Homenagem do Vasco-AC a investigados por estupro expõe abismo do futebol diante da violência contra mulheres

Jogadores do time acreano entraram em campo na partida contra Velo Clube, pela Copa do Brasil, carregando camisas de quatro colegas presos por estupro coletivo.

ALERTA GATILHO: o texto a seguir apresenta informações que podem causar gatilhos para quem sofre com problemas psicológicos. O Centro de Valorização da Vida (CVV) conta com mais de quatro mil voluntários em todo o Brasil. A entidade é uma associação civil sem fins lucrativos e reconhecida como de Utilidade Pública Federal desde 1973 e presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio para todas as pessoas que querem e precisam conversar. Busque ajuda pelo telefone 188. O número gratuito e válido em todo o território nacional.

A partida entre Vasco-AC e Velo Clube, pela Copa do Brasil, realizada nesta quinta-feira (19), na Arena da Floresta em Rio Branco, deveria ser apenas mais um jogo do calendário nacional. Não foi. O que aconteceu antes da bola rolar transformou o confronto em um retrato incômodo da forma como denúncias de violência contra mulheres ainda são tratadas dentro do futebol brasileiro.

Antes do apito inicial, jogadores do time acreano entraram em campo carregando camisas de quatro colegas presos no âmbito de uma investigação por estupro coletivo. Entre os titulares estava Bruno Fernandes, 41 anos, condenado pelo assassinato de Eliza Samudio, mãe de seu filho.

A cena rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais e ampliou um debate que vai além do resultado da partida. Entraram em campo questões sobre responsabilidade institucional, cultura esportiva e a forma como episódios de violência contra mulheres são recebidos no ambiente do futebol.

Investigação por estupro

Segundo a investigação conduzida pela Polícia Civil do Acre, quatro atletas do clube são suspeitos de participação em um estupro coletivo ocorrido na madrugada de sexta-feira, dia 13 de fevereiro, em um alojamento da equipe em Rio Branco.

Os jogadores investigados são Erick Luiz Serpa Santos Oliveira, Matheus Silva, Brian Peixoto Henrique Iliziario e Alex Pires Júnior.

De acordo com a polícia, uma das vítimas procurou atendimento médico e relatou violência sexual. Informações do inquérito indicam que uma das mulheres teria marcado um encontro consensual com um dos atletas. A situação teria evoluído para um episódio de violência envolvendo outros integrantes do elenco.

Erick Luiz Serpa Santos Oliveira foi preso em flagrante no sábado, dia 14. A prisão foi convertida em preventiva no dia seguinte. Os demais jogadores tiveram mandados de prisão temporária expedidos pela Justiça.

Eles se apresentaram voluntariamente à polícia na terça-feira (17). Após audiência de custódia realizada na quarta-feira (18), a prisão temporária foi mantida por até 40 dias.

Mesmo diante da gravidade das acusações, parte do elenco decidiu entrar em campo exibindo camisas com os nomes dos colegas investigados. O gesto foi interpretado como demonstração de apoio.

As declarações do treinador da equipe, Eric Rodrigues, já haviam gerado polêmica anteriormente. Ao classificar publicamente o caso como uma denúncia “muito frágil”, o técnico acabou minimizando a gravidade das acusações de violência sexual que estão sob investigação.

A fala provocou reação de autoridades e de organizações ligadas à defesa dos direitos das mulheres.

A Secretaria de Estado da Mulher do Acre (Semulher) divulgou nota pública de repúdio às falas do treinador e defendeu o trabalho das instituições responsáveis pela investigação.

O posicionamento oficial destacou que declarações desse tipo podem desestimular vítimas a denunciar violência sexual e contribuir para a deslegitimação de investigações em curso.

O Vasco do Acre afirmou, por meio de nota, que não compactua com qualquer forma de violência e que tomará as medidas cabíveis internamente.

Até o momento, o clube não detalhou quais providências serão adotadas em relação aos jogadores investigados nem comentou especificamente a homenagem feita antes da partida.

Bruno Fernandes, condenado a 22 anos de prisão pelo homicídio de Eliza Samudio, volta ao futebol profissional em clube do Acre. Foto: Clemerson Ribeiro

O retorno de Bruno aos gramados

A partida dessa quinta-feira também marcou a volta ao futebol profissional de Bruno. O goleiro foi condenado a 22 anos de prisão pelo homicídio triplamente qualificado de Eliza Samudio, ocorrido em 2010. O caso teve enorme repercussão nacional e se tornou um dos episódios mais emblemáticos de violência contra mulheres ligados ao esporte no país.

Bruno deixou a prisão após progressões de pena e está em liberdade condicional desde 2019.

Sua escalação como titular ocorreu no mesmo contexto em que o clube enfrenta a crise envolvendo os atletas presos por suspeita de estupro. A combinação desses fatos transformou o jogo em um símbolo de um problema mais amplo que atravessa o futebol brasileiro.

No ambiente esportivo, manifestações de solidariedade entre companheiros de equipe são comuns. O que chamou atenção neste episódio foi o alvo dessa solidariedade. Os homenageados são investigados por um crime de extrema gravidade, contra duas mulheres.

A partida terminou com a eliminação do Vasco-AC nos pênaltis após empate no tempo normal.

Outros casos de violência no futebol

Episódios desse tipo não são inéditos no futebol. Nos últimos anos, casos envolvendo jogadores de grande projeção colocaram o esporte no centro do debate sobre violência de gênero.

O ex-atacante Robinho foi condenado pela Justiça italiana por participação em um estupro coletivo ocorrido em 2013, em uma boate em Milão. A pena de nove anos foi confirmada em todas as instâncias e, em 2024, a Justiça brasileira determinou que ele cumpra a condenação no Brasil.

O caso teve enorme repercussão porque Robinho era um dos jogadores mais conhecidos da geração recente da seleção brasileira. Quando o Santos Futebol Clube anunciou sua contratação em 2020, houve forte reação pública e de patrocinadores, levando à suspensão do contrato poucos dias depois.

Outro episódio que abalou o futebol internacional envolveu o lateral Daniel Alves, acusado de agressão sexual contra uma mulher em uma boate em Barcelona. O caso ganhou repercussão dentro e fora do país e colocou novamente o futebol no centro do debate sobre violência contra mulheres.

Independentemente dos desdobramentos judiciais posteriores, o episódio levou clubes, federações e jogadores a se manifestarem sobre o tema e a discutir a responsabilidade do esporte diante de crimes desse tipo.

Canais de denúncia

A PM do Acre disponibiliza os seguintes números para denunciar casos de violência contra a mulher:

  • (68) 99609-3901
  • (68) 99611-3224
  • (68) 99610-4372
  • (68) 99614-2935

Veja outras formas de denunciar:

Disque 180: Central de Atendimento à Mulher

Polícia Militar – 190: para quando a violência está acontecendo ou há alguma lei sendo violada;

Samu – 192: para pedidos de socorro urgentes;

Delegacias especializadas no atendimento de crianças ou de mulheres;

Qualquer delegacia de polícia;

Delegacia especializada de Atendimento à Mulher (Deam) – Rio Branco – Telefone: (68) 3221-4799 / 99988-2610 Delegada Elenice / 99979 0517 (Delegada Kelcinaira).

Secretaria de Estado da Mulher (Semulher): recebe denúncias de violações de direitos da mulher no Acre. Telefone: (68) 99930-0420. Endereço: Travessa João XXIII, 1137, Village Wilde Maciel.

Disque 100: recebe denúncias de violações de direitos humanos. A denúncia é anônima e pode ser feita por qualquer pessoa;

Profissionais de saúde: médicos, enfermeiros, psicólogos, entre outros, precisam fazer notificação compulsória em casos de suspeita de violência. Essa notificação é encaminhada aos conselhos tutelares e polícia;

WhatsApp do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos: (61) 99656- 5008;

Ministério Público: Centro de Atendimento à Vítima (CAV) – Telefone: (68) 3212-2062 / 9993 04701

Videochamada em Língua Brasileira de Sinais (Libras).

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