Carnaval, fé e hipocrisia: o que não entenderam sobre a alegoria de Niterói

Por Daniel Zen*

O ano é 2026. Terça-feira de Carnaval. Polêmica em torno da ala “Família em Conserva”, da Escola de Samba Acadêmicos de Niterói, no desfile de Escolas de Samba do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro.

Corta para Rio Branco-AC. Dentre as dezenas de postagens, vídeos, memes e textões sobre o assunto, chamaram a atenção os conteúdos produzidos e disponibilizados pelo prefeito de Rio Branco e por uma senhora, digital influencer, que reverberaram, aqui nas Terras de Galvez, a polêmica do dia.

A julgar pelo teor da indignação manifestada por ambos, das duas uma: ou eles não entenderam nada da alegoria em questão ou então a carapuça lhes serviu. Partindo do pressuposto de que são pessoas dignas e que não se enquadram na referida crítica, sou obrigado a ficar com a primeira opção. Tanto ele, tradicional político da direita conservadora acreana, quanto ela, neo-cristã recém-convertida (de cuja conversão não duvido e nem questiono) não entenderam absolutamente nada, porquanto não possuem cognição (ou capacidade cognitiva) pra entender coisa alguma com um algum grau maior de complexidade. Tal cognição é necessária tanto para interpretar versículos bíblicos quanto para compreender uma crítica política bem elaborada. Explico:

Não se tratou de uma “zombaria” ou de “deboche” à fé cristã ou à família tradicional. Aliás, não há problema algum com a fé cristã (ou com qualquer outra espécie de fé) e nem com a família (assuma ela o formato tradicional ou qualquer outro formato): a família segue sendo a instituição mais importante da sociedade. O problema é o uso hipócrita da família, do patriotismo e da religiosidade como “selos” de idoneidade moral por quem não detém moral alguma.

A alegoria “Família em Conserva” era, justamente, uma crítica a essa hipocrisia dos que, na aparência, da boca e da porta de casa pra fora, dizem propagar e viver sob os valores de “Deus, Pátria e Família”, mas, na essência, no dia-a-dia da vida real, traem as esposas e maridos, batem e abusam dos próprios filhos (ou são apenas “pais de Instagram” que tiram e postam fotos para se exibir, mas não têm um pingo de paciência com suas crianças), vivem em promiscuidade com suas amantes, sonegam impostos na declaração anual do IRPF, desperdiçam os recursos da família em vícios (drogas, jogatina, sexo), apoiam e propagam a violência e, no extremo, praticam pedofilia e assassinam as próprias esposas. Pessoas que, em sua maioria, se declaram “conservadoras e de direita” e que defendem o “direito” de seguirem fazendo, escondidos, tudo aquilo que dizem condenar, em público.

A mesma alegoria em analise também serve a outras reflexões: uma delas é que a fé cristã não pode ser vivida apenas em aparência, não é para servir de exibição aos outros (“olhem como sou bom!”), para massagear o próprio ego (“de fato, eu sou muito bom!”) ou para que o fiel se sinta mais leve consigo mesmo (“eu peco muito, mas, como também faço coisas boas, então estou perdoado“). Fé cristã é conteúdo, não é rótulo: é amor, compaixão, solidariedade, perdão… E redenção por arrependimento sincero e verdadeiro.

Se a fé não deve ser vivida apenas nas aparências, religiosidade e espiritualidade também não deveriam servir de carimbo para atestar idoneidade, muito menos de embalagem para transmitir a ideia de que o fiel é melhor do que os outros. E também não deveriam servir de pretexto para produzir conteúdo para lacrar (e lucrar) em redes sociais. Os que agem assim são aqueles que frequentam igrejas em busca de aprovação em razão das aparências ou em busca de fazer da fé alheia um negócio, o seu meio de vida. Mas, na essência, essas pessoas não têm Deus no coração.

Esse tipo de conteúdo, como os que foram manifestados pelo prefeito da nossa capital e pela digital influencer em questão só provam que pessoas assim, com esse tipo de déficit de interpretação de texto, de imagem e de figuras de linguagem não detém maturidade intelectual, emocional e muito menos espiritual para absolutamente nada, menos ainda para conduzir os destinos de uma cidade ou para pastorear um rebanho de fiéis. Pobre de quem se deixa levar ou está sujeito à ignorância, à sanha e à ganância dos falsos profetas.

*Doutor (UnB) em Direito e mestre (UFSC) em Relações Internacionais. Professor do Curso de Direito da UFAC.

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