Processo volta à pauta da Corte Especial após pedido de vista; Gladson Cameli, que pretende concorrer ao Senado, anunciou que deixará o cargo em 2 de abril.
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) marcou para 15 de abril a retomada do julgamento da ação penal contra o governador do Acre, Gladson Camelí (PP), acusado de corrupção, organização criminosa e outros crimes relacionados ao desvio de recursos públicos. Caso seja condenado, ele pode perder o cargo e ficar inelegível.
O julgamento havia sido suspenso em dezembro de 2025, após pedido de vista do ministro João Otávio de Noronha, revisor do caso. Com a devolução do processo, a análise será retomada pelos ministros da Corte.
A retomada ocorre em um momento politicamente sensível. Camelí formalizou sua renúncia ao governo, com efeito a partir de 2 de abril, para disputar uma vaga no Senado nas eleições de 2026. Com isso, a vice-governadora Mailza Assis deve assumir o Executivo estadual.
A ação penal tem origem na Operação Ptolomeu, deflagrada pela Polícia Federal em 2019 para investigar um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro no Acre. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), o grupo teria desviado ao menos R$ 11,7 milhões, valor que pode ultrapassar R$ 16 milhões conforme análises posteriores da Controladoria-Geral da União (CGU).
O STJ aceitou a denúncia em maio de 2024, tornando Camelí réu. Na ocasião, o tribunal rejeitou o pedido de afastamento do cargo, mas manteve medidas cautelares como restrições de contato com investigados e bloqueio de bens.
De acordo com a acusação, o governador teria atuado como líder de uma organização estruturada em diferentes núcleos — familiar, político e empresarial — responsável por fraudar licitações e direcionar contratos públicos.
O que diz a acusação
Segundo a Procuradoria-Geral da República, o esquema envolvia principalmente contratos com empresas de engenharia, com destaque para a Murano Construções, contratada para obras viárias e edificações. Os pagamentos à empresa teriam chegado a cerca de R$ 18 milhões.
A relatora do caso, ministra Nancy Andrighi, apontou em seu voto que parte significativa desses valores não correspondia aos serviços contratados, indicando superfaturamento e desvio de finalidade.
As investigações também indicam ligação direta entre empresas contratadas e familiares do governador. Um dos pontos centrais é a participação do irmão de Camelí em empresas beneficiadas por contratos públicos.
Ainda conforme a relatora, há indícios de que recursos desviados foram utilizados para pagamento de bens pessoais, incluindo imóveis e veículos, em um esquema de lavagem de dinheiro.
O voto da relatora e a suspensão do julgamento
O julgamento teve início em 17 de dezembro de 2025, quando a ministra Nancy Andrighi apresentou voto pela condenação de Camelí. Ela defendeu:
- pena de 25 anos e 9 meses de prisão em regime inicial fechado
- pagamento de multa e indenização de cerca de R$ 11 milhões
- perda imediata do cargo de governador
Após o voto, o ministro João Otávio de Noronha pediu vista, suspendendo a análise do caso. Com a devolução do processo, o julgamento será retomado a partir do voto do revisor.
Argumentos da defesa
A defesa do governador sustenta que não há provas de interferência direta de Camelí nos processos de contratação, execução ou pagamento dos contratos investigados. Segundo os advogados, essas atribuições seriam de responsabilidade técnica de secretarias estaduais.
Também contestam a caracterização de organização criminosa, alegando que a denúncia mistura relações administrativas e familiares com suposta atividade ilícita, sem comprovação da estrutura apontada.
Além disso, a equipe jurídica destaca que o Supremo Tribunal Federal anulou parte das provas obtidas na investigação, por considerar irregular a forma como foram coletadas.
O que está em jogo
A decisão da Corte Especial pode ter efeitos diretos sobre o futuro político de Camelí. Em caso de condenação:
- ele pode perder o cargo
- pode se tornar inelegível
- poderá cumprir pena de prisão, conforme o voto já apresentado
Outro ponto sensível é a discussão sobre a competência para julgar o caso. Caso Camelí seja eleito senador, há possibilidade de o processo ser remetido ao Supremo Tribunal Federal (STF), o que pode alterar o curso da ação.
O caso é considerado um dos mais relevantes da pauta penal do STJ em 2026, tanto pelo volume de recursos envolvidos quanto pelo alcance político.







