Estudantes denunciam condições precárias de escola estadual no interior do Acre: “Causa medo e insegurança”

Vídeo mostra paredes com frestas, assoalho fragilizado e danos no telhado da Escola Professor Francisco Albecir Brito da Silva, na zona rural de Cruzeiro do Sul.

Estudantes da Escola Professor Francisco Albecir Brito da Silva, localizada na comunidade Periquito, às margens do Rio Liberdade, na zona rural de Cruzeiro do Sul, no interior do Acre, utilizaram as redes sociais para denunciar as condições estruturais da unidade de ensino.

Em um vídeo, a aluna Bianca Silva percorre diferentes ambientes da escola, construída em madeira, mostra problemas nas instalações e relata situações que comprometem a segurança e as condições de aprendizagem. Na gravação, a estudante apresenta salas de aula com paredes desgastadas e grandes frestas que permitem a entrada da água da chuva, além de um assoalho fragilizado.

A aluna Bianca Silva denunciou situação precária da escola em vídeo. Foto: Reprodução

O medo de que o chão ceda ou parte da estrutura desabe faz parte da rotina relatada por Bianca. A aluna mostra pontos da construção que apresentam sinais de inclinação e desnível e conta que, em determinada ocasião, o assoalho chegou a ceder enquanto várias pessoas estavam reunidas no local.

O telhado também apresenta problemas. Segundo ela, uma árvore caiu sobre parte da cobertura, e os danos provocados pelo acidente nunca foram reparados.

Imagens mostram diversos problemas estruturais. Foto: Reprodução

Ao longo do vídeo, a estudante explica que a gravação é uma forma de mostrar a realidade de quem convive diariamente com os problemas e cobrar providências dos responsáveis pela manutenção da escola. “É uma estrutura que causa medo e insegurança, não só pra mim, mas para os outros alunos também. Estou fazendo o vídeo para que as pessoas vejam a nossa realidade, que também nos preocupa”, afirma.

Em outro momento, acompanhada de uma segunda aluna, Bianca reforça a cobrança por melhorias. “Não queremos privilégios, apenas uma escola digna para todos”, enfatizam.

Alunas reforçam que querem uma escola digna. Foto: Reprodução

Denúncias se acumulam

O episódio se soma a outras denúncias sobre as condições das escolas públicas no Acre. Uma das que tiveram maior repercussão ocorreu na comunidade Limoeiro, na zona rural de Bujari, onde estudantes chegaram a assistir às aulas em um antigo curral, em condições improvisadas.

A situação ganhou projeção nacional em junho de 2025, após reportagem exibida pelo programa Fantástico, da TV Globo. As imagens mostraram crianças estudando em um espaço sem paredes, com piso de terra batida, sem água encanada e com instalações sanitárias improvisadas. A água utilizada na escola era cedida por um vizinho.

A repercussão motivou a atuação do Ministério Público do Estado do Acre (MPAC) e a adoção de providências pelo governo estadual. As atividades chegaram a ser suspensas até que fossem asseguradas condições mínimas de funcionamento. Posteriormente, foram anunciadas adequações na estrutura, incluindo melhorias no piso, nas instalações elétricas, nos banheiros e no abastecimento de água.

A situação registrada em Limoeiro integra um cenário mais amplo de deficiências na infraestrutura escolar do Acre. É o que apontam dados divulgados neste ano pela plataforma QEdu, que reúne indicadores da educação básica brasileira a partir de informações oficiais, como as do Censo Escolar. O levantamento revelou problemas nas condições de funcionamento de centenas de unidades de ensino no estado, especialmente no acesso à água potável e a instalações sanitárias adequadas.

Segundo o levantamento, apenas 13% das escolas acreanas possuem esgoto ligado à rede pública, percentual muito abaixo da média nacional de 49%. Cerca de 37% das unidades não contam com nenhum sistema de esgotamento sanitário, proporção mais de dez vezes superior à média brasileira, de 3%.

No que se refere ao abastecimento de água potável, apenas 57% das escolas do Acre têm acesso ao serviço, enquanto a média nacional é de 96%.

O fornecimento de energia elétrica também apresenta diferenças significativas. Apenas 62% das escolas do Acre estão ligadas à rede pública, contra 96% no Brasil.

O diagnóstico também identificou deficiências no acesso à tecnologia, na infraestrutura pedagógica e nas condições de acessibilidade. Parte dessa realidade chega ao conhecimento público por meio de denúncias de professores, estudantes e moradores de comunidades.

A precariedade das condições de ensino no interior do Acre também aparece em reportagens anteriores do Na Proa da Notícia. Em 2026, o portal já mostrou problemas na estrutura da Escola Redenção, em Bujari, e dificuldades de acesso às aulas em comunidades de Feijó, onde a seca dos rios comprometeu o transporte escolar e exigiu alterações no calendário letivo.

Educação no centro de investigações da Polícia Federal

Em setembro de 2026, a Polícia Federal deflagrou a Operação Death Note, com apoio da Controladoria-Geral da União (CGU), para investigar suspeitas de fraudes em licitações, corrupção e desvio de recursos federais destinados à educação no Acre. O possível esquema teria causado prejuízo superior a R$ 30 milhões aos cofres públicos. Foram cumpridos 27 mandados de busca e apreensão em seis municípios.

Entre os contratos investigados está o fornecimento de uma solução tecnológica educacional, com pagamentos estimados em R$ 2 milhões mensais. Os órgãos de controle apuram se a ferramenta foi efetivamente utilizada pelos estudantes.

Em julho, a Operação Talha Real também investigou suspeitas de irregularidades em contratos da educação estadual financiados com recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Os contratos investigados somavam mais de R$ 51 milhões.

As investigações ainda estão em andamento, e não há relação comprovada entre as suspeitas apuradas nas operações e os problemas estruturais denunciados pelos estudantes. Os casos, entretanto, ampliam os questionamentos sobre a gestão e a aplicação dos recursos destinados à educação pública no Acre.

O outro lado

Este portal de notícias entrou em contato com a Secretaria de Estado de Educação e Cultura (SEE) para solicitar esclarecimentos sobre as condições estruturais da Escola Professor Francisco Albecir Brito da Silva. Até a conclusão desta reportagem, não houve resposta. O espaço segue aberto.

Publicidade
banner docs epop bari 01