartilham desafios históricos de acesso à saúde, educação, transporte e infraestrutura.
A OPIRJ é constituída e conduzida pelos próprios povos indígenas do Rio Juruá. Suas decisões são coletivas, tomadas por meio de instâncias legítimas de representação. Não somos instrumento de interesses individuais, familiares ou partidários. Reduzir nossa organização à figura de uma única liderança é desrespeitar a autonomia dos povos que representamos.
Também repudiamos as insinuações sobre recursos do Fundo Amazônia. Administrado pelo BNDES, o fundo possui critérios de aprovação, acompanhamento e prestação de contas. Seus recursos financiam projetos de interesse coletivo e beneficiam diferentes instituições, inclusive o Governo do Acre. Não se trata de favor político, privilégio pessoal ou concessão de qualquer autoridade. Lançar suspeitas sem apresentar provas é uma atitude irresponsável.
Defendemos um desenvolvimento que mantenha a floresta em pé, preserve a biodiversidade, proteja nossos rios e respeite os modos de vida dos povos da região. Não aceitamos que o futuro do Juruá seja reduzido a um modelo de exploração econômica que transforme nossas florestas em grandes áreas de monocultura, com a expansão desordenada do agronegócio e de lavouras de soja sobre nossos territórios.
Enfrentamos dificuldades para proteger nossos territórios e garantir melhores condições de vida às comunidades, mas isso não significa que sejamos povos miseráveis ou atrasados. Temos nossas casas, nossos roçados, nossos alimentos, nossas culturas e nossas próprias formas de viver, produzir e cuidar da natureza. Esses modos de vida precisam ser conhecidos e respeitados, não tratados como obstáculos ao progresso.
Estamos abertos ao diálogo sobre políticas públicas, estradas, pontes e demais investimentos que tragam benefícios reais à população. Entretanto, qualquer proposta precisa ser debatida com as comunidades, respeitar nossos direitos e considerar seus impactos sobre os territórios, a floresta, os rios e as formas tradicionais de vida. É preciso avaliar se esses empreendimentos contribuirão para o futuro da região ou provocarão sua destruição.
Defender nossos direitos não significa impedir o desenvolvimento. Os povos indígenas também não podem ser responsabilizados por décadas de abandono e ausência de investimentos públicos no Vale do Juruá. O futuro da região exige soluções construídas com participação, responsabilidade e respeito à Constituição Federal, inclusive ao direito à consulta livre, prévia e informada.
A OPIRJ não aceitará intimidações, acusações sem provas ou tentativas de deslegitimar suas lideranças. Reafirmamos nossa autonomia e nosso compromisso com a defesa dos territórios, das culturas e dos direitos indígenas.
Os povos indígenas não são obstáculos ao desenvolvimento. Temos nossa própria visão de futuro e o direito de participar das decisões sobre o destino do Vale do Juruá. Desenvolvimento não pode significar a destruição daquilo que garante a vida de nossos povos e das futuras gerações.
Cruzeiro do Sul, Acre, 17 de outubro de 2026.
Francisco Piyãko
Coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá – OPIRJ







