“Fim dos tempos” ou mudanças climáticas?

Esse ano, o Rio Juruá, mais uma vez, deixou milhares de famílias desabrigadas. Todo inverno é assim. O rio entra nas casas, invade as plantações dos agricultores, desorganiza a vida, muda o caminho das coisas. Os ramais ficam quase intrafegáveis. A lama toma conta de tudo.

Depois, no verão, é o oposto: o rio seca, vem a fumaça, a dificuldade de ir e vir, de plantar, de colher, de escoar. Em alguns lugares, dá para atravessar o rio a pé onde antes só se passava de canoa.

Recordo que, no verão passado, meu pai estava no rio Valparaíso. Era época de farinhada. Conversávamos via WhatsApp. Conversa vai, conversa vem, ele começou a falar do roçado de mandioca. Quase tudo perdido. As lagartas mandarová tinham tomado conta. E o pouco que ainda resistia enfrentava outro problema: o Valparaíso estava baixo demais para transportar.

Começamos a falar sobre essas mudanças de tempos. Sobre como o inverno e o verão estavam cada vez piores. Que antigamente parecia diferente, menos severo. Que o sol parecia “mais frio”. E por aí vai…

Eu tentava explicar para ele, da forma mais didática possível, por que essas mudanças estavam acontecendo. Falava dos desmatamentos, de como isso provoca o aquecimento, altera o regime das chuvas, intensifica as cheias e as secas.

Mas, no meio da conversa, teve algo que me deixou encucada. Ele me disse:

– Mas é assim mesmo, Véa, isso é o fim dos tempos. Tá acontecendo do jeito que tá na Bíblia.

Meu pai falou de um jeito conformado, sem nenhuma revolta. E eu fiquei sem saber exatamente como responder.

Porque eu queria enfatizar que não. Que não é o fim dos tempos – pelo menos não no sentido que ele estava pensando. Que existe uma explicação para tudo isso. Que tem nome: mudanças climáticas. Que a causa disso é a ação humana, a exploração desenfreada, o desmatamento em larga escala. Que não é ele, o pequeno agricultor, responsável por esse descontrole ambiental.

Quis me vestir da ciência, da pesquisa, da academia…

Mas, enquanto eu pensava na resposta, percebi outra coisa: talvez a minha explicação não fosse suficiente. Talvez a explicação dele também não fosse exatamente sobre entender o mundo. Talvez fosse sobre suportar o mundo.

Só que isso tem me inquietado.

Porque, quando a gente chama de “fim dos tempos”, corre o risco de aceitar tudo como inevitável. Como se não houvesse o que fazer. Como se fosse destino, e não consequência.

E é aí que mora um perigo. Não no fato de acreditar, mas no fato de essa crença poder desmobilizar.

A ciência explica essas mudanças climáticas. E é urgente que explique mesmo. Nomeia, mede, projeta, alerta. Mostra que o que vivemos não é acaso, nem castigo divino: é consequência. Resultado de escolhas políticas, econômicas e históricas que concentram impacto justamente em quem menos contribui para o problema.

Mas a ciência, às vezes, não consola.

E talvez seja por isso que, em meio a esses desastres ambientais, muita gente recorra a outras formas de entendimento. Não por ignorância, mas por necessidade.

Porque, enquanto alguém lucra com a destruição em escala industrial, enquanto grandes áreas são desmatadas, queimadas e exploradas sem medida, tem gente aqui tentando sobreviver ao que sobra e, ainda por cima, acreditando que tudo isso já estava escrito nas profecias.

Eu entendo meu pai. Entendo de verdade.

Entendo que aquela fala dele não é ignorância. É uma forma de organizar o caos. De dar sentido ao que parece não ter sentido. De caber dentro de um mundo que já não cabe mais nas referências de antigamente.

Mas eu também sinto que a gente precisa ir além dessa explicação. Precisa nomear o que está acontecendo sem aliviar as responsabilidades. Precisa dizer que não é “o mundo acabando”. É um modelo de mundo que está colapsando. E esse colapso não é obra divina, é construção histórica, feita pela mão do homem, das grandes empresas, por decisões que entram nos territórios sem pedir licença.

Talvez o nosso desafio não seja escolher entre a ciência e a fé, entre os dados e a crença. Talvez seja aprender a escutar o que cada uma está tentando dizer, sem permitir que o consolo apague a urgência.

Porque, no fundo, meu pai e os cientistas estão olhando para a mesma coisa: um mundo em desequilíbrio. A diferença é que um fala em colapso climático e o outro chama de fim dos tempos.

Tem muita coisa sendo escrita agora. Nas decisões que são tomadas, nas florestas que são derrubadas, nas políticas que são escolhidas.

As eleições estão se aproximando. E, todo ano, muita gente segue “pegando passagem” nessas cheias.

O Juruá continua subindo. E a pergunta já não é só até onde o rio vai chegar. É até onde a gente vai deixar.

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